Novos materiais: desvendando algumas opções do mercado atual

Hoje vou falar detalhadamente de alguns materiais e diferentes versões e combinações disponíveis no mercado. Talvez esse post fique um pouco longo, mas o assunto rende sempre bastante discussão pra quem se interessa e gosta.

Nos últimos anos muito tem se falado dos materiais disponíveis nas mais de 10 marcas de ponta existentes hoje no mercado internacional. Bem diferente de antigamente, quando não haviam opções nem de tamanho (praticamente todas as pranchas eram 43″), e muito menos de bloco, hoje em dia algumas marcas oferecem 4 combinações diferentes de bloco e stringer para cada modelo, como eu já escrevi no post inaugural do blog. O mercado australiano domina o lançamento de novas tecnologias (por razões óbvias) e nos últimos anos vimos a chegada de pelo menos dois novos blocos, lançados pela principal fábrica de pranchas de bodyboard, localizada na Indonésia.

O Bodyboarding foi, desde o começo, dominado pelo Polietileno (também chamado de PE ou Dow), um material já largamente utilizado para produzir embalagens de plástico. O bloco, deck e bordas eram sempre feitos desse material em diferentes densidades. Isso durou praticamente 20 anos, e apesar do surgimento do Arcel no final dos anos 80, o PE reinou absoluto até meados da década de 90, quando apareceu o Polipropileno (PP). O PP é uma espuma mais leve, mais resistente e mais moderna, e só não enterrou de vez o PE depois do seu uso na fabricação de pranchas por ser muito rígido em locais com água mais gelada, como Portugal, Austrália e costa oeste dos EUA. No Brasil depois do fim da Morey Boogie nacional, não houve muita mudança e o cenário infelizmente é praticamente o mesmo desde então, com um pequeno mercado sem inovação a anos (como já comentado aqui também).

MS Morey Boogie Ad 1994

Até meados dos anos 90 quase não existiam opções de bloco e tamanho. Aqui um anúncio da Morey Boogie em 1994, com modelos feitos inteiramente em PE, e Mike Stewart humilhando os simples mortais. Imagem: arquivo pessoal

  Com a diminuição do uso do PE em blocos a partir de 2009 (junto com uma lenda talvez infundada de que a Dow Chemical não fabrique mais blocos de PE), os bodyboarders que surfam em água gelada ou que gostam de um bloco mais flexível se viram com um problema. De início a indústria criou alternativas fundindo os dois materiais (como o bloco “3D” utilizado pela VS/NMD e também pela Pride por volta de 2010 e ainda vendido na Europa), e depois foram sendo desenvolvidos blocos de PP com diferentes densidades, com cada marca os chamando por um nome diferente. Hoje todas as marcas tem essa opção, casos do NRG (VS./NMD/Stealth/Pride), Loaded (Science), EFC (Nomad/Funkshen/QCD) e Paradox Cell (Found). Cada marca utiliza uma densidade diferente, sendo as mais comuns 1.4 e 1.6 libras, sempre combinadas com tela e stringer pra garantir sua resistência. Em Portugal a Refresh vem experimentando diferentes combinações também em suas pranchas sob medida, mas hoje falaremos apenas do que está disponível em lojas ao redor do mundo.

Graças a essas novas densidades, que deixaram o bloco de PP mais leve e mais flexível, novas combinações e “sanduíches” de material foram criados. A NMD colocou duas telas junto com 3 stringers nos blocos NRG, com uma versão também de stringer simples e uma espécie de pilar estrutural embaixo do deck. Outras marcas colocaram stringers “flat” moldados diretamente dentro do bloco. Essa combinação parece perfeita pra água fria, já que utiliza a flexibilidade de um bloco de baixa densidade com a estrutura das telas no fundo e no deck ou stringers específicos.

NMD Web Splash

O bloco Parabolic em detalhes no seu lançamento em 2011, junto de Nick Mezritz. Imagem: bodyboardingbrasil.com.br

  Mas a opção que mais chamou a atenção nos últimos anos foi criada pela mente do mais famoso shaper e desenvolvida junto com um dos atletas de ponta da atualidade. Nick Mezritz desenvolveu com Dave Winchester ao longo de 2009 e começo de 2010 o que hoje chamamos de bloco Parabolic ou PFS, e chamado por eles na época também de “carpete mágico”. É uma combinação de PP “comum” (1.9lb) no meio da prancha, e PP de baixa densidade (1.6lb) ao longo das bordas. Tudo isso colado por “vigas” estruturais (que são visíveis no deck e no fundo) com uma tela junto do Surlyn. Apesar de toda essa complexidade, a prancha tem o mesmo peso de uma prancha feita inteiramente de PP 1.9lb, mas com uma resposta totalmente diferente. Com uma NMD Parabolic, Dave Winchester dominou o Arica Chilean Challenge de 2010, e a NMD continua até hoje como a principal marca de pranchas de bodyboarding do mundo. Todos os modelos e mais informações das pranchas podem ser encontrados no site da NMD.

