7 de Dezembro de 2013: um dia épico

O ano de 2013 pode ser considerado como um bom ano em relação a ondulações e condições do mar aqui no estado de São Paulo. Desde o começo de março do ano passado várias ondulações marcharam em direção ao litoral paulista, proporcionando dias muito bons ao longo de toda a extensão da costa. No Guarujá, onde eu costumo surfar geralmente nos finais de semana, consegui pegar boas ondas, inclusive com um final de semana clássico no meio do mês de maio, com ondas de quase 1,5m perfeitas na Praia do Pernambuco sem praticamente ninguém, em pleno sábado.

Mas quase no final do ano, quando todos já estavam conformados com o verão, calor, praia cheia e escassez total de ondas, no primeiro final de semana de dezembro um potente swell de sul apareceu nos principais sites de previsão de onda, com um padrão não tão comum, e que fez muita gente ficar de antenas ligadas. Esse swell nem apareceu nos gráficos com tanto tamanho, algo em torno de 2.5/2.6 metros, mas o que chamava a atenção era o tamanho do período (16s) e sua constância durante todo o dia, junto com o já tão esperado vento leste. Totalmente incomum para essa época do ano. E o mais importante pra quem mora na capital como eu: em pleno sábado.

IMG_4570Por volta do meio dia esse era o cenário pra quem chegava na praia, altas ondas com o terral já funcionando. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

No dia 6 de dezembro no final do dia, sexta-feira, coloquei todo o equipamento dentro do carro e rumei pro Guarujá, pra na manhã seguinte acordar bem cedo e ir pra Paúba. Como o swell era totalmente oceânico, chegando no Guarujá a noite não havia nem sinal de vento ou de que o tempo iria mudar. Ficou aquela dúvida, será que o swell atrasou? Ou será que vai subir mesmo no esquema “havaiano” de swell oceânico e período alto ao longo do dia? Não quis duvidar muito e já liguei pro fotógrafo e bodyboarder Rodrigo Nattan pra me acompanhar e registrar tudo. Bruno Rocha também foi junto com a gente, querendo pegar as maiores. A gente mal sabia que estava indo testemunhar um dos melhores dias dos últimos anos.

1294387_245030125663155_225171202_oE aí, vai encarar? Imagem: SurfSalada

Chegando lá depois de quase 2 horas de carro a partir do Guarujá, as ondas já tinham um tamanho, mas ainda não estava tão grande. Percebia-se o balanço diferente do mar, mas quase todas as séries ainda fechavam em cima do raso banco a poucos metros da areia, talvez um sinal de que as condições ainda estavam se transformando. Dentro d’água já estavam Carlos Cintra e Maude Lisboa, figuras carimbadas em Paúba a bastante tempo. Saíram pouco tempo depois dizendo que o mar estava difícil e já um tanto perigoso. Preferi esperar mais um pouco e observar como estava o intervalo entre as séries e qual o real tamanho das ondas.

IMG_4275No começo do dia as ondas não estavam grandes, mas já se sentia um balanço diferente. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

Já fui me aprontando, passando protetor solar no rosto, parafina na prancha e escutando uma música pra dar aquele empurrãozinho a mais. Uma hora depois da gente chegar, as ondas já batiam facilmente quase nos 2 metros de face nas séries maiores, e as condições pareciam melhorar com uma leve brisa de vento terral. Também já estavam no mar ou se aprontando na areia gente que sempre bate o cartão nas ondas de Paúba, casos de Renato Tamasato, Sérgio Lazoski, Giuliano Arinelli, Fabio Sanches, Bruno Brito, Celso Luiz e a lenda viva Adílson “Chumbinho”, entre outros. Vamos pra água!

175209_706585072698560_927985060_oOndas de sonho relativamente perto de casa. Gustavo Martins em mais uma. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

 Como eu sempre abordo a parte técnica aqui no blog, nesse dia usei uma prancha que comprei exclusivamente pra surfar dias como esse em Paúba, uma Found Mitch Rawlins 42′. É uma prancha extremamente estreita, e com o bloco bem fino. Essa combinação permite fazer drops e cavadas no limite, sendo que a cavada (graças à rabeta e ao shape muito estreitos) é sempre muito rápida. Naquele drop bem atrasado, com o lip de uma onda de 2 metros já te “engolindo” por cima, a rapidez na cavada é quase questão de “vida ou morte”. O bloco mais fino garante uma flexibilidade extra, sem deixar a prancha mole e evitando os “coices” típicos de pranchas muito duras. Recomendo esse tipo de prancha pra quem surfa ondas extremamente fortes e cavadas com frequência. Em ondas mais fracas e cheias essa prancha simplesmente não anda, então é melhor guardar aquela prancha mais larga pra dias mais comuns. Durante todo o dia a prancha se comportou muito bem, e ás vezes eu precisava até atrasar um pouco mais em algumas ondas, já que a prancha segurava muito bem o drop e acelerava demais depois de cavar.

paulo_fleury_pauba07dez2013_foto_herbert_passos_neto002Final de tarde de sonho e o autor desse blog se divertindo. Imagem: HPN Mídia

Depois de entrar no mar, lembro de pegar no começo ondas menores, pra ir acostumando com as condições. Paúba está longe de ser uma onda fácil, lá o posicionamento é 80% do seu sucesso ou de um possível fracasso. Por isso é bem interessante sempre observar por um tempo e entender como as ondas se deslocam quase que de lado ao longo da praia. Nem sempre a maior onda da série será a melhor, então tem que ficar sempre de olho no crowd e em quem está pegando as melhores. E nesse quesito Gustavo Martins na maioria das vezes é o nome a ser batido. Gustavo sempre está perfeitamente posicionado, e tem uma leitura de ondas muito inteligente. Nesse dia ele pegou definitivamente as maiores e mostrou toda a sua experiência de mais de 15 anos surfando esse pico. Prova de que experiência, talento e preparo físico garantem seu sucesso em qualquer esporte.

