Ben Severson Designs: uma pequena fábrica de inovações.

Depois de quase 6 meses sem postagens, retomo o blog com um post já planejado desde o início do mesmo, lá em 2014.

No final dos anos 90 e começo dos anos 2000, uma das principais marcas de pranchas de Bodyboard do mundo era a BSD, comandada por um dos maiores nomes da história do esporte, a lenda Ben Severson.

bz-ben-capa_colagemCapa da Bodyboarding de Setembro de 1996 com Ben Severson e a publicidade da BZ dentro da revista, já mostrando a T-10 com as bordas arredondadas. Detalhe para o monstruoso bico de 14,5 polegadas. Fonte: Arquivo Pessoal BBing Magazine

Em meados de 1997 depois de sair da BZ, Ben Severson pensou e desenvolveu uma linha completa de pranchas com algumas inovações que ele já havia usado anteriormente em alguma prancha de sua agora então marca concorrente. Alguns acessórios já haviam sido lançados em 1996 e já eram sinônimo de qualidade, caso dos leashs/estrepes de espiral branco que além de resistentes eram muito bonitos e estilosos. Havia também grips de borracha e uma cordinha para pés-de-pato que é até hoje uma das melhores na minha opinião (vide imagens abaixo).

bsd_banner-abreAlguns dos primeiros anúncios da BSD nas páginas da extinta revista americana Bodyboarding Magazine, com Ben e o também havaiano Nelz Vellocido. Fonte: Arquivo Pessoal BBing Magazine

As primeiras pranchas lançadas por Ben tinham como principal diferencial as bordas “transitional”, algo criado por ele e já testado nas últimas T-10 feitas na BZ em 1996. Eram bordas que começavam lá no bico totalmente arredondadas (já que nessa área quase não entram em contato com água numa cavada por exemplo), e a medida que iam caminhando em direção à rabeta toda a parte de baixo ia ganhando um ângulo como nas pranchas tradicionais de hoje em dia, terminando em 50/50. A idéia era que da metade pra cima da prancha as bordas não deveriam “cravar” na parede da onda nem criar qualquer tipo de resistência, apenas deslizar. Já toda a metade inferior tinha a responsabilidade de manter a prancha presa à parede da onda e te colocar no trilho. Com um template vindo das BZ, com bico grande e bordas bem paralelas, as BSD eram um foguete em ondas tubulares. Outras características únicas eram as canaletas enormes (com quase 50% a mais de tamanho das tradicionais) e uma opção bem diferente de rabeta redonda para ondas menores. Nessa época a indústria americana fabricava os melhores blocos de Polypro do mundo, e a construção das BSD era impecável com suas bordas sem emendas e acabamento primoroso. Eram pranchas que chamavam muito a atenção por essa qualidade de construção e diferentes inovações.

gear-guide_colagemAs pranchas BSD no Gear Guide da revista Bodyboarding em dois momentos: a primeira linha em outubro de 1997 (ainda com o bloco em Arcel) e o modelo “113” de rabeta redonda e bloco PE. Fonte: Arquivo Pessoal BBing Magazine

Assim como dentro d’água a disputa de Ben Severson com Mike Stewart continuou fora dela, já que suas pranchas e acessórios batiam sempre de frente com a linha Science do 9 vezes campeão mundial (numa história já contada aqui). Ben Severson tinha uma bela equipe de atletas com os havaianos Lanson Ronquilio e Nelz Vellocido, e inclusive chegou a apoiar/patrocinar atletas brasileiros como os tops do circuito mundial Hermano Castro e Soraia Rocha, licenciando também suas pranchas para serem fabricadas no Brasil pela Genesis. Uma pena que essas pranchas não tinham absolutamente nada em relação aos exemplares havaianos e seguiam com os mesmos materiais usados aqui (blocos Duralight e fundo HDPE).

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A campeã mundial Soraia Rocha com sua prancha BSD de bordas transitional numa etapa do mundial no Rio de Janeiro. Fonte: Google.com/Pedro Monteiro

Com uma crise no mercado americano a partir da metade dos anos 2000, Ben Severson acabou deixando as pranchas stock um pouco de lado e acabou reservando seu tempo apenas para pedidos custom (sob medida). Nessa época a maioria das marcas começou também a passar a produção para fábricas fora dos EUA (como a Science por exemplo), e a hoje tão  famosa fábrica capitaneada por Nick Mezritz começou a ganhar força e fabricar pranchas para quase todas as marcas. O mercado australiano começou então a ditar os rumos dos equipamentos e assim algumas marcas americanas foram perdendo o espaço que tinham junto com os reflexos da tal crise, caso da super tradicional marca californiana Toobs por exemplo. O fim da revista Bodyboarding Mag acabou também com a pequena força que o mercado americano ainda tinha, e hoje vemos um total domínio do mercado australiano. Hoje em dia a única marca americana/havaiana que ainda tem fôlego para bater de frente nos diferentes mercados ao redor do mundo é a Science de Mike Stewart e talvez também a Hubboards, infelizmente.

bsd1Anúncio em página dupla na revista americana Bodyboarding em 2000, com o modelo 2042 e o famoso leash com espiral branca. Fonte: Arquivo Pessoal BBing Magazine

Atualmente ainda é possível ter uma prancha BSD, seja fazendo um modelo sob medida a seu gosto ou encomendando um template padrão parecido com os modelos antigos. Ben Severson continua fazendo as pranchas com todas as opções disponíveis à época e pode também adaptar essas características aos templates mais atuais. Confesso que tenho muita curiosidade de fazer uma custom com medidas “atuais”, mas com o conhecimento mágico que essa lenda viva ainda tem. Uma prancha com medidas da NMD Ben Player e bordas transitional e canaletas enormes seria incrível, não?

bsds_colagemAs duas BSDs que tive o prazer de usar, uma 2042 PP e outra Custom PP com medidas de uma Science E3 da época: pranchas excelentes, mas pouco duráveis.

Nos próximos posts eu imagino que teremos algum review de prancha, já que tenho prometidos pra 2017 dois test-drives com marcas bem conceituadas no mercado. A temporada de ondas aqui na região sudeste começa logo mais e vamos aguardar.

Até o próximo post, te vejo na água!

Paulo Fleury

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Test-Drive: Science Style Loaded 42.5

Science Hall

Vamos lá, mais um Test Drive por aqui! Fiquei surpreso com o feedback do post inaugural sobre a Erizos e espero transformar esses reviews em algo super comum. Espero também que as marcas e lojas colaborem, tenho certeza que o consumidor final e a galera apaixonada pelo esporte saem sempre ganhando, pra mim pelo menos é um prazer enorme fazer esses reviews.

Hoje falarei de uma prancha que desde seu lançamento (na linha 2014-15) me chamou a atenção, basicamente por dois fatores. O primeiro obviamente por ser uma homenagem a prancha mais icônica que Mike Stewart usou em toda a sua carreira, a Turbo III (que eu inclusive já contei parte de sua história aqui no blog). O outro detalhe é em relação ao bloco usado, uma opção mais mole e mais leve do tradicional Polipropileno 1.9lb, que Mike chama de Loaded Core. Esse bloco tem densidade de 1.4lb, que o torna mais leve e mais flexível, possibilitando um “sanduíche” com características bem específicas.

PQAAAHfa6iZlK_Rs7L_3LV6wZ72bm6Ay6poJYUGyc_jDm7xmVwlPn99ZvqBNSq1KtkGM5x9BrR_LpqAQyicHnq_2gqIAm1T1UH6KwcovfMyGLjwJbIDIKj-wr5VmMike Stewart dominando Pipeline como ninguém, a bordo da Turbo III original nos anos 90. Foto: Brian Bielmann

A combinação nesse caso é de uma tela imediatamente abaixo do deck e outra acima do fundo, junto de um stringer simples no meio da prancha. Essa densidade menor do bloco garante a leveza necessária pra se colocar essas duas telas e a prancha não ficar muito pesada. Essa ideia do bloco “ensanduichado” por duas telas vem de algum tempo já. Em meados dos anos 90 Mike tinha um modelo na Morey Boogie chamado Pro Comp 3, que era algo como a evolução da Turbo III.  Ela já tinha um template mais estreito mas ainda era feita com bloco de PE, o que a deixava bem pesada. A Science Style talvez seja então a prancha que Mike Stewart sempre quis usar a 20 anos atrás, mas que a tecnologia da época ainda não permitia.

Então desde 2014 fiquei namorando e sonhando com a compra, já que sempre fui fã absoluto do Mike e sempre respeitei demais todo esse seu interesse e know-how de mais de 25 anos de desenvolvimento de shapes, materiais e combinações diferentes. Talvez ele seja o único atleta que se interessou em mergulhar fundo nesse mundo ainda durante o auge de sua carreira competitiva.

Mas acabei encontrando um problema, que pelo menos pra mim acaba sendo um tanto recorrente. Essa prancha só era oferecida nos EUA (o caminho mais fácil até o Brasil) nos tamanhos “cheios”, apenas 40, 41, 42 e 43 por exemplo. Pra minha altura e peso (1,93m/83kg) a 42 fica pequena, e a 43 larga demais. O jeito mesmo foi ficar sonhando até conseguir comprar uma diretamente da Austrália, onde a versão 42,5 é oferecida.

Então em meados de Maio desse ano recebi no Brasil (com a ajuda enorme do meu amigo Christian Brito) esse exemplar das fotos. O primeiro impacto ao pegar a prancha na mão foi brutal, não só pela qualidade absurda dos acabamentos feitos pela fábrica de Nick Mesritz, mas também pelos pequenos detalhes que remetem a tão falada Turbo III. A peça separada no bico e também na rabeta garantem um certo ar nostálgico, ainda mais pra quem viveu a hegemonia de Mike Stewart nos anos 90, dominando Pipeline como ninguém.

