Science Style e Science Pro LTD: quiver completo com apenas duas pranchas

Bora pra mais um texto por aqui, hoje um breve mini-review de pranchas.

No final de 2018 eu completei 1 ano trabalhando diretamente com a Science Brasil, e resolvi hoje falar um pouco das 2 pranchas que usei praticamente o tempo todo nos últimos 3 ou 4 anos.

Science Style Loaded 42.5″: Shape já conhecido e testado a exaustão pelas mãos de Mike Stewart

A primeira nas fotos é uma Style Loaded 42.5” que eu comprei em 2015, bloco NRG 1.4lb com tela dupla e um volume de borda a mais que faz ela funcionar em qualquer tipo de onda. É a prancha que eu fiz o review aqui no blog e surpreendentemente ela continua firme e forte, sem dobras. Destaque também pros acabamentos perfeitos da fábrica do Mez, que garantem a colagem perfeita das peças extras na rabeta e no bico.

Essa prancha me acompanhou em todas as últimas viagens e também durante todo o Circuito Paulista de 2017, onde a gente sabe bem que as condições de onda nunca são as ideais. Ela funciona de 1 a 10 pés, sem o menor exagero. Se você quer ter uma prancha apenas, eu não canso de sugerir essa compra. Fora aquela certeza de estar usando o equipamento certo, afinal o próprio Mike Stewart usa a Style em toda e qualquer condição. Único defeito talvez seja dela na época ainda não ter as canaletas MS, que tiram um peso da rabeta e ajudam demais nas trocas de borda.

Pro LTD ISS 42.5″: Aquele desenho estreito que vem se tornando popular de uns anos pra cá.

A outra prancha é uma Pro LTD ISS 42.5”, que eu recebi da Science Brasil no final de 2017. É uma prancha super específica, sem tela, super fina e estreita. É o modelo do australiano Tom Rigby, que acabou saindo da Science mas imagino que pela boa aceitação desse tipo de prancha hoje em dia, deixaram essa prancha na linha. Com a vantagem do sistema ISS e das canaletas MS, essa prancha acaba tendo uma versatilidade incrível mesmo com toda a especificidade que eu já falei. Em ondas rápidas ela simplesmente voa, faz aquele drop atrasado/scoop como nenhuma outra, mas em dias menores ela surpreende e também anda.

Apesar da largura e do volume a mais (bordas e bloco mais grosso), a Style Loaded anda demais em qualquer condição. Foto: Rodrigo Nattan

Nos dias menores eu acabo usando um stringer mais duro de carbono, e a prancha anda super bem também. Ponto pro Mike mais uma vez, que consegue fazer uma prancha específica desse jeito andar também razoavelmente em qualquer condição. Como eu falei antes ela conta com as canaletas MS e isso faz toda a diferença, a rabeta não afunda tanto nas partes mais fracas da onda e no fim você consegue surfar mesmo naqueles dias de onda mais cheia ou fraca.


Detalhe das canaletas MS no modelo Pro LTD. 

Hoje em dia fala-se muito em tecnologia, em fundos com concave, rabetas diferentes, blocos híbridos como PFS, QuadCore e etc… Mas nada disso funciona se o desenho e o volume final da prancha não forem desenvolvidos o suficiente. E hoje ninguém sabe mais sobre isso do que Mike Stewart. Todos os shapes são estudados e desenvolvidos há mais de 25, 30 anos. Mike já trabalhava em seus modelos muito antes da Science existir, e isso você percebe por exemplo trocando de uma prancha pra outra sem adaptação ou dificuldade alguma, ou conseguindo surfar em qualquer condição com pranchas bem específicas, como eu falei do modelo Pro acima. Posso dizer que com esses dois modelos você talvez consiga surfar qualquer onda no mundo, de beach breaks sem muita força, reef breaks na Indonesia até Teahupo’o e Pipeline em condições de gente grande.

Em ondas muito rápidas e que precisem de uma cavada curta (como Pauba, Itacoatiara ou slabs/fundos de pedra) a Pro cai como uma luva, pra todo o resto eu garanto que você não vai querer usar nada que não seja uma Style Loaded.

Style Loaded garante aquela segurança e velocidade em ondas grandes como Teahupo’o. 

Hoje tenho certeza de utilizar os melhores equipamentos possíveis, e sei que minha performance na água está diretamente relacionada a isso. Lógico que a prancha X ou Y não faz milagre, mas você nunca vai conseguir chegar no seu máximo ou perto dele, utilizando equipamento ruim ou pra condição errada. Fica aí a dica na hora de comprar sua próxima prancha. 

O sistema ISS pode dar uma versatilidade a mais e ser o definidor naquela queda de condições específicas.

Pra quem ficou curioso, dá uma olhada lá no perfil da Science Brasil, tem o link pra loja online e muito conteúdo legal sobre todo o time Science aqui no Brasil e no mundo.

Até a próxima, te vejo na água!

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Busca eterna

Hoje reproduzo aqui um pequeno texto que escrevi lá no meu instagram (@pfleury), sobre essa busca eterna por ondas e a falta de sossego que vem sempre junto com isso. 🙂

“Outro dia surgiu o assunto e fiquei conversando durante um bom tempo com um grande amigo sobre essa nossa busca incessante pelas ondas e por tudo o que orbita em volta disso. Principalmente no tanto que isso acaba nos atrapalhando e nos desgastando.

