As marcas de surfwear e sua relação com o Bodyboarding

A discussão em torno das marcas de surfwear e seu apoio ou desprezo ao mercado do Bodyboarding mundial não vem de hoje. Ela data da metade dos anos 90, com o começo de uma crise mundial na época e a consequente retirada de muitas marcas do mercado em geral.

Pra quem não sabe as marcas de surfwear já investiram pesado no nosso esporte, inclusive com as chamadas “Big Threes” (Billabong, Rip Curl e Quiksilver) mantendo grandes times de atletas e em alguns casos até linhas de prancha, como é o caso da Quiksilver com as chamadas Q-boards na metade dos anos 90. (vide imagem abaixo). Pela lógica nós bodyboarders temos o mesmo estilo de vida, e gostamos de quase as mesmas coisas que nossos “tão queridos” amigos surfistas. Isso já seria o suficiente para despertar o interesse de marcas que lucram milhões de dólares fazendo um ciclo de investimentos em atletas e imagem, para que esse estilo de vida gere interesse em possíveis consumidores, surfistas ou não. Mas essa lógica não tem sido suficiente, e hoje o esporte não consegue ainda se firmar com o seu ciclo próprio de marcas e consumidores.

Qboards_Riptide 1997 copy

Não, isso não é uma miragem. É sim um anúncio da Quiksilver e sua linha de pranchas na Austrália, por volta de 1999. Imagem: Arquivo pessoal

  No surgimento e consequentemente no chamado “boom” do esporte, do final da década de 80 em diante, até o meio da década de 90, pegar onda com uma prancha de bodyboard além de muito divertido fazia parte do que era moda na época. Comerciais de TV mostravam como o Bodyboarding era simples, seguro e divertido, e a mídia aberta cobria a maioria dos eventos e campeonatos. Isso acabou chamando muito a atenção das marcas que faziam parte do universo do surf, e que inteligentemente não queriam perder uma bela fatia do mercado formada por “novatos” que começavam a praticar um esporte relacionado à praia. Sendo assim Billabong, Rip Curl e Quiksilver, junto com outras marcas menores, patrocinavam atletas do agitado mundo do Bodyboarding na época.

Mike Stewart teve por algum tempo patrocínio das roupas de borracha O’neill e também da marca Gotcha (que depois se tornou MCD), a Billabong tinha em Seamas Mercado seu garoto propaganda, e a Quiksilver apostava na jovem promessa do dropknee Paul Roach. Sem falar em marcas menores e seus respectivos atletas como a Body Glove e Local Motion que patrocinavam Ben Severson, um dos maiores nomes na época.

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Mike Stewart e seu estilo inconfundível estrelando anúncio da O’neill, por volta de 1992. Imagem: Arquivo pessoal

  Mas depois que o Bodyboarding deixou de ser novidade, as marcas foram gradativamente deixando o esporte de lado, juntando-se à idéia de que era algo pra iniciantes, e que não colaboraria com a imagem “descolada” que o surf buscava na época. Com uma crise econômica crescente nos EUA, apenas as filiais locais das marcas mantiveram os patrocínios aos atletas, caso de Ben Player pela Quiksilver, e o grande time que a Billabong possuia na Austrália, com nomes como Ryan Hardy, Andrew Lester, Mitch Rawlins, Damian King, Matt Lackey e também com o sul africano Andre Botha. Como a Austrália já era uma potência como mercado, ninguém queria deixar de lado todo esse potencial.

  Mas no resto do mundo era diferente, e uma grande crise econômica nos EUA acabou por colocar a última pá no já decadente mercado americano, que ainda era o centro das atenções com as principais marcas. Mas já ouvi uma história de que a Quiksilver propôs a nada menos que Mike Stewart, em meados dos anos 90, um contrato de patrocínio, que não foi aceito pelo onze vezes campeão mundial. Diz a lenda que Mike Stewart exigiu à época ganhar o mesmo que Kelly Slater ganhava, como que tentando colocar o Bodyboarding no mesmo patamar de importância do surf. A Quiksilver não aceitou, e Mike Stewart depois da O’neill e da Gotcha não teve mais nenhum patrocínio de roupas ou wetsuit, continuando somente como atleta da Morey Boogie.

Billabong Seamas 1991

A Billabong também queria uma fatia do esporte da moda, no começo dos anos 90. Aqui um anúncio na Bodyboarding Magazine, em 1991. Imagem: Arquivo pessoal

  Depois de todo esse apoio e consequente abandono, eu imagino que hoje em dia com um mundo totalmente interligado e globalizado, onde as pessoas não pensam mais sem o uso de internet e com a grande influência das mídias sociais, as grandes marcas tem um certo receio de que o Bodyboarding cresça realmente e se torne algo descolado para as massas. Exatamente do mesmo jeito que aconteceu a 25 anos atrás, quando estávamos na mídia a toda a hora. Acho até que seria um pouco de medo, já que nos últimos 10 anos os bodyboarders se tornaram referência na descoberta de ondas extremas e bizarras, colocando muito da imagem do surf apenas como algo da moda e não tão radical. O Bodyboarding está hoje no quesito radicalidade muito a frente de nossos “colegas em pé”, isso é fato.

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Paul Roach era atleta da Quiksilver em 1991. Imagem: Arquivo pessoal

  Todo esse desligamento da imagem do surf praticado em pé, que as grandes marcas quiseram tanto e ainda insistem, com a mídia impressa batendo também nessa tecla, acabou criando um ambiente propício para um pequeno crescimento do mercado de produtos específicos para Bodyboarding no mundo todo. Vimos ao longo dos últimos 5 anos um crescimento do mercado de roupas de borracha específicas para o esporte. Só na Austrália temos 6 marcas diferentes, e existem outras marcas ao redor do mundo também. Isso quer dizer que o mercado e seus respectivos consumidores não se enxergam mais como “dependentes” do mundo do surf. Se eu surfo deitado o tempo todo, porque eu vou comprar uma roupa que é feita para ser usada de pé? Pense nisso na sua próxima compra e fortaleça o nosso já limitado mercado, nada de roupa de borracha da Quiksilver, Billabong e similares. Eles não estão nem aí pra você e sua prancha de bodyboard.

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O mercado de roupas de borracha cresceu nos últimos anos. A Reeflex é um exemplo de fabricante específico para Bodyboarding. Imagem: reeflex.com.au

  Talvez o único exemplo que ainda exista de um patrocínio de uma grande marca a um bodyboarder seja o caso do francês Pierre Louis Costes com a Rip Curl, embora seu contrato seja com a filial francesa, e seu nome apareça apenas no site europeu da marca. Se a própria marca patrocinadora “esconde” seu atleta, eu pelo menos não me sinto à vontade em comprar seus produtos. Parece aquele seu conhecido que te dá tapinhas nas costas, mas quando você vai embora ele fala muito mal de você. Ou seja, queremos o seu dinheiro, mas não pegue onda deitado, isso não é tão legal aos nossos olhos. Fica aqui a reflexão, pense bem na hora de comprar aquela camiseta ou roupa de borracha da Rip Curl e de outras marcas.

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Porque a Rip Curl Internacional não patrocina nenhum bodyboarder? Aqui PLC e seu patrocínio “regional”. Imagem: bodyboardpt.com

Semana que vem tem mais, vamos falar sobre viagens, algo que está sempre na cabeça de quem pega onda. Até lá!

Paulo Fleury

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