Foto 13-05-16 20 58 16 copyClose up do acabamento e dos detalhes do bico: quase uma obra de arte.

Fiquei bem curioso a princípio porque na mão a prancha parecia um tanto larga, mas essa impressão inicial sumiu imediatamente na primeira onda. Essa largura a mais (remetendo um pouco aos shapes e desenhos mais antigos) ajuda demais na hora da remada, e some praticamente assim que você começa a cavada. Depois disso a prancha dá uma estilingada como eu nunca havia visto antes. Arrisco aqui dizer que essa combinação Loaded Core seja mais rápida até que os blocos Parabolic. Precisei adaptar minha linha de onda inclusive, forçando menos as cavadas e tentando desenhar uma linha mais suave. Nada pode ser mais Mike Stewart que isso. 🙂

IMG_1754Um dos dias de teste da Science Style, com altas ondas.

A prancha foi testada em mares de 2 a 6 pés, desde ondas mais cheias e comuns até um dia de altas ondas aqui em SP, como podemos ver nas fotos que ilustram o teste. Em todas as condições não identifiquei nenhum ponto fraco ou situação em que a prancha não passou voando pelos “flat spots” e me direcionou como uma bala para o lip ou pra sair daquele tubo super fundo. Como eu disse antes aquela largura a mais te coloca antes dentro da onda e deixa a cavada bem precisa, ajudando também na volta das manobras e nas trocas de borda. Não senti em nenhum momento a prancha “sobrando” ou “faltando”, o que pelo menos pela minha experiência é algo super raro. Geralmente aquela prancha mais larga e que vai bem nos dias menores acaba sobrando em dias grandes e vice-versa, o que definitivamente não foi o caso da Science Style.

IMG_2228Nas manobras a Science Style vai muito bem, graças a velocidade que vem das cavadas.

Hoje eu diria que das mais de 30 pranchas que tive até hoje essa foi a que mais me surpreendeu junto com as Parabolic já aqui mencionadas. Para quem busca ter apenas uma prancha, essa é sem dúvida alguma a compra mais certeira no momento, já que essa prancha atende talvez 90% das condições que nós bodyboarders encontramos normalmente. Vendo Mike Stewart surfar com esse modelo fica nítido que a prancha anda demais e dificilmente fica pra trás, mesmo em dias mais difíceis (como em um campeonato em condições não-ideais por exemplo).

IMG_1725Em algumas situações a prancha ganha velocidade até demais. Aqui tentando dar aquela atrasada pra mais um tubo. Foto: Leandro Gonçalves

Quanto a linha de onda indico demais também esse modelo pra quem gosta de surfar com velocidade e/ou fazendo aquela linha mais clássica, mas que pode ser pontuada por manobras modernas. A Science Style responde demais aos comandos e cava velozmente como poucas pranchas no mercado, junto com aquele volume a mais pra voltar manobras como ARSs e outras em dias menores. Como eu disse antes se fosse definir essa prancha seria pela sua total versatilidade, funcionando em todas as condições. Talvez seja a primeira a rivalizar a já clássica NMD Ben Player que eu sempre gosto de citar aqui.

IMG_1781Com tanta velocidade fica fácil acertar aquele lip bem no lugar certo.

Science medidas

Science Style Loaded Core 42.5

Bloco: Polipropileno 1.4 lb com tela dupla

Deck: Polietileno 8 lb NXL

Fundo: Surlyn

Stringer: Simples de carbono

Rabeta: Crescente/Swallow

Bordas: 55/45

Preço: 280~300 dólares americanos (algo em torno de R$ 1000) / disponível em lojas online como Ebodyboarding e Bodyboard King

Prós: Desenho e comportamento ultra versáteis, funciona perfeitamente na maioria das condições. Combinação mais flexível de materiais dá aquela sensação de prancha amaciada mesmo quando nova.

Contra: Dependendo da temperatura da água a Style pode ficar mole demais e não aguentar e durar por tanto tempo. Preço e dificuldade de compra. 😦

A Science Style em ação em algum lugar do Pacífico Sul. 

Agradeço demais ao fotógrafo Rodrigo Nattan por todas as fotos de ação que publico aqui, sem ele não poderia nunca ilustrar esses posts e o blog seria infinitamente mais pobre. Todas as fotos de ação foram feitas por ele a não ser que esteja o crédito descrito. Fotos da prancha feitas por mim mesmo.

Já tenho mais um Test Drive encaminhado, mas ainda não recebi a prancha e vou manter o suspense. Acesse minha conta no Instagram (@pfleury) pra ficar informado das novidades!

Até a próxima!

Paulo Fleury

Test-Drive: Erizos Santiago Sanchez Superior PP 42.25

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Como prometido nos dois últimos posts inauguro aqui mais uma seção do blog, testando equipamentos e colocando minha experiência de 25 anos no esporte em um test-drive.

No começo desse ano recebi pelo Facebook o contato do Walter Andrade, dono da loja W9 no Rio de Janeiro. Ele em primeiro lugar me parabenizou pelo blog, e depois perguntou se eu aceitaria uma prancha do portfolio da loja dele pra eu testar.

Confesso que a princípio fiquei bastante surpreso. Esse blog acabou surgindo como algo nada muito sério, comecei a escrever por sugestão de amigos e também com a ideia de compartilhar um pouco esse meu interesse (as vezes até um pouco exagerado) pelo esporte. Nunca imaginei que alguém iria algum dia me oferecer qualquer tipo de equipamento pra eu dar minha opinião, então fiquei super entusiasmado e muito lisonjeado. Lógico que aceitei a proposta do Walter na mesma hora e combinamos detalhes do envio da prancha pra São Paulo.

Comecei a pegar onda no verão de 1991, e por isso já acompanhei muitas fases desse esporte. Me lembrei então da edição anual da revista americana Bodyboarding que trazia um teste com pranchas de todas as marcas disponíveis no mercado americano naquele ano, o chamado “Test Pilot”. Dois bodyboarders profissionais da época eram chamados para testar algo em torno de 20 pranchas, algo inédito e que acho que nunca mais foi replicado até hoje. Um pequeno texto era escrito junto com detalhes dos materiais e preço das pranchas.

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Exemplo do Gear Guide no ano de 1992. Aqui a lendária Turbo III. Fonte: Arquivo Pessoal BBing Mag

Antes de começar a falar sobre a prancha deixo bem claro aqui que em nenhum momento me foi exigido um post ou qualquer opinião direcionada em contra-partida para o envio dessa prancha pela W9. Faço esse relato de livre e espontânea vontade, com a mesma naturalidade que sempre abordei os assuntos e respondi as dúvidas de todos nos comentários. E atesto a seriedade e profissionalismo da W9 em um mundo que já tem gente demais querendo passar por cima dos outros. Parabenizo aqui o Walter pelo profissionalismo e dedicação enorme em tentar manter o mercado funcionando com produtos importados, mesmo em tempos difíceis como o atual e uma cotação do dólar absurda.

Bom, vamos lá. Conversando um pouco com o Walter pelo FB falei que usava pranchas 42.5” (tenho 1,93m e 83kg), e ele me disse que tinha uma 42.25” pronta pra ser enviada. Como eu sei que tamanhos acima de 42” não são a grande maioria dos modelos comercializados (a Pride por exemplo nem tem modelos 42.5” disponíveis), aceitei e recebi como mais um desafio, pois imaginei que talvez pudesse ficar um pouco pequena. Mas no fim acabou dando certo. A prancha que eu recebi para o teste é da marca chilena Erizos, modelo Santiago Sanchez, com bloco de PP, sem tela e com o sistema “tridente” de 3 stringers. São 2 stringers curtos nas laterais próximo às bordas, começando na rabeta e indo até quase a metade da prancha, e um de tamanho padrão no meio.

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A princípio fiquei um pouco receoso pelo fato de ter esse sistema, basicamente por dois motivos: a dureza da prancha em geral e seu respectivo peso. Mas nesses dois quesitos acabei surpreendido, já que ela tem praticamente o mesmo peso de uma prancha com 1 stringer simples, e não me pareceu tão dura dentro d’água, apenas com aquela dureza tradicional de uma prancha nova. Esse sistema permite também que o bloco seja um pouco mais fino que o normal, o que garante o peso semelhante a outras pranchas e ainda dá aquela segurança a mais na pegada.

Lembro aqui mais uma vez algo que eu sempre digo aqui no blog: prancha de bodyboard NÃO foi feita pra durar eternamente, desconfie daquele prancha super dura com bloco mais grosso e meia dúzia de stringers.

A Erizos é uma marca chilena muito popular em seu país de origem, e tem todas as suas pranchas fabricadas na fábrica Agit em Taiwan. Outras marcas conhecidas no mercado mundial são fabricadas lá, caso das GT Boards, Funkshen, Nomad e QCD (até esse ano pelo menos), entre outras. Os materiais são de alta qualidade e talvez a construção geral da prancha só fique atrás do padrão das NMD/VS fabricadas na Indonésia, por conta do acabamento que é pouca coisa inferior. No mais são pranchas anos-luz a frente de qualquer prancha nacional, e utilizam a combinação clássica de Polypro, Surlyn e deck de PE/8lb mais aberto, também chamado de NXL. Ou seja, no quesito materiais e “sanduíche” escolhido, está mais que recomendada antes até de tirar do plástico.

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Quanto ao shape, a Erizos SS tem um desenho bem reto e quadrado, com bordas quase paralelas e um wide point médio, que figura mais ou menos em um meio termo entre a largura de uma NMD Ben Player e uma Found MR. Isso acaba por garantir bastante velocidade nas cavadas, mas tira um pouco o aspecto mais versátil que eu acabo sempre escrevendo aqui no blog. Vendo alguns vídeos do argentino Santiago (que assina esse modelo e que você pode ver abaixo) entendi bem o porque desse desenho, com ondas bem rápidas e com muita força sendo surfadas por ele em Teahupoo e em outras ilhas no Pacífico.