No meu caso foi uma vida toda quase, marcada por longas noites acompanhando e estudando gráficos de ondulação, vento, período, pesquisando pra ver em que direção exata as ondas e o vento entram em tal praia, ligando pra alguém tarde da noite pra ter aquela segunda opinião sobre o swell, dirigindo horas de madrugada pra muitas vezes quebrar a cara com condições ruins, desmarcando compromissos com namorada, família e amigos ou encarando aquela viagem de avião de mais de 24 horas atrás de tal onda, enfim… Vivi quase 40 anos a mais de 100km da praia mais próxima, sendo 2/3 desse tempo nessa cansativa mas muito recompensadora rotina. E certamente não me arrependo.

Invejo sim os grandes amigos nadadores que também fiz nessa vida, por precisarem de apenas uma piscina para serem felizes. Ou também aquele skatista que no começo da semana já planeja pro sábado o rolê de skate com os amigos, ou o corredor que amarra o tênis e sai correndo no meio da rua, na frente de casa. Mas eles com certeza não entenderiam o porquê de alguém acordar as 4 horas da manhã no inverno, pra dirigir 500km ida e volta, colocar uma roupa de borracha molhada e entrar num mar enorme as 6 da manhã, muitas vezes sozinho.

Esse esporte me trouxe talvez as pessoas e as amizades mais genuínas e sinceras que fiz até hoje, e definitivamente os momentos mais felizes, seja no contato mais nobre com a natureza até a valorização das coisas mais gratificantes e simples dessa vida, muitas delas que dinheiro algum no mundo compra.

E isso definitivamente me basta.”

 

Entrevista: Adílson “Chumbinho” Jr.

Mais um post nesse final de ano e hoje inaugurando uma nova sessão desse Blog, que começou sem a menor pretensão lá no começo de 2014. 🙂

Hoje vou falar de um nome que é lenda viva da história do Bodyboarding brasileiro. Não só por tudo que fez no esporte, mas também pelo coração e carisma enormes.

Eu comecei a pegar onda de Bodyboard no verão de 1991/1992, e lembro bem que Adílson Junior, mais conhecido como “Chumbinho”, era figurinha carimbada em qualquer evento ou competição no estado e no país. Fotos de sua performance precisa eram comuns em revistas da época e Chumbinho ganhou fama rapidamente como o melhor atleta amador do Brasil, e um dos poucos a conseguir ganhar do maior nome do nosso esporte, o carioca multi-campeão Guilherme Tâmega. 

Até hoje se comenta sobre uma final na Praia das Pitangueiras no Guarujá onde Chumbinho fez duas notas 10 e deixou GT em situação mais do que complicada, ganhando consequentemente o campeonato. Definitivamente um feito para poucos.

Minha história pessoal com competição é bem atípica, já que comecei a competir não tão novo, com 21 anos. Sempre ficava muito nervoso nas baterias e até hoje acho que meu estilo/linha de onda não me favorecem muito em campeonatos, então pra mim sempre foi mais um desafio pessoal mesmo do que qualquer outra coisa. Mesmo assim consegui competir o Circuito Mundial Profissional em 2000, chegando ao evento principal em etapas como Rio e Pipeline, e isso pra mim foi um feito pessoal histórico.Sempre acompanhei o cenário e continuei competindo o Circuito Paulista depois disso, e em um campeonato na Praia do Tombo já em 2009 ou 2010 tive contato finalmente com Chumbinho, que tentava reorganizar a Federação Paulista por aqui com uma enorme boa vontade.

Chumbinho ainda é nome fácil no outside nos melhores dias, sempre desfilando muita calma e técnica. Foto: Surf Salada

A primeira impressão nesse contato foi a melhor possível, Adílson é um cara super acessível e muito, mas muito gente fina. Chumbinho estava voltando a surfar depois de um tempo parado e depois disso viramos amigos, de sempre se encontrar em Pauba e dividir o outside, coisa que eu nunca imaginei nem no meu melhor sonho. Logo as conversas sobre temporada havaiana, Pauba sem ninguém no começo dos anos 1990 e a tal bateria histórica com GT se tornaram comuns, pra meu delírio obviamente. Era parte da história áurea do Bodyboarding nacional, ali ao vivo e a cores na minha frente. Chumbinho é aquele tipo de pessoa que se você sentar no bar fica horas escutando ele falar, tranquilamente. Falando sobre Bodyboarding então, a conversa vai longe.

Então a ideia dessa entrevista não é recente, já tem algum tempo mas só agora se tornou finalmente realidade. Agradeço desde já ao grande Chumbinho por toda a disponibilidade e paciência de sempre.

• WP: Chumbinho, primeiramente como você se interessou pelo esporte e qual foi exatamente seu primeiro equipamento (prancha e pé de pato), e em que ano?

Chumbinho: Em 1987 vi uma amiga com uma prancha Morey Boogie Mach 7-7. Eu já vivia na praia, muitas vezes brincando com prancha de isopor, aí no Natal minha mãe me deu uma Mach 7-7 com deck azul e fundo amarelo. O pé de pato era uma nadadeira Cobra spinta e depois já comecei a usar o Redley tradicional que dominava as praias do Brasil.

 • WP: Como era a variedade de marcas no mercado na sua época de competidor e qual o tamanho do domínio da Morey Boogie na época? Existia uma rixa entre atletas pelas marcas utilizadas (BZ x Morey Boogie por exemplo)?

Chumbinho: Basicamente o mercado era dominado por Morey Boogie e BZ, depois vieram Speedo, Genesis, Maikai e algumas outras. Rixa entre as marcas não existia, mas sim um certo bairrismo entre os estados e sobre a hegemonia competitiva no esporte.

Aquele pódium com Guilherme Tâmega em segundo lugar é coisa para poucos nesse mundo. Foto: Arquivo Pessoal Adílson Jr.

