Mike Stewart e sua linha de pranchas

Vamos lá pra mais um post histórico. Como escrevi no post passado quando falei das nadadeiras, vou receber nesse mês uma prancha da marca chilena Erizos para um test-drive, uma gentileza enorme do Walter Andrade da loja Wnine no Rio de Janeiro. Essa prancha ainda não chegou e como estamos em pleno verão (época fraca de ondas), acho que esse review ainda vai demorar um pouco. Mas já agradeço de antemão essa oportunidade,  muita gente sempre me pede dicas na compra de pranchas e essa vou analisar em detalhes!

Mas enquanto isso vamos com um pouco da história das pranchas de bodyboarding. Hoje falarei um pouco sobre como surgiu e quais eram os primeiros modelos da marca exclusiva da lenda havaiana Mike Stewart, criada em 1998 inicialmente sob o nome de “Mike Stewart Bodyboards”. Mike não precisa de introduções, é simplesmente o maior nome da história do esporte e quando lançou sua linha de pranchas o mercado simplesmente veio abaixo. Sempre um estudioso, ele tinha uma série de idéias em mente que só poderiam mesmo ser aplicadas quando tivesse total controle de uma linha de pranchas e sua produção.

Nos anos de 1996 e 1997 Mike Stewart ainda surfava pela Morey Boogie, e contava com dois modelos com sua assinatura: a famosa Turbo III (que depois se tornou apenas “Pro-Comp”) e a Mach 7-7 Mike Stewart (vide foto abaixo). Nessa época a empresa que detinha os direitos da Morey (a Mattel, mesma empresa que fabrica a boneca Barbie até hoje) vendeu a marca para outra empresa de brinquedos, a Wham-O. Nesse momento Mike estava desenvolvendo um terceiro modelo totalmente novo, uma prancha Bat-Tail (mais uma invenção dele e novidade na época) com deck de duas densidades e grip nos cotovelos, que vocês podem ver abaixo.

bbstewart

Uma LV ainda no plástico. Imagem: Bodyboard Museum

Chamada de Launch Vehicle (veículo de decolagem na tradução pura e simples), a prancha era bem mais grossa que as pranchas comuns e tinha um deck com laterais mais moles pra teoricamente amortecer o impacto das manobras nos cotovelos. Mas com um bloco de PE e duas telas X-Flex me arrisco dizer que essa prancha deveria pesar uma tonelada. Hoje muito raras são disputadas a tapa por colecionadores nos EUA e na Austrália, passando fácil do valor de uma prancha nova.

 

MS Morey Boogie Catalogo 1992_compStewart Readers Poll

Mike em dois momentos: com a mais que famosa Turbo III fabricada pela Morey Boogie em um catálogo de 1992, e já com uma prancha sem logos na transição para sua marca em 1997/98. Fonte: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

Assim que a Morey Boogie foi vendida Mike não entrou em um acordo com a Wham-O em relação às novas bases contratuais. Fora isso ele também achou que a Morey não estava conseguindo fabricar esse modelo novo (Launch Vehicle) com qualidade satisfatória, o que acabava prejudicando as vendas e consequentemente a quantidade de royalties e dinheiro que ele ganhava. Assim, em 1997 Mike processou a Mattel e a Wham-O e acabou criando sua segunda marca (depois da Gyroll), que no começo se chamava simplesmente “Mike Stewart Bodyboards”. Depois que o contrato com a Morey terminou, Mike continuou usando alguns protótipos criados por ele enquanto suas pranchas não eram lançadas no mercado, caso dessa foto do Readers Poll de 1998 que eu coloquei acima. Eram pranchas bem diferentes do que era vendido pela Morey e encontrado nas lojas na época, e elas tinham sempre a rabeta bat-tail inventada por ele. Imagino que já eram protótipos idênticos às pranchas que seriam lançadas.