 

 

Não cheguei a pegar nenhum mar muito grande (graças ao verão bem devagar aqui em São Paulo), mas em ondas em torno de meio a 1 metro percebe-se que a prancha tem uma cavada super rápida e responde muito bem aos comandos. Como ela tem uma largura máxima um pouco limitada, talvez não funcione tão bem em ondas mais cheias e que não “empurram” tanto. Vai acabar faltando flutuação pra surfar aquele dia mais “força barra”. Mas ao mesmo tempo em partes da onda com bastante força a prancha se destaca acelerando muito bem e te levando até o lip com bastante precisão.

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O verão e começo de outono foram meio devagar aqui em São Paulo, mas ainda deu pra colocar a prancha na água. Foto: Rodrigo Nattan

Destaque especial para o sistema de 3 stringers, já que como não existem stringers embaixo dos cotovelos (como em uma prancha com dois stringers por exemplo), a estrutura superior da prancha acaba se comportando da mesma maneira que uma prancha com stringer simples, flexionando nas cavadas e projetando em direção ao lip. E nas pancadas mais fortes os stringers laterais se encarregam de não deixar a prancha dobrar e torcer em volta do stringer central. Imagino que isso ao longo do tempo garanta a integridade da prancha e também permita seu uso em locais com água bem quente, caso do Nordeste brasileiro. Esse modelo conta também com os contornos no deck ao longo das bordas até o bico. Achei bem funcional já que ajudam bastante na hora de voltar as manobras segurando as bordas.

IMG_1499_1Detalhe do acabamento acima da média

Recomendo esse modelo pra dias de ondas bem cavadas e rápidas ou dias grandes em ondas um pouco mais cheias, onde você vai fazer cavadas longas e trocar bastante de borda. Essa prancha funcionaria muito bem em ondas como São Conrado no RJ e também na Cacimba do Padre em Fernando de Noronha. Ondas rápidas, com bastante força, que realmente te empurram e que muitas vezes não dão muito tempo nem permitem muito espaço pra cavadas longas e mais lentas.

Já naqueles dias de mar mais fraco recomendo uma prancha mais larga que te dê mais flutuação e que não exija tanta força pra voltar as manobras. Lembro aqui também que usar uma prancha muito estreita ou pequena em ondas fracas acaba comprometendo sua durabilidade, já que você acaba forçando bastante a prancha pra entrar na onda e completar manobras.

 

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Erizos Santiago Sanchez Superior PP 42.25”
Bloco: Polipropileno 1.9 sem tela
Deck: Polietileno 8lb NXL
Fundo: Surlyn
Stringers: Sistema tridente com 3 stringers, sendo 2 curtos e 1 longo
Rabeta: Crescente
Bordas: 60/40 

Preço: R$ 1.290

Prós: Durabilidade, flexibilidade mesmo quando nova, construção geral muito acima da média nacional.

Contras: Desenho não tão versátil, sistema de stringers pode ser muito duro para alguns dependendo da temperatura da água.

IMG_1501Testando a Erizos SS em mais um dia pequeno aqui em SP. Foto: Rodrigo Nattan

Agradeço novamente ao Walter Andrade e ao Leonardo Teixeira da W9 pela oportunidade e recomendo 100% a loja deles pra quem precisa de qualquer tipo de equipamento para a prática do Bodyboarding.

http://www.wnine.com.br

Acho que é isso, continuo respondendo dúvidas e aceitando críticas nos comentários. Vou tentar conseguir outras pranchas para teste, mesmo sabendo que o mercado aqui no Brasil é super pequeno e limitado.

Fotos da prancha tiradas por mim, e agradeço mais uma vez ao Rodrigo pelas fotos do teste na água.

Te vejo na água, até a próxima!

Mike Stewart e sua linha de pranchas

Vamos lá pra mais um post histórico. Como escrevi no post passado quando falei das nadadeiras, vou receber nesse mês uma prancha da marca chilena Erizos para um test-drive, uma gentileza enorme do Walter Andrade da loja Wnine no Rio de Janeiro. Essa prancha ainda não chegou e como estamos em pleno verão (época fraca de ondas), acho que esse review ainda vai demorar um pouco. Mas já agradeço de antemão essa oportunidade,  muita gente sempre me pede dicas na compra de pranchas e essa vou analisar em detalhes!

Mas enquanto isso vamos com um pouco da história das pranchas de bodyboarding. Hoje falarei um pouco sobre como surgiu e quais eram os primeiros modelos da marca exclusiva da lenda havaiana Mike Stewart, criada em 1998 inicialmente sob o nome de “Mike Stewart Bodyboards”. Mike não precisa de introduções, é simplesmente o maior nome da história do esporte e quando lançou sua linha de pranchas o mercado simplesmente veio abaixo. Sempre um estudioso, ele tinha uma série de idéias em mente que só poderiam mesmo ser aplicadas quando tivesse total controle de uma linha de pranchas e sua produção.

Nos anos de 1996 e 1997 Mike Stewart ainda surfava pela Morey Boogie, e contava com dois modelos com sua assinatura: a famosa Turbo III (que depois se tornou apenas “Pro-Comp”) e a Mach 7-7 Mike Stewart (vide foto abaixo). Nessa época a empresa que detinha os direitos da Morey (a Mattel, mesma empresa que fabrica a boneca Barbie até hoje) vendeu a marca para outra empresa de brinquedos, a Wham-O. Nesse momento Mike estava desenvolvendo um terceiro modelo totalmente novo, uma prancha Bat-Tail (mais uma invenção dele e novidade na época) com deck de duas densidades e grip nos cotovelos, que vocês podem ver abaixo.

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Uma LV ainda no plástico. Imagem: Bodyboard Museum

Chamada de Launch Vehicle (veículo de decolagem na tradução pura e simples), a prancha era bem mais grossa que as pranchas comuns e tinha um deck com laterais mais moles pra teoricamente amortecer o impacto das manobras nos cotovelos. Mas com um bloco de PE e duas telas X-Flex me arrisco dizer que essa prancha deveria pesar uma tonelada. Hoje muito raras são disputadas a tapa por colecionadores nos EUA e na Austrália, passando fácil do valor de uma prancha nova.

 

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Mike em dois momentos: com a mais que famosa Turbo III fabricada pela Morey Boogie em um catálogo de 1992, e já com uma prancha sem logos na transição para sua marca em 1997/98. Fonte: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

Assim que a Morey Boogie foi vendida Mike não entrou em um acordo com a Wham-O em relação às novas bases contratuais. Fora isso ele também achou que a Morey não estava conseguindo fabricar esse modelo novo (Launch Vehicle) com qualidade satisfatória, o que acabava prejudicando as vendas e consequentemente a quantidade de royalties e dinheiro que ele ganhava. Assim, em 1997 Mike processou a Mattel e a Wham-O e acabou criando sua segunda marca (depois da Gyroll), que no começo se chamava simplesmente “Mike Stewart Bodyboards”. Depois que o contrato com a Morey terminou, Mike continuou usando alguns protótipos criados por ele enquanto suas pranchas não eram lançadas no mercado, caso dessa foto do Readers Poll de 1998 que eu coloquei acima. Eram pranchas bem diferentes do que era vendido pela Morey e encontrado nas lojas na época, e elas tinham sempre a rabeta bat-tail inventada por ele. Imagino que já eram protótipos idênticos às pranchas que seriam lançadas.

 

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Um dos primeiros anúncios das pranchas Mike Stewart na Bodyboarding Magazine. Fonte: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

Com o auxílio do shaper Brian Peterson (que depois criou suas próprias marcas Vortex e Division 71), Mike desenvolveu uma linha inicial de três pranchas bat-tail, que seguiam mais ou menos o shape que ele já utilizava na Morey Boogie, e eram fabricadas com total qualidade na Califórnia. Bloco de Polypro (que a Morey só veio usar no ano seguinte), deck Sealed Air/NXL e fundo Surlyn eram encontrados em todos os modelos. O primeiro modelo vendido foi a chamada E0, e era uma réplica da prancha azul claro e sem logos que Mike havia usado durante o inverno de 1997-1998. Com tamanho 42″ e numerada em apenas 1200 unidades, essa prancha se esgotou em pouco tempo nos EUA. Sem canaletas, sem tela e sem stringer, era uma prancha bem solta pra linha super controlada que Mike já fazia com maestria. Outros dois modelos foram lançados, chamados de E1 e E2 (vide fotos). Já incorporavam novidades que seriam seguidas por todas as outras marcas, como os contornos no deck e a super popular rabeta bat-tail lixada para o encaixe do quadril. A E2 ainda tinha algo que não foi nunca repetido até hoje: as bordas eram lixadas num desenho côncavo, como se fossem uma pequena canaleta ao longo da lateral ajudando a prancha a agarrar a parede da onda, e Mike as chamava de “delta rails”.

 

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Dois anúncios das pranchas Mike Stewart nas páginas da Bodyboarding Magazine em 1998, no caso E1 e E2 respectivamente. Fonte: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

No ano de 1999 outros modelos foram sendo adicionados a linha, que obviamente perdeu o modelo E0. A E3 e também a E4 (a primeira com rabeta crescente) aumentaram a linha junto com E5 e E6 (com rabeta em V, outra novidade) no ano seguinte em 2000. Nessa época a concorrência era grande com pranchas de altíssimo nível no mercado, principalmente das BSD vindas do gênio Ben Severson.