• WP: Qual foi o seu primeiro patrocínio de prancha e como funcionava (quantidade e modelos de prancha que você recebia)?

Chumbinho: Meu primeiro contrato foi com a Morey Boogie no final de 1988, e 1989 durante o ano todo. Eu era atleta amador mas eles davam todo o suporte (passagens, hospedagem, alimentação e inscrições nos campeonatos) para competir o Circuito Estadual e o Circuito Brasileiro. Nesse ano fui Vice-campeão Brasileiro Amador. Eu sempre usava a Mach 7-7 tradicional, era o carro chefe da marca e até hoje uma das pranchas mais vendidas da história, senão a mais vendida. Mas testei alguns outros modelos entre eles a 7-SS. Quanto a quantidade de pranchas, eram 4 pranchas a cada 3 meses, num total de 16 pranchas no ano.

• WP: Qual foi seu melhor patrocínio e melhores pranchas que usou quando atleta e até hoje?

Chumbinho: É difícil dizer qual o melhor, mas naquela época tive bons patrocinadores que davam suporte total para os eventos alguns até ajuda de custo mensal para um atleta que era amador, algo impensável hoje em dia até para os profissionais. As pranchas da Morey Boogie eram realmente muito boas, não por acaso dominaram o mercado por tanto tempo.
Mas tiveram outras também: Tive patrocínio da Maikai, fui Campeão Brasileiro surfando pra eles e tínhamos a liberdade de ir até a fábrica desenvolver o shape e qualquer outro detalhe. Guilherme Tâmega tinha patrocínio da Ombak e fazia o mesmo trabalho de desenvolver as pranchas.

Meu último evento como profissional foi a etapa do Mundial no Guarujá em 1995 e nessa época eu usava uma Wave Rebel, que ficou muito conhecida nas mãos novamente do Guilherme.
Após essa era competitiva fiquei 5 anos sem cair na água, retornei usando uma Turbo IV e hoje uso as GT Boards, tenho uma Mega-T 42.5″ Crescent Tail e uma Flash 42.5″ Bat-Tail. Mas estou no aguardo para testar a Science Style Loaded 42.5″ que você usa e tanto fala!

Estilo e técnica impecáveis até hoje. Foto: Surf Salada

• WP: Como as pranchas e materiais evoluíram ao longo do tempo na sua opinião? Como era surfar Pipeline por exemplo com pranchas tão moles comparadas com as de hoje?

Chumbinho: A evolução dos materiais foi gigante, não tem nem como comparar. Olho algumas pranchas hoje em comparação com as que eu usei no começo e a diferença do material, construção e acabamento é enorme. Hoje tem diferentes blocos, telas, stringers removíveis que você troca e tudo mais. É outro mundo praticamente.
Quanto a surfar com pranchas moles, eram os materiais que haviam na época (PE sempre), a grande diferença era mais nas pranchas de Arcel que a BZ tinha (algo mais parecido com o PP de hoje em dia), o restante basicamente era muito parecido.

• WP: Como era e como é sua relação com os equipamentos? Qualquer prancha no seu tamanho te serve ou você se interessa de alguma maneira pelo shape/desenho/materiais e coisas do gênero?

Chumbinho: No começo a minha primeira prancha era gigante, eu mesmo não tinha conhecimento nenhum. Medíamos a prancha pela altura do umbigo (a minha na época chegava quase no peito). O próprio mercado não tinha variedade de tamanhos, a maioria das pranchas era 42 ou até 43.
Depois com um pouco mais de experiência isso foi melhorando, mas na Morey Boogie eu usava as pranchas de fábrica normais, iguais as vendidas nas lojas mesmo.
Depois tive outros patrocinadores e pude usar pranchas específicas. Teve uma passagem interessante em que eu e o Guilherme éramos atletas da Ombak, e ele já usava as pranchas com o shape/desenho da atual GT Flash. Ele fez uma para ele e uma maior para mim. Testei um dia antes do evento mas reclamei, não me adaptei de cara. Durante o evento fui me encaixando com a prancha, que virou aquela prancha mágica! No fim fizemos a final do Estadual, eu contra ele naquela bateria histórica com as maiores médias até hoje do Circuito Paulista Profissional.

Com Guilherme Tâmega, uma grande amizade até hoje. Foto: Arquivo pessoal Adílson Jr.

• WP: Tem uma história do Guilherme pegar uma prancha do palanque pra você no Mundial de Pipeline em 1991, pode contar essa história?

Chumbinho: Na época era obrigatório os atletas usarem pranchas Morey Boogie no Mundial, que acontecia em etapa única. O Guilherme estava treinando e competindo com elas e o caddie (atleta que entrava junto caso o titular tivesse algum problema com o equipamento) entrava com o material sobressalente, ele havia me prometido a prancha caso ele fosse para a final, só que a prancha dele estava toda destruída. Aí no final do evento ele apenas trocou por uma um pouco mais nova. 🙂

• WP: Como foi essa experiência de trabalhar de Caddie pro Guilherme no mundial de Pipeline com ondas enormes em 1991? (Talvez o maior mar em Mundiais tirando o de 1994)

Chumbinho: Foi muito maneiro! Ter a oportunidade de entrar na água várias vezes e entre uma bateria e outra ainda dava a sorte de surfar uma onda em Pipeline sem crowd, coisa de sonho mesmo.
Mas fui caddie também de alguns outros brasileiros no evento, e a fissura de estar na água era muita mesmo com o mar daquele tamanho.

Chumbinho e Pauba, uma combinação perfeita já de muitos anos. Foto: Fabrício Alabarce

• WP: Como você enxerga o mercado atual e o futuro do esporte no Brasil?