 

Science Ad_1

Um dos primeiros anúncios das pranchas Mike Stewart na Bodyboarding Magazine. Fonte: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

Com o auxílio do shaper Brian Peterson (que depois criou suas próprias marcas Vortex e Division 71), Mike desenvolveu uma linha inicial de três pranchas bat-tail, que seguiam mais ou menos o shape que ele já utilizava na Morey Boogie, e eram fabricadas com total qualidade na Califórnia. Bloco de Polypro (que a Morey só veio usar no ano seguinte), deck Sealed Air/NXL e fundo Surlyn eram encontrados em todos os modelos. O primeiro modelo vendido foi a chamada E0, e era uma réplica da prancha azul claro e sem logos que Mike havia usado durante o inverno de 1997-1998. Com tamanho 42″ e numerada em apenas 1200 unidades, essa prancha se esgotou em pouco tempo nos EUA. Sem canaletas, sem tela e sem stringer, era uma prancha bem solta pra linha super controlada que Mike já fazia com maestria. Outros dois modelos foram lançados, chamados de E1 e E2 (vide fotos). Já incorporavam novidades que seriam seguidas por todas as outras marcas, como os contornos no deck e a super popular rabeta bat-tail lixada para o encaixe do quadril. A E2 ainda tinha algo que não foi nunca repetido até hoje: as bordas eram lixadas num desenho côncavo, como se fossem uma pequena canaleta ao longo da lateral ajudando a prancha a agarrar a parede da onda, e Mike as chamava de “delta rails”.

 

E1.E2

Dois anúncios das pranchas Mike Stewart nas páginas da Bodyboarding Magazine em 1998, no caso E1 e E2 respectivamente. Fonte: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

No ano de 1999 outros modelos foram sendo adicionados a linha, que obviamente perdeu o modelo E0. A E3 e também a E4 (a primeira com rabeta crescente) aumentaram a linha junto com E5 e E6 (com rabeta em V, outra novidade) no ano seguinte em 2000. Nessa época a concorrência era grande com pranchas de altíssimo nível no mercado, principalmente das BSD vindas do gênio Ben Severson.

stew10

Mike em Teahupoo surfando com uma E2, em um anúncio do modelo E5 no ano 2000. Fonte: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

As pranchas sempre fizeram muito sucesso no mercado mundial e pelo menos pra mim sempre foram referência de qualidade absoluta, até a chegada de Mez e sua fábrica na Indonésia. Mike acabou transferindo a produção pra lá em meados dos anos 2000, o que segue até hoje inclusive utilizando-se das mesmas tecnologias oferecidas (como o ISS). E rebatizou também a marca definitivamente como “Science Bodyboards”, permanecendo até hoje como um dos principais nomes ao redor do mundo.

ms1 copy_blogAnúncio de lançamento da E0. Fonte: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

Mais pra frente vou fazer um post similar sobre a BSD, com imagens dos diversos modelos, suas icônicas bordas “transitional” e diferentes tipos de rabeta, com uma versão reta inclusive. Bons tempos esses onde a variedade de shapes, materiais, tecnologias e rabetas cresceu bastante.

Até a próxima!

Paulo Fleury

Advertisements

13 thoughts on “Mike Stewart e sua linha de pranchas

  1. E a Erizos? Botou pra ver qual é? E qual as especificações do modelo testado, se já o fez? Abraços..

    • Então, tô testando ainda… Por aqui tá meio ruim de onda ainda. A prancha que me mandaram é uma Santiago Sanchez com 3 stringers, naquele esquema tridente. Vou ver se até o fim do mês consigo fazer o review aqui no blog… Valeu, abraco!

  2. Fala Fleuryjr, tudo certo? Primeiramente parabéns pelo blog, li bastante coisa legal e aprendi bastante também. Estava lendo outro post sobre equipamento e vi você dando umas dicas pro pessoal, gostaria que você desse uma ideia pra mim também. Eu pego onda de bodyboard a alguns anos já, desde os 15, hoje tenho 23, comecei com uma Genesis que não lembro o modelo, depois fui para uma B2BR Neymara Carvalho com rabeta Bat Tail e depois peguei uma VS Pierre Louis Costes, a que estou até hoje, logo depois de pegar a VS sofri um acidente de carro quebrei femur e mais meia duzia de ossos e fiquei praticamente sem surfar por 3 anos, entrando no mar muito pouco mesmo. Esse verão surfei mais vezes e no último final de semana peguei um swell grande e decidi a voltar ao esporte como antes. Moro no sul de Santa Catarina, maioria das vezes surfo no Farol de Santa Marta, Laguna, Imbituba, por ali, em geral ondas gordas, raras condições quebra tubular. Tenho 1,65 e peso 65kg e to me sentindo meio amarrado/encalhado com a minha prancha, na onda ela não vai e na remada também não, até vai mas parece que tem alguém me segurando, andei lendo que pra ela ser ideal ela tem que dar 2 dedos acima ou abaixo do umbigo, a minha ta dando uns 5 acima, e também apoiando a prancha no joelho ela deveria dar embaixo do queixo, a minha fica longe disso, não sei se to sentindo isso por a prancha ser muito grande pra mim ou por ela já estar velha, ela tem uns 5 anos de uso. Me lembro que as melhores ondas que eu peguei foram com a B2BR Neymara Carvalho com rabeta Bat Tail, prancha estreitinha, veloz. To pensando em pegar uma prancha nova, se tu pudesse me dar uma clareada na ideia sobre tamanho, modelo e materiais seria show hehe. Eu queria gastar uns 800 reais na prancha, pois também pretendo comprar um leash novo e um long john novo também. Mas se passar um pouco não tem problema. Abração! Valeu!