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Mike em Teahupoo surfando com uma E2, em um anúncio do modelo E5 no ano 2000. Fonte: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

As pranchas sempre fizeram muito sucesso no mercado mundial e pelo menos pra mim sempre foram referência de qualidade absoluta, até a chegada de Mez e sua fábrica na Indonésia. Mike acabou transferindo a produção pra lá em meados dos anos 2000, o que segue até hoje inclusive utilizando-se das mesmas tecnologias oferecidas (como o ISS). E rebatizou também a marca definitivamente como “Science Bodyboards”, permanecendo até hoje como um dos principais nomes ao redor do mundo.

ms1 copy_blogAnúncio de lançamento da E0. Fonte: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

Mais pra frente vou fazer um post similar sobre a BSD, com imagens dos diversos modelos, suas icônicas bordas “transitional” e diferentes tipos de rabeta, com uma versão reta inclusive. Bons tempos esses onde a variedade de shapes, materiais, tecnologias e rabetas cresceu bastante.

Até a próxima!

Paulo Fleury

Nadadeiras e pés-de-pato: história e o mercado atual

Depois de quase 5 meses sem posts, estou aqui de volta abrindo 2016 com um assunto bastante discutido não só em relação à funcionalidade mas também no quesito estilo: nadadeiras ou os também chamados por muitos de “pés-de-pato”.

Desde o começo da história do esporte as nadadeiras foram parte essencial do conjunto de equipamentos de um bodyboarder. O jeito de surfar deitado já vinha desde os paipo boards no começo do século 20, mas o uso de nadadeiras apareceu mesmo com a popularização do bodysurfing (surf de peito) e das pranchas de bodyboard a partir de meados dos anos 70. Ondas cada vez mais extremas começaram a ser surfadas e uma maior força e propulsão na remada eram necessários, com diferentes formatos e desenhos sempre surgindo. Até hoje vemos novas tentativas de design ou composições diferentes de borracha, como por exemplo os pés-de-pato Vulcan lançados pela Pride ano passado.

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Em certos momentos o uso das nadadeiras é essencial e vai dizer se aquele drop ou tubo será completado. Aqui Mike Stewart cravando toda a sua técnica e nadadeiras num Pipeline de sonho. Fonte: IBA World Tour / Sasha Specker

As nadadeiras são divididas basicamente em dois tipos: os assimétricos (onde um pé é diferente do outro, como os Churchill) e simétricos (como o Voit, Viper “clássico” e “MS” e também o Kpaloa). Essa escolha na minha opinião vai muito do gosto pessoal, seja na busca de um estilo ou na adaptação a um modelo específico. Já usei os dois tipos e a principal diferença prática é que os modelos assimétricos acabam forçando um pouco o joelho para fora graças ao desenho da sua barbatana, maior de um dos lados.

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Exemplos de modelos simétricos: Voit, Kpaloa, Viper e MS Viper. Fonte: Google.com e Bodyboardking.com

Até hoje eu imagino que o modelo mais famoso e utilizado no mundo continua sendo o Churchill e suas diferentes versões criadas e copiadas. Originalmente desenvolvido por Owen Churchill nos anos 1930/1940, esse modelo se tornou popular graças ao seu uso pelas forças armadas americanas, e também pela produção do mesmo pela fábrica Voit a partir dos anos 1960. O formato emulado da cauda de golfinhos e baleias faz muito sucesso até hoje, apesar de a funcionalidade não fazer muito sentido lógico a partir do momento em que se divide essa anatomia ao meio nos pés de um ser humano.

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Foto de um exemplar do primeiro modelo do Churchill, criado na década de 1940. Fonte: swelllinesmag.com

Mesmo tendo uma remada considerada média se comparado a um Viper ou Voit por exemplo, o Churchill funciona muito bem a partir do momento que se entra na onda, com a parte mais longa da barbatana virada para a parede funcionando como uma quilha principalmente em momentos críticos. Além disso a principal característica que garante sua popularidade é o extremo conforto, com um “pocket” muito macio e ainda assim mantendo uma boa resistência para a remada, além de ser super leve. É realmente difícil não se identificar imediatamente com um modelo usado a tanto tempo e que fornece tanto conforto.

Cores clássicas e novas combinações são vendidas até hoje e acabaram copiadas por diversas marcas que se favoreceram da aparente falta de uma patente, e hoje mais de 4 ou 5 marcas fabricam modelos praticamente idênticos, mudando pequenos detalhes estruturais e cores. Nomes como Stealth, Limited Edition, Found, Pride e a marca chilena Erizos tem suas versões análogas ao Churchill com combinações de cores únicas sempre vinculadas a seus respectivos times de atletas. Marcas tradicionais e mais antigas também acabaram se rendendo aos modelos assimétricos inspirados no Churchill, com a Viper por exemplo lançando seu modelo “Delta” mais uma vez sob a chancela do rei Mike Stewart.

 

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Exemplo de três diferentes cópias do famoso Churchill: Stealth S2, Limited Edition e Ally Fins. Fonte: Bodyboardking.com

Do desenho original pensado por Owen Churchill foram desenvolvidas e incorporadas mudanças por essas diferentes marcas, seja no formato e recorte da barbatana ou nas saídas de água. A Redley, marca brasileira bem conhecida até hoje, surfou esse sucesso das nadadeiras duas vezes, primeiro replicando com perfeição o Churchill americano, e depois criando um desenho próprio em 1994, famoso nos pés de Guilherme Tâmega e do também campeão Andre Botha até alguns anos atrás. Depois disso a Redley abandonou completamente o esporte deixando inclusive de vender seu modelo.

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Propaganda da Redley na Riptide australiana por volta do final dos anos 1980. Somente Mike Stewart e Ben Severson faziam parte do seu time. Fonte: Bodyboard Museum

Acho que hoje fala-se muito em cores e estilo, então a funcionalidade das nadadeiras acabou ficando um pouco em segundo plano. Mas acredito que esse é um assunto mais pessoal ainda que as pranchas, porque trata bastante do conforto muito mais do que cores, tecnologia ou coisas do gênero. De nada adianta ser a melhor nadadeira se ela não se encaixar direito no seu pé e te machucar logo no começo da queda. Por isso vale aquele mesma máxima das pranchas, teste o máximo de modelos que você conseguir, muitas vezes estamos usando o equipamento errado e nem se tem idéia disso.

Hoje no mercado nacional temos algumas opções, mas ainda nada comparado às lojas da Austrália ou EUA e seus mais de 15 modelos diferentes e um monte de cores. A marca brasileira mais tradicional continua sendo a Kpaloa, que fabrica o mesmo modelo simétrico já a algum tempo. Como eu disse anteriormente a Redley optou por parar já a alguns anos a comercialização do seu modelo, mas Guilherme Tâmega o trouxe de volta com o seu GT Fins. Cópias do tradicional Churchill também podem ser encontradas aqui no Brasil, como o Classic Fins da B2BR e também o Erizos Fins vendido pela loja carioca WNine.

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Ben Severson usando o que parece ser uma versão customizada e cortada de um Redley por volta de 1992. Fonte: Arquivo pessoal Bodyboarding Magazine

Bom, só aí já dei 4 opções então fica de novo a dica de testar o máximo de modelos possíveis. Eu já uso a quase 15 anos o Churchill e suas vertentes e cópias descaradas, ainda acho o mais confortável e leve. E o mais importante: se encaixou bem no meu pé. Atualmente tenho um par de Limited Edition trazidos dos EUA por um amigo, e é sem dúvida um dos mais confortáveis, mantendo a força na remada.

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Guilherme Tâmega numa clássica publicidade da Redley pro mercado americano. Foto: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

É isso, no próximo post abro mais uma seção diferente aqui no blog, graças a ajuda da loja W9 do Rio de Janeiro. Vou fazer o review com “test-drive” e tudo mais de uma prancha e colocar todos os detalhes aqui, aguarde!

Até a próxima, te vejo na água!

Paulo Fleury

Somos diferentes.

Esse mês não vou falar sobre materiais, siglas, fatos históricos ou outros assuntos que já apareceram aqui. Reproduzo aqui o texto que o grande Elmo Ramos me pediu e que eu tive a honra de escrever para a edição comemorativa da Revista RideIt!.

Enjoy!

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“Somos Diferentes”

“Nos últimos anos e mais precisamente na última década vimos nosso esporte praticamente “andar em um carrinho de montanha russa”. Da indefinição e queda no começo dos anos 2000, com o fim da revista Bodyboarding Magazine depois de quase 20 anos nos EUA, a criação do visionário Supertour em 2002, e em seguida com o fim da autoridade máxima do esporte, a GOB. Vimos também depois disso uma grande subida com o domínio não só do mercado mundial mas também da cena competitiva pelos atletas australianos (com alguns títulos mundiais) e suas mais de 10 marcas de pranchas e outros equipamentos.

A Austrália tomou então por completo a direção do esporte na criação do maior e melhor circuito mundial já visto, depois da criação de uma nova entidade chamada IBA, e vimos em 2012 o ápice de todo o potencial de mídia e disposição dos atletas em ondas de consequência que esse esporte tem. A internet nos mostrou com uma produção extremamente profissional etapas incríveis em Pipeline, El Frontón, Puerto Escondido e também na Austrália, com disputas em ondas moldadas para o esporte, como Nuggan e duas reedições do “The Box Challenge”, onda usada ironicamente hoje em dia pelo circuito mundial de Surf.

Com a referência das mídias sociais vimos o quanto o esporte é popular no mundo, somando milhares de acessos e “views” nos canais oficiais do YouTube e na página da IBA no Facebook. Tudo parecia caminhar para aquilo que todos a muito tempo esperavam e ainda esperam, que é a explosão do esporte na mídia não especializada e seu merecido reconhecimento com os mais de 20 títulos mundiais aqui no Brasil.

Mas de uma hora pra outra esse cenário desmoronou mais uma vez, a IBA repetiu o caminho percorrido pela GOB e se dissolveu, criou-se então mais uma associação, mas chegamos ao fundo do poço esse ano novamente com o cancelamento da etapa em Pipeline (algo que já tinha acontecido duas vezes desde o primeiro “Pipe Masters” em 1982) e uma enorme incerteza quanto ao calendário competitivo. O Bodyboarding voltou quase a estaca zero, e hoje é chamado por muitos de “o esporte de ação que continua hibernando”.