Chumbinho: Vejo lojas físicas muito legais, com equipamentos excelentes nos principais estados, temos a Surf Trunk em SP, Vortec no RJ, a High Score no Ceará, fora as lojas virtuais. Todos os materiais de ponta disponíveis e uma grande diversidade de pranchas na água, isso é muito bom pro mercado, todo mundo ganha com mais opções disponíveis. E olha que esse nosso dólar não ajuda né?

Acho que o futuro do esporte passa obrigatoriamente pelo cenário competitivo, e a Cbrasb vem fazendo um belo trabalho a nível nacional. Um circuito sólido como o que aconteceu esse ano, e temos também o Mundial em Itacoatiara que já faz parte do circuito APB há anos. Quanto aos estaduais, em São Paulo o ano de 2018 foi um ano atípico devido a alguns problemas de bastidores, mas para 2019 temos uma boa perspectiva de volta das atividades. (Chumbinho é hoje presidente da Febbesp)

• WP: Pra finalizar, o quanto esse esporte definiu quem você é hoje? Qual a importância geral do Bodyboarding na sua vida, na sua história?

Chumbinho: Sou de uma família humilde e com o esporte conheci muitas pessoas, lugares e culturas diferentes. Viajei quase o litoral brasileiro inteiro e para o exterior fazendo o que mais gostava, sendo pago pra isso. Isso definitivamente ajudou bastante no meu desenvolvimento como pessoa.

E após parar de competir e ficar longe do esporte por alguns anos retornei como organizador de eventos e vejo que até hoje sou muito respeitado e isso é muito gratificante.

-X-

Foto: Surf Salada

Quero agradecer aqui mais uma vez o tempo e a paciência disponibilizados pelo Chumbinho, posts como esse engrandecem demais esse Blog e como eu escrevi antes nunca nem imaginei um dia fazer algo dessa importância.

Um ótimo final de ano pra todos que prestigiam esse Blog, vejo vocês na água!

 

Teahupoo, Tahiti: medo e desejo

Tava devendo um texto dessa viagem, esse ano foi bem corrido e confuso pra mim, 1000 coisas acontecendo ao mesmo tempo e não tava com saco de escrever mesmo. Mas agora foi e acho que esse pequeno relato é bem interessante.

No meio desse ano (Junho/Julho) eu realizei talvez o meu maior e mais tenso sonho, que era surfar Teahupoo, no Tahiti. Recrutei dois amigos mega alucinados e em dezembro de 2017 eu, Abner Scopetta e Alex Detter compramos as passagens.

Descendo aquela ladeira no chamado ‘West Bowl” de Teahupoo. Foto: 1800jakespeaking

Eu já tinha ido pro Hawaii quando era mais novo, na temporada 2000/2001, surfei Pipeline muitas vezes durante 2 meses junto de mestres como Paulo Barcellos, Hermano Castro e Guilherme Tâmega, e competi o Mundial por lá inclusive, mas Teahupoo sempre ficou na minha cabeça, sempre com esse sentimento duplo de medo e desejo. Muita gente já havia me falado que a onda não tinha tanto segredo assim, que era “só tentar remar do lugar certo”, mas fiquei praticamente 4 ou 5 meses antes da viagem vendo 1000 vídeos e passando um nervoso enorme imaginando como seria.

Alex Detter também botou pra baixo, ganhando o respeito dos locais.

É definitivamente a onda mais perigosa do mundo, todo o lineup é tenso, a remada da praia até o reef, os barcos no canal, o crowd apenas de gente mega conceituada e de locais completamente insanos e destemidos. Cada onda e cada série sobe de um jeito e numa parte diferente do reef, então é impossível prever qualquer coisa quando a onda vem na sua direção. Confesso que nas primeiras quedas me senti um ET, sem saber onde ficar ou sentar e questionando mesmo se tinha feito o certo de ir até lá. Nessas horas humildade é essencial, é uma questão de sobrevivência e de você não fazer uma besteira e colocar pelo ralo uma viagem que foi planejada com tanta antecedência e expectativa.

Aquele tubo que faz esquecer o quão perigoso é esse lugar. Foto: 1800jakespeaking

Vou contar aqui o caso que mais me marcou em relação a onda mesmo, de como a gente tem que estar preparado física e psicologicamente sempre, e de que somos meros coadjuvantes nessas horas. Fiz uma forte preparação física especialmente pra essa viagem desde fevereiro desse ano, isso é o item número 1 pra quem pretende algum dia encarar Teahupoo, e mesmo assim no fim a gente acaba passando algum apuro.

Num dia comum pra lá, com ondas de 6 a 8 pés, (Teahupoo pode quebrar até com 15-20 pés de face como todo mundo sabe) eu caí cedo e fiquei surfando meio impaciente no meio do crowd, e depois esperei a galera sair pra almoçar e ver se sobrava alguma boa (mesma tática que eu sempre fazia em Pipe). Já batia uma brisa meio maral/ladal que tava atrapalhando um pouco, mas como tinha pouca gente valia a pena ficar. Mesmo com aquela textura de vento a onda segura e dá pra pegar uns tubos.

No fim eu consegui pegar uma muito boa na frente do bodyboarder local mega casca grossa Alvino Tupuai, uma daquelas que já baforam no meio do drop, e que você meio que não enxerga muita coisa, só dá pra colocar no trilho e rezar pra sair no canal. Se você remar no lugar certo muitas vezes isso acontece e é só alegria.