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Dave Winchester no Arica Chilean Challenge de 2010 com uma das primeiras pranchas PFS. Imagem: fluidzone.com

Eu particularmente só consegui comprar e testar uma prancha com esse novo bloco no final do ano passado, e surfei poucas vezes com ela. Alguns dias pequenos no Guarujá ainda não me deram uma noção completa do que esse bloco é capaz. Por isso convidei uma pessoa que tem experiência com esse bloco desde 2011, pra colocar alguns detalhes e impressões aqui e desvendar ainda mais esse assunto tão interessante pra uns, e deixado de lado muitas vezes pela maioria.

Conheço o Christian Brito de vários dias em Paúba, ele surfa lá desde 1988 e sempre que o mar sobe de verdade é figurinha carimbada, tem bastante experiência em diferentes equipamentos e viagens, ou seja, tem tudo a ver com o blog e principalmente com esse assunto:

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Christian em uma bela esquerda na Indonésia. Imagem: arquivo pessoal

“Meu primeiro bodyboard foi em 1986, uma aussie laranja e branca da Morey Boogie. De lá pra cá não parei, são quase 30 anos de esporte nos meus 40 anos de idade. Já viajei bastante ao redor do mundo e visitei diversas vezes lugares como Indonésia, América Central, África, Fiji e Noronha, sempre em busca de ondas boas e tubos.

No final de 2011 consegui uma Parabolic para usar em mais uma trip pra Noronha, e o resultado não poderia ter sido melhor. Posso dizer que a mistura de onda boa com o bloco PFS é, na minha opinião, imbatível. Fiquei simplesmente abismado com a velocidade da prancha, a projeção, a forma como ela flui na parede em ondas tubulares e permite um controle muito maior que as pranchas de PP simples. Acho que as Parabolics não se comparam com nenhuma outra prancha em termos de velocidade e projeção.

Minha humilde conclusão, portanto, é que as Parabolics projetam incrivelmente mais que os blocos normais de PP que usei até hoje, chegando até a dar a impressão que tem alguém dando um “empurrãozinho”. Mas acho que ela demanda uma linha de surf um pouco diferente pra dar este resultado. É uma prancha excelente pra se fazer um surf mais de borda, mais fluído, pois a maior flexibilidade dela está exatamente nas bordas. Talvez seja até um pouco mais dura no geral, mas quando se acerta a linha e se começa a utilizar as bordas ela simplesmente dá uma velocidade incomparável, dando ainda um controle semelhante aos blocos mais flexíveis, seja pra tubos ou manobras. Eu já tive algumas Parabolics desde 2011 até hoje, e dentre todas pranchas que tive a oportunidade de usar – não foram poucas – considero a melhor prancha disponível no mercado.”  Christian Brito

Jason Finlay mostrando do que o bloco PFS é capaz. Vídeo: IBA/YouTube

  Ou seja, fica nítido lendo o texto acima que o PFS é um bloco pra ser usado em ondas realmente boas pra Bodyboarding, e pela flexibilidade extra que ele fornece, pode ser usado em ondas com água gelada, como vimos Dave Winchester em Arica e Jason Finlay nas Ilhas Canárias. E por ser muito rápido, vai acabar funcionando naquele mar de ondas um pouco mais cheias, mas sempre levando-se em conta a linha de onda e troca de bordas.

Nick Mezritz explica pessoalmente de onde veio a idéia para criação do PFS, em vídeo disponibilizado pela loja B2BR

Com a centralização da produção mundial de pranchas em apenas duas fábricas na Ásia, nos próximos anos talvez vejamos novos materiais e novas combinações de bloco, telas e stringers. A indústria hoje (limitada a praticamente duas grandes fábricas) acaba comprando lotes únicos de material muito maiores que antigamente, e os fornecedores de matéria-prima tem olhado o mercado de uma forma diferente e se interessado em desenvolver novidades. Vide os blocos EFC moldados com stringers flat, e os stringers interligados feitos da mesma forma nas pranchas Found de Mitch Rawlins e sua turma.

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Bloco EFC Red encontrado nas pranchas Nomad, Funkshen e QCD, com seus dois stringers “flat”. Imagem: nomad.com.au

  Voltaremos a falar desse assunto, eu particularmente acredito que o material influi diretamente na performance e no estilo e linha de onda dentro d’água, e sempre me interessei demais por tudo isso. Espero que esse texto possa ir mudando um pouco o interesse das pessoas aqui no Brasil quanto a isso. Já que as pranchas importadas dominam completamente o mercado, é melhor saber exatamente o que se está comprando!

Até a próxima, te vejo dentro d’água!

Paulo Fleury

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