E trazendo todo esse pequeno histórico nesse texto, na edição comemorativa de uma revista que marcou história no cenário brasileiro e mundial, você que é leitor me pergunta: onde você está querendo chegar com tudo isso?

Hoje vemos o Surf praticado “de pé” dominando a mídia de uma maneira concreta, os integrantes do tal grupo chamado “brazilian storm” estão em alta e aparecem constantemente na mídia não especializada. E aí eis que surge aquela dúvida, e também para muitos um sentimento “estranho”, que não chega a ser inveja, mas sim uma grande vontade de que o Bodyboarding, um esporte jovem na sua concepção moderna atual, mas milenar na sua forma pura, tivesse algo perto desse reconhecimento.

E eu acabo questionando aqui esse sentimento e talvez essa falta que o esporte faz hoje na mídia, apesar de uma visibilidade pontual em canais de televisão fechada. E questiono de uma maneira simples, a partir da visão de quem enxerga o nosso esporte como algo que se pratica acima de tudo, com muita dedicação, muita paixão e pouca preocupação com o que as pessoas pensam ou acham. Tenho certeza de que, se você em algum momento de sua vida escolheu e continua até hoje pegando onda com a ajuda de uma prancha e um par de nadadeiras, é porque você realmente gosta disso. Não é definitivamente para agradar ninguém, não é pra impresionar sua vizinha bonitinha nem para alguém achar que você está “abafando” em um domingo de sol e praia lotada. Se você chegou até aqui e está lendo esse texto, você já é um vencedor.

Se nós chegamos até aqui, se você tem décadas de prática, ou começou a pouco tempo em cima dessa combinação estranha de espumas de diferentes densidades, calçando um pé de pato que muitas vezes machuca seus pés, não foi por causa da propaganda na TV, não foi por causa do “mainstream”, do outdoor no meio da rua, muito menos foi pensando no que sua vizinha acha. Foi porque você ama esse esporte. E nada nem ninguém vai tirar isso de você. Nós usamos equipamentos diferentes, esquisitos até, e isso já mostra como pegar onda de bodyboard é algo único, seja nas cores diferentes da sua prancha, na escolha das ondas ou na sua atitude dentro d’água quando sobe aquela série maior do dia e você rema com todas as forças para pegá-la.

E todo esse sentimento, essa paixão que todos nós temos e essa vontade imensa de manter esse esporte no alto se traduz também no jeito como nos relacionamos com outros bodyboarders, sejam eles amigos, conhecidos ou não. É muito difícil ver algum bodyboarder descendo a onda do outro de propósito, sempre nos respeitamos ao máximo, e é raro não cumprimentar alguém que você encontre dentro d’água, por mais que você não o conheça. Isso é a mais pura tradução de um sentimento de “estamos no mesmo barco, você também é um lutador e venceu como eu”. Então reconhecemos sempre isso dizendo um simples “olá” ou puxando conversa com outros bodyboarders.

O que eu quero dizer com esse texto é simples: nós não precisamos do reconhecimento de ninguém, o tamanho dessa paixão já define nossa força. Com ou sem espaço na mídia, com ou sem brazilian storm, com ou sem campeonato em Pipeline. Naquela manhã fria de inverno, onde o mar está enorme, são 5:30 da manhã e a sua roupa de borracha está molhada do dia anterior, nada disso importa. Você só quer calçar seus pés de pato e pegar onda. O resto é resto.

Nós somos bodyboarders, e isso simplesmente basta.”

Paulo Fleury

Novos materiais e blocos lançados em 2015

No último post comentei que nesse mês de julho eu escreveria sobre as novas pranchas com o sistema de stringers intercambiáveis. Esse sistema foi criado pela marca australiana Rheopaipo (mas não foi colocado no mercado) a alguns anos e lançado em 2015 com o nome de “ISS” por algumas das principais marcas mundiais.

A Broady Indonesia Global, fábrica localizada na Indonésia e que tem Nick Mesritz como cabeça pensante, tem monopolizado as principais novidades e lançamentos de materiais para a construção das tradicionais pranchas de bodyboard. Digo “tradicionais” porque nossas pranchas são fabricadas da mesma maneira a mais de 30 anos, com versões diferentes e aperfeiçoadas dos mesmos materiais praticamente. Não que isso seja ruim, mas o mercado acaba se desenvolvendo num ritmo lento e dependendo bastante da boa vontade das indústrias de matéria-prima para lançar algo diferente.

Depois da centralização de quase toda a produção mundial de pranchas nas duas fábricas na Ásia (Broady na Indonésia e Agit em Taiwan), foi possível perceber uma maior rapidez no desenvolvimento e tentativas de novos materiais e “sanduíches”. Inclusive a variedade de diferentes cores nos materiais aumentou. Isso é possível por um motivo simples: Quando se tem uma fábrica que cuida da produção de mais de 10 marcas diferentes, você consegue uma negociação diferente na hora de comprar matéria-prima. Você não está comprando 1000 “kits”para a produção de pranchas de uma só marca. Você está negociando (hipoteticamente) 10.000 blocos, 10.000 folhas de PE para os decks, 10.000 folhas de Surlyn para o fundo, e por aí vai. Esse maior poder na hora da compra do material acaba possibilitando a criação de novos blocos com diferentes densidades (como NRG, Loaded, D12 e etc), novos sanduíches de bloco (QuadCore, Tension Tech e Skintec) e também uma possibilidade maior na variedade de cores, como vimos nos últimos anos na grande quantidade de cores disponíveis nos fundos de Surlyn. Até a década de 90 o fundo das pranchas era quase sempre na cor branca, com raras exceções. Hoje temos mais de 10 diferentes cores.

E desde 2009 a marca australiana Rheopaipo (que teve como atletas grandes nomes como Ben Holland e Damian King) ensaiava o lançamento dessa tecnologia de troca de stringers para as diferentes condições de onda e também temperatura da água. Mas por algum motivo, essas pranchas da Rheopaipo nunca chegaram ao mercado realmente.

Movement_ISSPLUG_11V15OL.aiPublicidade da Rheopaipo no primeiro “lançamento” do sistema ISS. Imagem: Rheopaipo.com.au

Mas a partir de 2013 começamos a ver os atletas das marcas comandadas por Nick Mesritz (como Dave Winchester e Ryan Hardy na época) utilizando exatamente a mesma tecnologia em alguns vídeos e campeonatos, o que acabou despertando a dúvida de se essas pranchas ISS seriam realmente colocadas no mercado. Como Mez e toda a sua estrutura na Indonésia não dá ponto sem nó, em maio desse ano as pranchas começaram a chegar nas lojas, inicialmente na Inglaterra e Estados Unidos.

Esse sistema tem uma série de vantagens. Quem ainda pegou a fase das pranchas sem stringer sabe como o stringer acabou aumentando a durabilidade das pranchas, mas ao mesmo tempo limitou a resposta do bloco nas cavadas. Uma prancha sem stringer tinha uma projeção inigualável, mas na mão de certos atletas durava poucos meses.

NMD-ISS-interchangeable-stringer-bodyboards_1E a versão já finalizada e colocada no mercado pela fábrica Broady Global. Imagem: Bodyboardking.com

Mas com a possibilidade de se colocar um stringer mais mole ou mais rígido acabamos com esse dilema de projeção/durabilidade. Você pode ir testando diferentes usos em diferentes condições de onda (mar pequeno, mar grande, onda mais cheia, onda buraco). Acredito que podemos também utilizar a prancha sem stringer, apesar de ainda não recomendado nem disponibilizado pelo fabricante. E aquela prancha que já está bem dobrada e “mastigada”, pode ganhar vida nova com um stringer mais rígido.

Na etapa do mundial em Itacoatiara já vimos grandes nomes do circuito usando essas pranchas, casos de Amaury Lavernhe e Jared Houston.

11209461_393378997514153_4309989252981571846_nO atual campeão mundial Amaury Lavernhe com uma prancha da marca Sniper e o sistema ISS. Imagem: APB Tour – Itacoatiara Pro

Outra possibilidade é de se usar a mesma prancha em lugares com diferentes temperaturas da água. Geralmente em ondas com água mais gelada (como Chile ou Austrália) usa-se um bloco com material mais mole, como NRG e PE, ou uma prancha mais fina, que teoricamente duraria menos tempo. Com o sistema ISS coloca-se um stringer mais mole naquela prancha de PP e pronto. Pode-se assim levar apenas duas pranchas em uma viagem, com shapes diferentes (de repente uma com rabeta bat-tail e outra com rabeta crescente por exemplo), e ter 8 opções diferentes com apenas 2 pranchas e 4 stringers.

175209_706585072698560_927985060_oConfiar e saber exatamente que equipamento usar é fundamental em momentos como esse. Gustavo Martins negociando uma despencada no litoral de São Paulo. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

Por enquanto a maioria das marcas fabricadas na Indonésia tem lançado sua linha 2015/2016 com o sistema ISS, por uma pequena diferença de preço em cima das pranchas “normais”. Cada stringer extra custa entre 70 e 80 dólares, mas dadas as vantagens já descritas aqui acho que acaba valendo muito a pena. Marcas como NMD, VS, Science, Sniper e Pride já tem pranchas disponíveis nas lojas lá fora, enquanto Hubboards e Stealth devem lançar sua linha em breve. A QCD também lançará pranchas ISS apesar de ter suas pranchas fabricadas na fábrica de Taiwan.

Tive a oportunidade de comprar uma prancha dessas no começo de junho, e apesar de ainda não ter tido acesso a outros stringers além do “mid flex” que vem junto com a prancha, a possibilidade de se trocar sua rigidez minutos antes de se entrar na água é fantástica.