Mas depois dessa veio uma daquelas séries que vem por cima do horizonte (lá você não vê a série vindo na maioria das vezes, galera dos barcos que consegue ver e assobia), e eu fui pego meio desprevenido um pouco mais pra baixo do que o pessoal que ainda estava no mar, e a experiência não foi definitivamente das melhores. Eu e um outro bodyboarder de Aruba, tomamos 4 ou 5 ondas de 8 pés na cabeça, naquela região onde a água chupa e parece que “abriram o ralo”, super comum em qualquer vídeo sobre essa onda.

Abner Scoppetta botando pra baixo naquele mar já com um vento bem de lado. Foto: Armando Goedgedrag

A primeira onda quebrou na minha frente e eu ainda consegui furar dando um joelhinho, mas na mesma hora toda a força do mar arrancou a prancha das minhas mãos e eu simplesmente virei passageiro de uma viagem um tanto turbulenta. Fui jogado e arremessado pra cima e pra baixo, e fiquei tentando não gastar o ar e manter a calma. Sabe aquela história de “você não sabe onde é pra cima e onde é pra baixo”? Sim, ela existe e é mais que real. Embaixo d’água a primeira coisa que me veio a cabeça foi que se o meu leash/cordinha estourasse eu estaria na pior condição possível, inclusive pra sair do mar. Lá em Teahupoo a onda quebra a uns 20 minutos de remada da praia, e na hora de sair você ainda rema contra uma corrente super forte, é um desafio físico mesmo. Sem prancha eu estaria em péssimos lençóis. Foram momentos de tensão e entre uma onda e outra só dava pra subir, puxar ar e afundar de novo, rezando por uma calmaria. Ter um bom controle mental ajuda demais nessas horas, se desesperar só vai te atrapalhar, seu batimento cardíaco vai subir e você vai consumir ainda mais oxigênio do pouco de ar que sobra nos pulmões. Difícil imaginar alguma calma nesse momento, mas isso é fundamental.

O que sobrou do leash Gyroll e da minha Science Pocket LTD depois de 5 ondas médias de Teahupoo na cabeça: confiança nos equipamentos é essencial. 

E aí eu bato numa tecla importante e que é o motivo de existência desse Blog. Nessas horas a gente tem que estar com os melhores equipamentos possíveis, a Natureza é completamente imprevisível seja aqui no Brasil ou em qualquer onda ao redor do mundo. E um leash de boa qualidade pode fazer a diferença entre tomar “apenas” a série na cabeça ou perder a prancha e ter que pedir ajuda pra alguém na zona de impacto da onda mais perigosa do mundo. Desde o ano passado eu conto com o suporte da Science Bodyboards e de seus acessórios aqui no Brasil, e graças a Deus meu leash Gyroll aguentou firme e forte, perdeu sim a forma, esticou e ficou todo liso (vide foto). Mas não estourou, e quando a série passou minha prancha estava do meu lado. Foi “só” remar esbaforido pro canal e agradecer por não ter batido no fundo ou ficado sem ar e apagado. Ufa!

Nos dias menores quebram ondas com a mesma perfeição e perigo, em cima de uma bancada bem afiada. 

Sim, isso é real. Teahupoo é um lugar onde você realmente se sente em cima de uma corda bamba equilibrando a sua vida junto de tanta adrenalina, crowd, água salgada e baforadas. Não existe um momento em que a possibilidade de dar um problema grave não passe pela sua cabeça. E resolver isso com calma é definitivamente pra poucos. 😉

No fim o maior problema além da onda mesmo talvez seja o crowd, a onda já é suficientemente perigosa e você ainda tem que lidar com dezenas de surfistas e bodyboarders super técnicos e que não estão ali pra brincadeira. Como em Pipeline existe uma hierarquia na fila e o clima dentro d’água está longe de ser amistoso. Haja paciência.

Por hoje é isso, já estava ensaiando esse texto sobre a viagem e espero escrever mais em 2019, esse ano teve pouca coisa aqui no Blog e isso realmente me incomoda, foram 3 posts só. Vamos ver se até a virada do ano sai mais alguma coisa.

Vejo vocês na água, abraço!

Review: GT Boards Mega-T 42.5″

Finalmente esse review por aqui depois de mais de 6 meses, com um final de ano sem ondas praticamente. Estou devendo mais posts também, mas me encontro sem muito tempo graças a outros detalhes que explicarei mais pro final do post.

Recebi essa prancha graças a Abner Scopetta, atleta da GT Boards e representante da marca aqui no Estado de São Paulo. Já havíamos conversado antes sobre essa possibilidade e quando a linha 2018 chegou aqui no Brasil ele me falou que essa Mega-T 42.5” preta a minha disposição.

De lá pra cá as possibilidades de colocar essa prancha na água foram bem escassas. De outubro em diante quase não teve onda aos finais de semana aqui em SP, e eu tenho essa limitação já que moro em São Paulo/Capital.

Um dos poucos dias em que eu consegui colocar a prancha na água e pegar condições razoavelmente boas. Foto: Rodrigo Nattan

A GT Boards é uma das mais recentes marcas no mercado, e todos os seus modelos são fabricados em Taiwan na fábrica AGIT (a mesma das pranchas Found, Nomad, Funkshen, CustomX Australia e No.6). A GT Boards tem em seu time de atletas além da lenda Guilherme Tâmega, nomes fortes do cenário competitivo como Uri Valadão e Sócrates Santana, o que justifica um pouco a performance da prancha como descreverei a seguir.