1415138_244662385699929_315275950_oTe desafio a dizer que tamanho tem essa onda. Gustavo Martins em uma das maiores do dia. Imagem: SurfSalada

As ondas a partir das 11 horas da manhã ganharam corpo, e surpreendentemente o mar não ficou fora de controle, o que é raro na maioria dos beach breaks aqui no Brasil. Acho que graças ao período bem alto (em torno de 16 segundos), o intervalo entre as séries permitia que toda a massa de água voltasse sem formar tanta correnteza, garantindo que as próximas ondas tivessem boa formação. A direção do swell também ajudou, era um swell vindo de sul, totalmente puro e me arrisco a dizer que esse foi o único dia em que vi Paúba quebrar maior que Maresias. Santiago (por relatos) não estava bom, o que prova que não havia nem um pouco de influência de sudeste na direção desse swell épico.

IMG_4567 copyCondições épicas. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia 

Durante esse dia devo ter surfado algo em torno de 6 a 8 horas, saindo do mar apenas pra comer alguma coisa e também para ver um pouco a performance de todos dentro da água. Como as condições não estavam fáceis, o crowd muito comum em Paúba nos dias menores acabou não atrapalhando, e pegar ou não uma onda boa dependia apenas da sua disposição e paciência. Destaque máximo para os kamikazes Carlos Cintra e Renato Tamasato, que se jogavam nas maiores sem se preocupar muito se as ondas iriam abrir. Destaque também para o campeão paulista profissional Bruno Rocha, que pegou ondas grandes e muitos tubos durante o dia. Eu acabei optando por uma estratégia que sempre faço, de esperar mais e pegar somente as ondas que fossem realmente muito boas. Acabei recompensado com uma esquerda bem longa no começo da tarde (vide foto abaixo), e uma direita no final do dia, que foi inclusive destaque de várias páginas na revista “RideIt!” e também publicada pela revista australiana LeBoogie em suas mídias sociais.

pauba esquerda compUm dos muitos tubos do dia. Imagem: Fabio Sanches

Outro destaque do dia foi a solidez do swell, em momento algum as ondas diminuíram de tamanho ou frequência, séries enormes entraram o dia todo sem parar, e no dia seguinte ainda tinha cerca de 1 metro para alegria dos fissurados e também dos que não competiram na última etapa do Circuito Paulista que rolou no Guarujá no dia 8.

Confira mais algumas fotos desse dia:

IMG_4429Gustavo Martins dominou todas as ações nesse dia. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

10178294_235231826680545_1035134162_nGiuliano Arinelli descendo uma bomba. Imagem: SurfSalada

IMG_4357Condições sólidas durante o dia todo. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

IMG_5033No final do dia, já com o sol quase no horizonte, as ondas ainda continuavam sólidas. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

IMG_8841Fabio Sanches em uma bela esquerda no meio da praia. Imagem: Paula Barrientos

IMG_4409Apesar do crowd muitas ondas acabaram quebrando sozinhas. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

IMG_4681Gustavo Martins no que foi talvez o melhor tubo desse dia incrível. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

IMG_4470Alemão Jettner despencando. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

10245001_10151961607662471_1962780596_oRenato Tamasato botando pra baixo. Imagem: SurfSalada

IMG_4493Bruno Rocha em uma boa esquerda. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

IMG_5076Outro ângulo da onda que eu peguei no final de tarde. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

Dias como esse sempre serão lembrados, dada a complexidade da combinação de todos os fatores climáticos que são necessários para que ondas desse nível quebrem aqui no Brasil. Ao final do dia chegou-se a conclusão por todos que um dia perfeito igual a esse talvez aconteça só de 10 em 10 anos. E eu realmente não duvido muito disso.

Confesso que fiquei com alguma dúvida em relação a escrever ou não esse post, já que Paúba nos últimos anos tem ficado cada vez mais e mais crowd. Muita gente vai pra lá e não tem a mínima idéia do que está fazendo dentro da água e do tanto que essa onda é perigosa. Mas diversos vídeos de surf tem pipocado direto na mídia também e acho que eles tem bem mais espaço e acabam gerando muito mais publicidade do que um simples post nesse blog.

Agradecimentos ao fotógrafo Rodrigo Nattan, por ceder quase todas as fotos desse post, acesse a página dele no Facebook e dê um like!

Rodrigo Nattan Fotografia

E também a academia SP Fit Club, que me patrocina e garante meu preparo em dias como esse. Se você mora em São Paulo/capital e busca um preparo físico sério acesse o site da academia e saiba mais detalhes.

logo_teste

www.spfitclub.com.br

Até a próxima, te vejo na água!

Paulo Fleury

 

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