Outra novidade lançada recentemente é o bloco chamado QuadCore ou TensionTech. Esse bloco é uma nova versão de um sanduíche longitudinal de bloco com diferentes densidades, como foi o finado bloco 3D lançado em 2009. É uma colagem de duas ou três camadas de bloco (com a camada de cima sendo mais mole) e mais duas telas pra garantir durabilidade. No caso da versão usada pela marca Hubboard, são 4 peças, por isso o nome QuadCore. Já no TensionTech (usado pelas marcas NMD, VS e Stealth) são 3 peças de espuma e mais duas telas.

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Corte do bloco QuadCore onde vemos suas camadas, e o vídeo de lançamento com Jeff Hubbard humilhando os meros mortais. Imagem: hubboards.com

Essa porção mais mole do bloco por baixo do deck garante uma maior projeção, já que toda essa parte de cima da prancha se comporta como algo já amaciado. Não existe aquela sensação de prancha dura típica de todas as pranchas novas. Na volta das manobras esse pedaço mais mole também te ajuda a não perder parte das costelas naquele backflip estratosférico. 🙂

tension_tech_1_Corte do bloco Tension Tech mostrando suas camadas de bloco e tela. Imagem: Bodyboardking.com

A fábrica localizada em Taiwan também lançou um bloco utilizando-se do mesmo princípio do TensionTech, e já o disponibiliza nas suas pranchas a algum tempo, inclusive na linha GTBoards do hexa campeão Guilherme Tâmega. O chamado Skintec também usa “fatias”de densidades diferentes, garantindo mais conforto e projeção nas cavadas.

Todas essas novas tecnologias tem servido não só pra te dar uma maior performance dentro d’água, mas também para garantir uma maior durabilidade das pranchas. Lembrando sempre que esse assunto “durabilidade” é muito delicado, sempre friso aqui que prancha de bodyboard não foi feita pra durar. A flexibilidade é o nosso diferencial comparando-se todos os outros esportes onde pranchas são usadas. Senão seria muito simples, coloca-se meia dúzia de stringers em um bloco super rígido e a prancha será eterna. Mas não irá fazer nenhuma cavada nem conseguirá completar aquele drop despencando lá de cima. A busca pela combinação perfeita de projeção, dureza e durabilidade é realmente longa, e testar o máximo de combinações possíveis pode te levar a achar a prancha perfeita.

Até a próxima, nos vemos na água!

Paulo Fleury

Shape e “outline” de uma prancha: o que muda e como tirar proveito disso.

Bom, voltando finalmente depois de alguns (vários) meses sem escrever aqui, com muita gente me perguntando onde estavam as atualizações do blog. Esse ano terminei minha pós-graduação então agora o tempo livre vai ser pra surfar ainda mais e escrever sempre que possível. Já tenho mais dois textos prontos e vou soltando ao longo dos próximos meses.

No último ano não tivemos nenhuma novidade relevante em relação a materiais (tirando o grande lançamento agora em Maio de 2015 das pranchas com stringers cambiáveis, que vou fazer um review aqui logo mais), então hoje vou falar um pouco do desenho básico de uma prancha de bodyboard. Antigamente (como já abordado aqui) não existiam opções de tamanho, bloco e etc no mercado como existe hoje. Nem de cores. Todas as pranchas eram vendidas nas medidas 42 ou 43, sempre com os mesmos “color combos”, e ver gente surfando com verdadeiras “balsas” era muito comum.

A partir de meados da década de 90, com o lançamento da Morey Boogie Mach 7-40 assinada por Mike Stewart e também de versões menores da BZ Ben Severson, as marcas perceberam que havia sim uma demanda para as pranchas menores. Seja para as mulheres, que ainda eram obrigadas a surfar com pranchas enormes, ou pra aquele bodyboarder que já conseguia perceber que em certas condições uma prancha menor e mais rápida fazia toda a diferença.

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 Publicidade muito bem humorada (e executada) da Morey Boogie em 1995 anunciando os dois modelos de Mach 7-7 assinados por Mike Stewart. Fonte: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

  Mas sempre houve uma variedade grande de shapes e desenhos, e o que chamava mais a atenção sempre era uma grande diferença principalmente na altura do chamado “wide point”, que é a parte mais larga e que vai definir o desenho geral da prancha. Hoje em dia a maioria das pranchas tem o WP na altura dos cotovelos, garantindo assim a rápida troca de borda e velocidade na cavada. Mas antigamente não era assim, um exemplo disso é a BZ Ben T-10 que tinha o WP bem perto do bico, quase na linha do punho. Isso garantia uma velocidade enorme na linha do tubo, mas não era uma prancha muito boa em curvas e trocas de borda.

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Diferentes versões da BZ Ben T-10 no começo dos anos 90. Destaque para a “Ben Ts”, prancha bem pequena perto de um mundo de pranchas 42 e 43. Fonte: bodyboardmuseum.com

As pranchas da Morey Boogie seguiam obviamente a linha da Mach 7-7, que é ainda a mais usada até hoje, de bordas razoavelmente paralelas mas com um WP mais para o meio da prancha e uma curva mais suave. Exemplos clássicos desse outline (linha externa) hoje em dia são as pranchas do campeão mundial Ben Player (talvez a linha mais suave e “quadrada” no mercado) e também algumas outras, em sua maioria modelos das marcas australianas. O mercado australiano acabou dominado por um desenho mais suave e quadrado, sempre com bordas muito paralelas e rabeta crescente, que funciona bem demais em ondas rápidas e propícias para o nosso esporte. Hoje não existe mais nenhum “pro-model” australiano com rabeta bat-tail, simplesmente por questões de um mercado que não absorve mais essa combinação.

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Exemplos clássicos da “escola” australiana de proporções e medidas. Da esq. para a direita: NMD Finlay, Versus Jake Stone e Funkshen Ryan Hardy. Fonte: Bodyboardking.com

Mas aí você me pergunta: Como escolher uma prancha analisando o outline/shape? Eu imagino que iniciantes devem acima de tudo escolher uma prancha mais larga, e conforme seu nível e apetite por ondas grandes e mais cavadas for aumentando, diminuimos a largura e o tamanho geral da prancha. Acredito que a largura e o desenho final sejam mais importantes muitas vezes que a precisão com que se escolhe e se comenta tamanho hoje em dia. Sempre dá pra subir ou descer 1/2 polegada no tamanho, mas o outline define incrivelmente como a prancha vai funcionar. Bodyboarders com um pouco mais de peso por exemplo sempre terão vantagem com uma prancha maior e mais larga, assim como os mais altos devem ir atrás de pranchas maiores no tamanho mas sempre com um desenho mais suave e estreito. E tem também quem goste de mais borda, mesmo em ondas grandes. Mas eu sempre dou a dica pra testar o maior número de opções possível, as vezes você pode estar surfando com a prancha errada e nem sabe.

Hoje inclusive vemos a maioria dos bodyboarders de alto nível surfando com pranchas bem menores e extremamente “quadradas”, indo atrás sempre dessa velocidade e rapidez que essa “massa” menor pode dar em uma situação específica. Caso clássico do bodyboarder paulista Renan Faccini e suas pranchas tamanho 40,5. Perguntei pra ele o porque de usar pranchas tão pequenas e ele me respondeu: “Eu sempre gostei de pegar onda com pranchas menores pelo fato de ter uma cavada e resposta mais rápidas do que uma prancha tamanho padrão. Agora existe sim uma dificuldade maior em completar manobras como backflips, mas ao mesmo tempo todas as manobras que são completadas saem mais limpas, porque você só vai conseguir executar com o corpo totalmente colado na prancha. Eu sempre gostei de bater manobras o mais colado possível e para mim a prancha menor tem funcionado muito bem.” Percebemos na resposta do Renan como o tamanho da prancha vai influenciar demais seu estilo e linha de onda. Com aquela prancha menor não adianta querer mandar um backflip onde a onda não tem força.

renan respect Renan usando toda a vantagem de uma prancha mais estreita, com detalhe pro seu Pro Model da marca portuguesa Respect. Fonte: Passing Through/renanfaccini.com

Mas apesar de todo esse apelo atual das pranchas com o desenho mais estreito e rabeta crescente, ainda existem algumas opções mais largas e que remetem a desenhos mais antigos, caso por exemplo das pranchas do hexacampeão mundial Guilherme Tâmega e também da marca brasileira B2BR. No mercado internacional a BZ também ainda disponibiliza modelos um pouco mais largos, assim como as pranchas do havaiano Jeff Hubbard e sua marca Hubboard. Jeff inclusive sempre usou pranchas largas e meio grandes demais pro padrão, mas que funcionam demais pra ele. Como eu disse tudo é uma questão de adaptação e de se descobrir o que funciona melhor pra você.

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Exemplos de pranchas mais largas disponíveis hoje no mercado. Da esq. para a direita: GTBoards Mega-T, B2BR Rebel Pro, BZ Fundamental e Hubboards Hubb Edition. Fonte: Ebodyboarding.com / B2BR.com.br

E como o desenho da prancha vai te ajudar, te atrapalhar ou influenciar o jeito como você surfa? Isso na teoria é bem simples: Com pranchas mais largas, o bodyboarder vai ter mais facilidade em ondas mais fracas ou em momentos em que a onda não tem tanta força, mas em contrapartida em dias maiores a prancha não vai ter toda essa velocidade nas trocas de direção. Já que existe mais “massa” e mais borda, todos os movimentos acabam sendo mais lentos, principalmente nas cavadas e nas trocas de borda. Já com uma prancha mais estreita e com um desenho suave do bico até a rabeta, tudo é mais rápido quando a onda tem força, mas quando se perde pressão a prancha exige de você uma linha de onda mais clássica pra não ficar pra trás. E isso vai definitivamente definir como você surfa, que linha você acaba “desenhando” nas ondas, e de que jeito suas manobras serão executadas e finalizadas. Com uma prancha mais estreita um ARS naquele mar de 0,5 metro vai ser mais arrastado, ou muitas vezes nem completado. Mas naquela bomba de 1,5 metro a cavada mais rápida vai te mandar pro espaço, com certeza.