Mas vamos às primeiras impressões então, de primeira achei a prancha bem acabada. No geral a fábrica Agit tem melhorado bastante a construção das pranchas ao longo destes anos, isso é nítido. Bordas e emendas são bem finalizadas diminuindo assim a possibilidade de qualquer infiltração. Me incomodou apenas não ver no encarte nada falando sobre as medidas, como sou curioso quanto a isso procurei na internet e também não encontrei nenhuma informação dessa opção de tamanho. Acho isso importante já que essa referência é essencial na hora de se escolher a próxima prancha, pelo menos pra mim sempre foi. Comparar as medidas de uma prancha que você gosta/gostou muito é ponto-chave na compra da próxima.

Outro detalhe é referente aos logos estampados na prancha, depois de duas ou três quedas o da rabeta já estava saindo. Hoje utiliza-se o método de silk-screen pra estampar esses logos, e nesse caso isso precisa ser melhorado.

A prancha agrada bastante no aspecto geral e segurando ela na mão achei apenas um pouco grossa, perto da tendência atual de pranchas mais finas e com menor volume. Mas isso é perfeitamente compreensível já que é a prancha que o próprio Guilherme usa normalmente (lembrando que a Science Style que Mike Stewart usa também é 1mm mais grossa que o comum).

Mais um dia de pequenas mas boas ondas aqui em SP. Foto: Rodrigo Nattan

Quanto ao shape, que a própria GT Boards anuncia como sendo um “australian shape”, é sim um pouco mais reto e mais de acordo com o que a gente tem visto em outras marcas, australianas ou não. Não tem mais aquela sensação de wide point tão mais alto, com o desenho sendo quase uma “gota” invertida. Mas dá sim pra perceber um caimento em direção à rabeta. Guilherme acertou bem nisso já que deu uma boa modernizada na prancha, mas não tirou aquela característica clássica de um outline com a rabeta um pouco menor. Com essa medida na rabeta, a Mega-T gira super bem nos dias menores, sempre com bastante controle graças a área perto do bico. Olhando de relance me pareceu um pouco com o desenho das NMD Ben Player, obviamente com os ajustes de outline do wide point e rabeta.

Destaque pros contornos no deck, que são muito bonitos mas em um momento me pareceram não tão funcionais, principalmente nas laterais e onde a mão vai segurando a borda. Exatamente onde eu seguro a borda (e onde a maioria das pessoas também) o contorno desvia pra parte de dentro do deck, perdendo sua função. Na foto mais pro final do post dá pra entender melhor o que eu estou dizendo. Pessoalmente eu prefiro decks sem contornos ou com no máximo os rebaixos retos onde se segura a prancha (pegada simples no bico e nas bordas como na Science Launch por exemplo).

Surfei com a Mega-T em dias menores com ondas em torno de 0,5 metro, e também em um dia de boas ondas com 1 metro e algumas maiores. No dia maior a Mega-T me pareceu um pouco dura, mas imagino por ser uma prancha ainda nova e pouco amaciada. Isso é garantia de uma boa sobrevida e durabilidade ao longo do tempo. Eu pessoalmente acabei acostumando com pranchas já um pouco mais moles desde novas, como é o caso da Science Style ou outras pranchas um pouco mais finas. Mas isso é questão de gosto pessoal, então fica aqui apenas a constatação pra quem de repente for comprar “as escuras” pela internet. E sei bem que tem gente que gosta de prancha mais dura no geral, então fica aqui o relato.

Fica nítido então que a Mega-T foi feita pra manobrar bastante e aguentar as pancadas, já que a prancha parece ser bem robusta com seu bloco de PP, stringer e tela. As cavadas e as trocas de borda são rápidas (graças à área menor na rabeta), mas com um volume maior no bico a prancha muitas vezes acaba perdendo velocidade se você quiser fazer aquela linha mais clássica trocando muita borda. Ou seja, pra extrair tudo o que essa prancha tem, você vai ter que tentar surfar um pouco da maneira explosiva que Guilherme Tâmega faz já a bastante tempo. Cavadas rápidas sempre mirando o lip e extrapolando o limite nas manobras aéreas. Pra quem compete e treina sempre nesse estilo, é uma ótima pedida, e a identificação com o hexa-campeão mundial é quase que automática em cima dessa prancha.

GT Boards Mega-T 42.5″ PP

Bloco: Polipropileno 1.9 lb com tela simples logo acima do fundo

Deck: Polietileno 8lb NXL (PE poroso)

Fundo: Surlyn

Stringer: Simples de carbono

Rabeta: Crescente/Swallow

Bordas: 60/40

Preço: R$1199 (a venda nas principais lojas online como UV Store ou também lojas físicas, como a Surf Trunk em Santos – SP)

Prós: Prancha bem robusta e de construção sólida, com materiais modernos (PP e Surlyn) e shape bem adaptado às condições brasileiras.

Contras: Bloco um pouco mais grosso que o normal do mercado atual, dando uma dureza extra (o que pra muitos pode ser bom). Pode ser um problema em ondas muito rápidas quando nova. Logos do deck saem com facilidade.

Agradecendo sempre ao Rodrigo Nattan pelas fotos de ação, sem ele esse blog seria impossível de ser feito. Mais do trabalho íncrivel dele pode ser conferido nesse link do Instagram.

Como eu disse no começo desse post e também no último post sobre o Viper, sou representante da Science aqui em SP desde o final do ano passado. Isso obviamente acaba limitando um pouco os assuntos e reviews desse blog, inclusive esse review ficou meio em standby também por causa disso, imagino que haja aí um pequeno conflito de interesses. Só segui em frente com esse review por já ter combinado tudo e recebido a prancha pra teste. Vou assim procurar outros assuntos por aqui e não ficar tão limitado aos reviews, espero que entendam.

Obrigado e até a próxima, te vejo na água!