    • Tudo bem e você? Então, você não disse o tamanho das pranchas que você tem usado, mas pela tabela genérica diz que pela sua altura teria que ser 40″. Talvez você esteja sentindo dificuldades porque esse modelo do PLC é bem estreito e específico pra ondas bem rápidas e cavadas. Sugiro que você dê uma olhada nas pranchas da linha GT Boards (na W9 eles tem a linha toda). Acho que uma prancha um pouco mais larga e com rabeta bat tail vai funcionar melhor nos tipos de onda que você falou que surfa. Em ondas mais cheias uma prancha mais larga vai ter mais flutuação em geral (ajudando na remada inclusive) e as ondas não exigem tanto uma cavada rápida que uma prancha mais estreita te fornece. Caso queira uma prancha um pouco mais versátil recomendo uma Funkshen Ryan Hardy, que seria um meio termo entre uma PLC e uma GT. Acho que é isso, espero ter te ajudado… Grande abraço!

      • Fala man, andei dando uma olhada nas GT, a que mais me agradou foi a Uri Valadão e a Iron bat tail, mas não curti a cor delas, poucas combinações. O tamanho das pranchas eu não lembro mas se não me engano a Neymara era uma 38. Você conhece as pranchas B2BR? Eu tava de olho nessa aqui: http://www.b2brshop.com.br/produto.php?nome=prancha-de-bodyboard-b2br-classic-pro&id=282&cat=51 me recomendaram por ser um material mais seco e por ela ser mais grossa também, material que flutua melhor em ondas gordas, o que você acha? Tbm tem a mesma prancha com opção de fundo surylin. Abração até mais!

        • Bom, eu acho que o mercado nacional já é meio limitado em opções, então se você ficar limitando suas escolhas as cores disponíveis, vai ser mais difícil ainda. Essa prancha da B2BR não me agrada por ter 2 stringers e pelo deck ser Crosslink. A tendência é dessa prancha ser super dura. Agora “material mais seco”? Eu nunca ouvi isso na minha vida. Crosslink hoje em dia só é usado em pranchas para iniciantes. E flutuação não está relacionado apenas a grossura do bloco, tem outras variáveis aí inclusas. Eu insisto aqui, você ainda não disse qual o tamanho da prancha que você usa hoje, então fica meio difícil te indicar uma prancha já que nem todos os modelos tem todos os tamanhos disponíveis. Valeu!

            • Sua prancha é tamanho 40″. Dá pra usar 39.5″ também. Se você realmente gostou dessa prancha da B2BR, vá em frente. Mas pranchas com 2 stringers são extremamente duras, como já abordado diversas vezes aqui no blog. Eu sempre prefiro uma prancha com stringer simples, mesmo que ela não dure tanto. Pessoalmente eu investiria um pouco mais e escolheria outra prancha. Abraço!

    • Hi mate, this blog only reviews the history of the sport and also a few boards, but we don’t sell it. I advice you to search for bodyboard shops around your area, they will be pretty happy to help you! Cheers!

  3. Boa tarde ! Estou quase comprando uma ms3, mais queria saber se ela tem fundo,surlyn bloco pp e quantos stringers sabe me responder ?obrigado pela atenção!

    • Fala Vinicius, desculpe a demora em responder. Imagino que essa prancha que você está falando seja um modelo antigo, mas é bem provável que seja com bloco PP e fundo Surlyn sim. Geralmente essas pranchas vinham com apenas 1 stringer. Espero ter ajudado!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s