A partir daí tudo é uma questão de escolha e adaptação. Uma pessoa que entende demais de design de pranchas é meu amigo Christian Brito (que já deu sua opinião aqui no blog sobre as pranchas Parabolic), e a gente sempre conversa demais sobre shape, materiais e lançamentos do mercado mundial. Perguntei pra ele como o desenho de uma prancha pode influenciar o jeito que alguém surfa, e ele me disse que “hoje em dia as pranchas mais estreitas e com pouca curva em seu outline permitem readaptar a maneira de se surfar para algo mais limpo, procurando fazer o que a onda realmente pede e mais importante, o que a onda permite. Essa nova tendência de designs mais limpos e suaves te ajuda a surfar de um jeito mais racional, dando mais tempo para ler a onda, permitindo mais resposta, controle, fluidez, velocidade e bottom turns mais seguros e projetados. Resumindo, os desenhos mais estreitos e de pouca curva permitem manobras mais limpas em ondas fortes, drops mais verticais e muito mais controle dentro do tubo, sem aquela sensação de se estar “dirigindo um ônibus” quando você precisa apenas de pequenas correções e de muita velocidade”.

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Christian usando toda a velocidade de uma prancha estreita pra passar essa bela sessão em Padang Padang. Imagem: Arquivo Pessoal Christian Brito

O segredo é identificar que tipo de onda você surfa normalmente, e as vezes quem sabe ter duas pranchas com características distintas e que se adaptem a diferentes condições, tirando proveito total do seu equipamento. As possibilidades são enormes e achar aquela prancha mágica que funcione bem em qualquer condição é uma proeza e tanto!

Eu tenho usado já a alguns anos as pranchas do campeão mundial Ben Player. Para mim até hoje foi o desenho que se adaptou melhor a diversos tipos de onda e diferentes condições. Vendo alguns vídeos pela internet percebe-se como ele tira proveito de um pouco mais de borda em alguns momentos, mas consegue surfar com maestria ondas extremas como Pipeline, Teahupoo e outras. As pranchas Science da lenda havaiana Mike Stewart também acabam indo pra esse lado com um desenho mais all around, bom exemplo disso é o modelo Pocket LTD que tem praticamente o mesmo desenho das NMD Ben Player. Pranchas como as da marca australiana Found e também as pranchas Pride já tem características menos versáteis e acabam funcionando melhor e quase que exclusivamente em ondas com muita força, graças ao bloco mais fino e desenho muito pequeno e estreito.

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Exemplo de dois shapes estreitos mas ao mesmo tempo versáteis: NMD Ben Player e Science Pocket LTD.

Fonte: nmdboardco.com/ebodyboarding.com 

Agora cabe a você ir atrás e tentar identificar a que desenho/shape você se adapta melhor. Sempre que possível tente surfar ou pelo menos ficar em cima de uma prancha diferente dentro d’água. Assim você vai identificando como funciona a “pegada” de modelos diferentes e o quanto ele flutua com você por cima. Peça sempre e encha o saco daquele amigo ou conhecido que apareceu na praia com um modelo novo. O conhecimento pra tudo nessa vida a gente ganha com diferentes situações e repertórios.

É isso, o próximo post será sobre o sistema ISS de diferentes stringers, grande novidade lançada mês passado.

Até a próxima, te vejo na água!

Paulo Fleury

Review: Passing Through

Mantendo a média de pelo menos um post por mês, hoje falarei um pouco de vídeos e filmes sobre o esporte.

Bom, eu sempre fui um aficcionado por vídeos de bodyboard, desde o tempo de “Bodyboarding Enough Said” e também da série clássica “Bodyboarding Video Magazine”, do californiano Tom Boyle. Na minha época de moleque era através dos vídeos que a gente sabia o que acontecia no esporte em todo o mundo. Como por exemplo: como tinha sido a temporada havaiana, que prancha que Mike Stewart tava usando, como tinha sido o mundial em Pipe e por aí vai. Lembre-se bem que não existia internet, o mercado no Brasil já era bem limitado, e colocar as mãos em uma cópia de um vídeo “gringo” era uma emoção única. Os vídeos em VHS custavam na época 30 dólares nas lojas, e quando eu viajava tentava trazer todos os lançamentos possíveis, ou seja, não era uma brincadeira das mais baratas nem das mais simples. Tenho até hoje um armário cheio dessas fitas, com a maioria dos vídeos mais importantes incluindo os três primeiros NoFriends, que revolucionaram o mercado e a produção de filmes sobre o esporte no final da década de 90.

Mike Stewart destruindo tudo em um dos muitos vídeos lançados nos anos 90. 

Hoje em dia com a popularização e facilidade de produção de conteúdo para a internet, a quantidade de pequenas produções lançadas de graça aumentou consideravelmente, ao mesmo tempo que produções mais tradicionais destinadas a venda acabaram desistindo do mercado. O que antes era um bom negócio e uma ótima maneira de se ganhar dinheiro com o esporte (vide o exemplo que dei da marca NoFriends), acabou se diluindo em projetos esporádicos de alguns atletas ou marcas e limitados ao maior mercado mundial, a Austrália. O mercado americano, que tinha ótimas produções vindas da California simplesmente sumiu depois que os webcasts engoliram tudo através do YouTube e do Vimeo. Mas pro bodyboarder comum isso acabou facilitando bastante, e a maioria das grandes produções está disponível para download de um jeito muito fácil.

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Mas hoje vamos falar de uma das mais esperadas produções do país que já domina o esporte a um bom tempo, a Austrália. Desde o começo do ano passado a revista le Boogie (que já tinha colocado no ar projetos incríveis como “Detours” e “Pitstops”) apoiou e desenvolveu um projeto chamado “Passing Through“, que acompanhou os principais nomes do Bodyboarding mundial, competidores ou não, em diversas locações ao redor do mundo. Lugares com garantia de onda boa (como Indonésia, Tahiti, Portugal e logicamente a Austrália), e também outros não tão tradicionais e que normalmente não fazem parte desse “circuito” aparecem em destaque no filme, como Japão, Nova Zelândia e também o Brasil, mostrando inclusive algumas ondas aqui no Estado de São Paulo. A direção está a cargo de James Kates, que é um nome muito tradicional do free surf na Austrália. Mais uma prova de que muita gente envolvida com o esporte tem competência em qualquer coisa que faça, e nesse caso toda a direção, produção e arte são de se tirar o chapéu.

A produção é de altíssima qualidade, com uma preocupação enorme e incomum com alguns detalhes. Percebe-se uma preocupação recorrente com enquadramento e fotografia, o que garante ao filme um status de super produção, inclusive quando comparado aos filmes de surf. Existe também no começo do filme uma linha de design e estética gráfica (provavelmente vinda dos competentes designers da revista), que ao longo do filme vai sendo deixada de lado em favor das cenas de ação e lifestyle. A trilha sonora se destaca também, tendo sido criada e escolhida junto com bandas locais da Austrália especialmente para o filme, um detalhe bem interessante e singular.

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O visual é muito valorizado durante todo o filme. Aqui um exemplo na Nova Zelândia. Frame: le Boogie/Passing Through

Passing Through não é somente uma das produções mais bem feitas dos últimos anos, com alguns dos maiores nomes do esporte, mas ela também traz de volta alguns picos que já não tinham tanta visibilidade em filmes como antes, como no caso de Teahupoo no Tahiti. Ver Jake Stone, Jason Finlay e Michael Novy descer aquelas ondas com tanta facilidade me fez lembrar dos dois campeonatos que já aconteceram lá em 2000 e 2003, com performances matadoras de Ryan Hardy e Damian King respectivamente. Outras ondas não tão divulgadas também são mostradas, como a pesada e perfeita esquerda em Central Java (com Dallas Singer quebrando tudo) e a Praia do Norte em Portugal.

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Jason Finlay em um dos takes mais impressionantes do filme. Frame: le Boogie/Passing Through

O próprio roteiro e a forma como o filme “caminha” ao redor do mundo tem toda uma maneira única e incomum, indo e voltando dos diferentes lugares e ondas, sem linearidade. Destaque para a session de Jared Houston e Pierre Louis Costes nas ondas de Portugal, simplesmente uma aula de manobras em ondas de muita consequência. Muito bom também ver nomes como Nick Gornall surfando aqui no Brasil, e também a performance do “menino prodígio” Renan Faccini em ondas pesadas. Um atleta brasileiro conseguir espaço em uma produção australiana desse tamanho é algo inédito e tem que ser muito valorizado.

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 Jared Houston indo pra uma junção um tanto pesada aqui no Brasil. Frame: le Boogie/Passing Through

Passing Through é item obrigatório na videoteca de qualquer bodyboarder. Fazia tempo que eu não assistia a uma produção tão caprichada e tão interessante visualmente, com um roteiro e trilha sonora únicos. Passing Through acaba atravessando aquela barreira dos aficcionados pelo esporte, e tenho certeza que vai chamar a atenção mesmo de pessoas que não pegam onda. Junto com “Killer Days” de Mitch Rawlins, é um dos principais filmes de 2014 e vale cada centavo dos 10 dólares que custa.

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Renan Faccini indo pras cabeças. Será que voltou? Frame: le Boogie/Passing Through

Você pode comprar o filme e baixá-lo em HD, pela Itunes Store em qualquer lugar do mundo. Aqui vai o link da loja brasileira. E o melhor, custa bem menos que qualquer fita VHS dos anos 90! Só precisa de um cartão de crédito e uma boa conexão de internet.

Depois é só assistir antes de destruir tudo naquela session. Afinal, quem nunca ficou “pilhado” vendo vídeos antes de surfar? 😉

Até a próxima, te vejo na água!