 

Review: Delta Viper 2.0

Bom, como eu imagino que muitos aqui também me acompanham no Instagram, devem ter visto que no final do ano passado recebi uma proposta para ser representante da Science Brasil aqui em São Paulo pelas mãos de um dos maiores atletas da história do esporte no Brasil, o capixaba Magno Passos.

Ainda estou adaptando minha rotina de trabalho diário durante a semana aqui em São Paulo (trabalho como diretor de arte numa produtora de vídeos) junto com essa nova tarefa, então os posts por aqui ficaram meio parados mesmo, não teve jeito.

Além de ter ficado muito lisonjeado com esse convite, percebi uma grande oportunidade de usar equipamentos que eu sempre achei dos melhores do mercado (e que muitas vezes já usava), não só pela enorme qualidade mas também por toda a história e conhecimento da lenda viva chamada Mike Stewart. Nunca escondi de ninguém que a minha própria história e experiência no esporte é em grande parte graças ao Mike, a influência dele na minha geração foi enorme. Eu cresci vendo todo o domínio do havaiano durante anos a fio, tanto na cena competitiva mas principalmente em tudo o que se relaciona a estilo, linha de onda, e a partir de 1998 com equipamentos, no lançamento da Science Bodyboards (que na época foi inicialmente lançada como “Mike Stewart Science”).

O Delta Viper 2.0 além de bem funcional, tem um design limpo e bonito.

Foto: Science Brasil

No final de 2017 a Science Brasil recebeu um enorme carregamento de pranchas, como muitos já devem ter visto nas minhas postagens no Instagram, e também nas principais lojas online disponíveis aqui no Brasil. Logo em seguida chegou no Brasil (e praticamente ao mesmo tempo que no resto do mundo) a nova versão do pé de pato assimétrico assinado pelo Mike, o chamado Delta Viper. Eu já tinha usado a primeira versão durante uns meses em 2014/15, mas acabei não me adaptando muito por ter ficado justo demais no meu pé.

Aqui faço um parêntesis essencial: cada pessoa tem os pés num formato bem pessoal, quase que único. Tamanho (comprimento) é apenas uma de muitas variáveis na hora de um pé de pato ou nadadeira te servir direito e não incomodar dentro d’água. O que eu escrevo aqui é em relação a minha experiência ao longo de todos esses anos com o formato de pé que eu tenho, ok? Recomendo sempre provar o pé de pato antes da compra, se possível obviamente.

Usei durante muito tempo os famosos Churchill e suas variações. Sempre me serviram como uma luva, o tamanho ML se encaixa perfeitamente no meu pé 42. Tive também os Limited Edition, Stealth S2/S3 e até o recente Vulcan. Mas os preferidos sempre foram os Churchill tradicionais ou os australianos Limited Editions, pela boa relação entre dureza, propulsão e conforto.

Um dos meus primeiros dias usando o Delta Viper, com boas ondas aqui em SP.

Foto: Rodrigo Nattan

Quando a Science Brasil me mandou os novos Delta Viper, fiquei bem empolgado pra usar principalmente por ter visto Mike falando num vídeo que a principal mudança tinha sido na parte interna, o que a gente acaba chamando de “foot pocket” (na tradução direta seria algo como o “bolso onde vai o pé”). O pocket teria ficado mais arredondado na sola (apertando menos o pé em geral), e o durômetro (que é a relação de dureza das borrachas em geral) tinha sido revisto também. Imaginei que essa versão poderia ser um pouco mais larga por dentro e que aí acomodaria melhor meu pé, que ficava com o dedão meio esmagado por cima na versão antiga. Fora também as cores bem bonitas e diferentes (o azul/amarelo é o meu preferido). 🙂

As principais diferenças do Delta Viper em relação ao Churchill são as saídas de água direcionais (nada daquele buraco pouco funcional em baixo) e o desenho mais reto da barbatana, com um “dente” na parte virada pra dentro. Esse dente garante mais controle em ondas cavadas, já que essa parte interna da perna “de fora” é a que fica mais tempo em contato com a água, junto obviamente com a sua perna “de dentro”. Outra característica marcante é o fato da barbatana ser um pouco mais curta que o normal, isso garante sempre uma pernada mais curta e rápida, mas ainda bem eficiente. O que eu percebi é que naquela pernada forte pra entrar na onda você acaba batendo a perna mais rápido e em movimentos mais curtos, com uma propulsão ótima. A ideia nesse momento é acelerar o mais rápido possível (pra chegar na mesma velocidade da onda) e o Viper é perfeito nesse quesito. Conversei com dois amigos que também tão usando o Delta Viper e esse relato da pernada mais curta foi idêntico e positivo. Na onda o Delta Viper é bem leve e segura super bem na parede e em despencadas. Na maioria do tempo dentro d’água nem lembrei dele, o que é um ótimo sinal.

Saídas de água direcionadas e a tal ponta interna que segundo Mike Stewart garante mais controle. Foto: Science Brasil

Quanto ao tamanho e o fato de apertar os dedões, no primeiro mês isso aconteceu um pouco, mas agora já parece que a borracha pegou um pouco o formato do meu pé, encaixando como uma luva. Já me sinto 100% adaptado e nem lembro mais dos Churchill que eu tanto gostava.

Outro detalhe que eu tenho visto muito por aí e queria comentar aqui. Vende-se muito a tal ideia do “made in Malaysia” (fabricado na Malásia) / borracha da Malásia, que apenas as nadadeiras fabricadas lá são boas e etc. Isso começou depois que a Morey passou a fabricação dos Churchill pra China pra cortar custos, e a qualidade dos pés de pato deles caiu imediatamente. Os Delta Viper são fabricados em Taiwan, e eu achei a borracha e a construção geral deles muito boa, no nível de outras nadadeiras, com a borracha super lisa e bem acabada (o que diminui a possibilidade daquelas feridas).