Paulo Fleury

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English Version

I am still trying to keep up with at least one post each month, and this time we are talking about movies that keep our sport alive.

Since when I was really young I was a video freak. “Bodyboarding Enough Said” and the classic “Bodyboarding Video Magazine” series were standouts from the early “VCR Era”, and once you had your hands on one of the many tapes released at that time, you were in for a blast. That was the only way that here in Brazil you could know and watch what was happening around the globe with our loved sport. How was the past hawaiian season? What board was Mike Stewart riding? How was the Pipeline Championship? All of these questions were answered with a single VCR tape. Remember that there was no internet, the brazilian market was really small (as it still is today), and as I said before getting your hands on one of the latest releases was a huge thing, specially because they were not sold anywhere. You had to rely on friends traveling overseas or bring it on your own. They were sold at 30 dollars each, so it was kind of an expensive thing to buy and collect them all. I still have more than 20 VCR tapes stocked, with a few of the most important releases, including all of the first NoFriends series, that revolutionized the scene and the way videos were made at that time.

Mike Stewart in one of Tom Boyle’s early 90s videos.

Throughout the years, with the popularity of audio and visual production going around the internet, a lot of short videos were released each month, at the same time that traditional producers form the old era kind of started giving up. What was once a good market started fading away with the release of videos via YouTube and Vimeo. Even NoFriends gave up on video producing and editing. But for the common bodyboarder it was an easier and cheaper way to get content, and right now movies from all over the world are available at your desktop or flat TV.

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Today I am writing a short review of one of the most anticipated productions that came from Australia this year. Since the beginning of 2013, le Boogie (a magazine that had already made top notch projects like “Detours” and “Pitstops”) started producing and supporting a new project called “Passing Through”, that keeped track of a few of the biggest names of the sport around the globe. Places that are already known for the quality of their waves (like Indonesia, Tahiti, Portugal and obviously Australia), and also other places that are not your common wave destination, like Japan, New Zealand and Brazil, were explored. James Kates (who is already a well know freesurfer in Oz)  is the director, proving that we have people really talented in our sport with whatever they do. Direction, art and production are top notch as expected.

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Scenery is one of the greatest characters of the movie. Here an example from New Zealand. Frame: le Boogie/Passing Through

The overall result is maybe some of the highest quality visuals ever seen in our sport, and you can easily identify that there was a lot of time spent with details that are not that common on such a small industry. Framing, photography and color grading are just a few to name, giving the film a super production kind of look, even when compared to stand-up surf flicks. You can also check at the beginning that there is a design and graphic line being followed, and as the movie goes on action and scenery just takes it place perfectly. Sound tracks are really unique also as they were produced and chosen together with local bands specially for Passing Through, which is really cool.

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 Jason Finlay in one of the most impressive takes during the movie. Frame: le Boogie/Passing Through

Passing Through also brings back some waves that were not seen anymore as they were used to a few years back, just like Teahupoo in Tahiti. Watching Jake Stone, Jason Finlay and Michael Novy dominate those waves just got me back to the two contests we had over there more than 10 years ago, dominated by Ryan Hardy and Damian King. A few other waves are well portrayed, like the heavy and perfect left in Central Java (with Dallas Singer goin’ huge) and Portugal’s Praia do Norte.

The whole script and the way that the movie “walks” around the globe coming and going all the time is also an interesting part. Standouts also include Jared Houston and PLC in Portugal, teaching a maneuver class in heavy waves. It is really nice to watch Nick Gornall going for some brazilian wedges, and also the performance of “wonder kid” Renan Faccini. To see a brazilian bodyboarder be featured in an australian movie is something outstanding that should be always mentioned.

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 Jared Houston going for a heavy section somewhere in Brasil. Frame: le Boogie/Passing Through

Passing Through is a “must have” for every bodyboarder, and it has more than 60 minutes of high performance action with really nice scenery and perfect takes and lifestyle shots. It definitely gets through that “barrier” that even people who don’t bodyboard will be keen on watching it. Together with “Killer Days” it is one of the biggest hits of 2014 and is well worth the download price.

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 Renan Faccini goin’ huge. Did he made it? Frame: le Boogie/Passing Through

You can download your copy in HD quality via Itunes Store, here is the link. And the best part is that it is just a fraction from what a VHS tape from the 90s used to cost! All you need is a valid credit card and high speed internet.

See you in the water!

Paulo Fleury

 

 

 

 

 

Rivalidades históricas: Mike Stewart x Ben Severson

Bom, pra quem de repente acompanha o esporte de vez em quando, ou acabou não indo muito atrás de sua história desde o começo, talvez imagine que Mike Stewart dominou completamente a cena competitiva nos anos 80 e começo dos anos 90. Apesar de todos os números apontarem para isso (Mike é 9 vezes campeão mundial, 11 vezes campeão em Pipeline e 8 vezes campeão americano), uma grande rivalidade dificultou e valorizou bastante a escalada de conquistas da lenda havaiana, que já foi até assunto de reportagem da revista Surfer nos anos 90.

Ben Severson, nascido e criado no Hawaii junto com suas potentes ondas, e da mesma geração que construiu a cena competitiva do esporte junto com outros nomes, foi sem dúvida o maior rival de Stewart na época do surgimento do esporte e em sua consequente consolidação como esporte radical conhecido mundialmente.

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Ben Severson em anúncio da fábrica que produzia os blocos de Arcel nos anos 90. Imagem: Arquivo pessoal Bodyboarding Mag

Ben Severson não só foi o maior rival de Mike em campeonatos, mas também disputou com ele a popularidade nas lojas com a criação de um dos primeiros “pro-models” do esporte, assunto já abordado aqui no blog quando desvendamos todos os segredos da prancha BZ Ben T-10. Nessa época as duas marcas mais populares do mundo eram BZ e Morey Boogie, e cada uma tentava alavancar suas vendas com a ajuda de Ben Severson e Mike Stewart. Severson inclusive foi o pioneiro no desenvolvimento de novas idéias e uso de materiais diferentes em suas pranchas.

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Mike Stewart em uma reportagem especial da extinta Fluir Bodyboard, por volta de 1997. Imagem: Arquivo pessoal

Mas foi na cena competitiva que os dois chamaram mais a atenção de todos. No final da década de 80 e começo dos anos 90, os EUA tinham um dos circuitos regionais mais fortes do mundo, senão o mais forte. A cervejaria Budweiser bancava um circuito enorme, com mais de 10 etapas, que juntava Surf e Bodyboarding em disputas por diversos estados americanos, inclusive com etapas no Hawaii. Era o chamado “Bud Pro Tour”. Como ainda não havia circuito mundial de bodyboarding, esse circuito americano ganhava muita importância e espaço na mídia, já que os atletas havaianos eram os expoentes nessa época. Mike Stewart e Ben Severson já eram campeões mundiais, e disputavam bateria a bateria a popularidade e os títulos de um mercado em franca expansão e crescimento. É importante lembrar que nessa época vivíamos o auge do esporte em matéria de investimento, onde até as marcas exclusivas do Surf queriam sua fatia do bolo (assunto também já abordado por aqui!). Apesar desse circuito não favorecer o nosso esporte no quesito ondas (as etapas eram compartilhadas com os campeonatos de surf em ondas como Trestles e Steamer Lane, por exemplo), a premiação era muito boa (5.000 dólares para o vencedor) e o circuito contava com uma ou duas etapas no Hawaii. Guilherme Tâmega também chegou a disputar o Bud Pro Tour e inclusive foi campeão em 1995.

Etapa do Bud Pro Tour 1993 em Ocean Beach, em São Francisco. Destaque para a linha de onda de Mike Stewart, diferenciada desde sempre.

 Esse cenário acabou aumentando ainda mais essa rivalidade, já que Severson e Stewart polarizaram as atenções de mídia, do mercado e nas competições, em uma época em que o Bodyboarding talvez fosse até mais popular e aparecesse mais na mídia que o Surf. No ano de 1991, das 11 etapas do Bud Pro Tour, Mike Stewart ganhou 6 e Ben Severson ganhou 5 etapas. Daí percebe-se a importância e o tamanho dessa rivalidade que polarizou forças na primeira e segunda décadas do nosso esporte.

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Mike Stewart em um el rollo de execução perfeita, e levantando um belo cheque de 5.000 dólares em uma das etapas do Bud Pro Tour 1991. Imagem: Arquivo pessoal Bodyboarding Mag

Como Severson e Stewart são havaianos, suas maiores performances sempre aconteceram em Pipeline, até hoje considerada a onda mais famosa do mundo. Os dois estavam nitidamente a um nível acima de todos os outros, e até hoje coloca-se Ben Severson como o único que era capaz de rivalizar e parar Mike Stewart até a metade dos anos 90. Esses dois nomes definiram como se surfava Pipeline em cima de uma prancha de bodyboard. No YouTube encontram-se exemplos dessas “disputas” e vou colocar aqui trechos de dois filmes dos anos 90, que mostram a importância dessa rivalidade e um pouco da história do nosso tão querido esporte.

Mike Stewart no filme da década de 90 “Volar”: destaque pra onda que começa aos 0:34, talvez um dos maiores exemplos do que é o seu domínio em Pipe.

Algumas ondas de Ben Severson em Pipeline nesse vídeo de 1997.

A partir de 1994 essa rivalidade acabou esfriando, já que Guilherme Tâmega ganhou o mundial em Pipeline e também começou a disputar o circuito americano, ganhando inclusive no ano seguinte. As atenções se voltaram então para o que é até hoje a maior e mais longa rivalidade do nosso esporte, e que será abordada aqui no futuro. Mas pra quem como eu começou a pegar onda no começo dos anos 90, Mike Stewart e Ben Severson dominaram tudo o que girava em torno das competições, notícias e equipamentos, durante mais de 15 anos.

Falaremos de outras rivalidades em breve, até a próxima!

Paulo Fleury