O Delta Viper é leve e não incomoda em dias pequenos ou trocas de borda, como nesse bat-invert aqui. Foto: Rodrigo Nattan

Então o que eu reforço aqui é o fato de que apenas o lugar onde é fabricado não é uma garantia 100% da qualidade. Uma fábrica pode comprar borracha na Malásia e fabricar seus pés de pato em Taiwan, como é por exemplo o caso do Delta Viper. O ideal é sempre que possível ver ao vivo e provar o pé de pato na loja.

Por enquanto não tenho nenhum ponto negativo como destaque no Delta Viper, e também só recebi feedbacks positivos de quem já está usando. Outro detalhe legal é o preço encontrado nas lojas, abaixo de concorrentes nacionais por exemplo. Ponto pra Science Brasil que conseguiu disponibilizar um produto de alta qualidade no mercado nacional (com todos os problemas que envolvem importação aqui) com preço competitivo.

Delta Viper 2.0

Nadadeira assimétrica de borracha, com saídas de água direcionais

Tamanhos: M (39-40), ML (41-42) e L (43-44)

Fabricação: Taiwan

Preço médio: entre 300 e 350 reais dependendo da loja

Onde encontrar: Direto com a Science Brasil (@sciencebrasil), lojas online dedicadas (UV Store, Meu Bodyboard) ou revendedores oficiais com loja física, como a Surf Trunk em Santos – SP e a Vortec no Rio de Janeiro.

Fotos das nadadeiras – Science Brasil / Fotos de ação – Rodrigo Nattan

É isso, espero conseguir voltar a escrever mais por aqui. Muita gente me pede sempre mas do ano passado pra cá foi meio complicado mesmo. 😦

Agradeço também a Science Brasil por todo o suporte até agora, e ao Magno Passos que é um apaixonado pelo esporte como todos nós.

Até a próxima, te vejo na água!

Ben Severson Designs: uma pequena fábrica de inovações.

Depois de quase 6 meses sem postagens, retomo o blog com um post já planejado desde o início do mesmo, lá em 2014.

No final dos anos 90 e começo dos anos 2000, uma das principais marcas de pranchas de Bodyboard do mundo era a BSD, comandada por um dos maiores nomes da história do esporte, a lenda Ben Severson.

bz-ben-capa_colagemCapa da Bodyboarding de Setembro de 1996 com Ben Severson e a publicidade da BZ dentro da revista, já mostrando a T-10 com as bordas arredondadas. Detalhe para o monstruoso bico de 14,5 polegadas. Fonte: Arquivo Pessoal BBing Magazine

Em meados de 1997 depois de sair da BZ, Ben Severson pensou e desenvolveu uma linha completa de pranchas com algumas inovações que ele já havia usado anteriormente em alguma prancha de sua agora então marca concorrente. Alguns acessórios já haviam sido lançados em 1996 e já eram sinônimo de qualidade, caso dos leashs/estrepes de espiral branco que além de resistentes eram muito bonitos e estilosos. Havia também grips de borracha e uma cordinha para pés-de-pato que é até hoje uma das melhores na minha opinião (vide imagens abaixo).

bsd_banner-abreAlguns dos primeiros anúncios da BSD nas páginas da extinta revista americana Bodyboarding Magazine, com Ben e o também havaiano Nelz Vellocido. Fonte: Arquivo Pessoal BBing Magazine

As primeiras pranchas lançadas por Ben tinham como principal diferencial as bordas “transitional”, algo criado por ele e já testado nas últimas T-10 feitas na BZ em 1996. Eram bordas que começavam lá no bico totalmente arredondadas (já que nessa área quase não entram em contato com água numa cavada por exemplo), e a medida que iam caminhando em direção à rabeta toda a parte de baixo ia ganhando um ângulo como nas pranchas tradicionais de hoje em dia, terminando em 50/50. A idéia era que da metade pra cima da prancha as bordas não deveriam “cravar” na parede da onda nem criar qualquer tipo de resistência, apenas deslizar. Já toda a metade inferior tinha a responsabilidade de manter a prancha presa à parede da onda e te colocar no trilho. Com um template vindo das BZ, com bico grande e bordas bem paralelas, as BSD eram um foguete em ondas tubulares. Outras características únicas eram as canaletas enormes (com quase 50% a mais de tamanho das tradicionais) e uma opção bem diferente de rabeta redonda para ondas menores. Nessa época a indústria americana fabricava os melhores blocos de Polypro do mundo, e a construção das BSD era impecável com suas bordas sem emendas e acabamento primoroso. Eram pranchas que chamavam muito a atenção por essa qualidade de construção e diferentes inovações.

gear-guide_colagemAs pranchas BSD no Gear Guide da revista Bodyboarding em dois momentos: a primeira linha em outubro de 1997 (ainda com o bloco em Arcel) e o modelo “113” de rabeta redonda e bloco PE. Fonte: Arquivo Pessoal BBing Magazine

Assim como dentro d’água a disputa de Ben Severson com Mike Stewart continuou fora dela, já que suas pranchas e acessórios batiam sempre de frente com a linha Science do 9 vezes campeão mundial (numa história já contada aqui). Ben Severson tinha uma bela equipe de atletas com os havaianos Lanson Ronquilio e Nelz Vellocido, e inclusive chegou a apoiar/patrocinar atletas brasileiros como os tops do circuito mundial Hermano Castro e Soraia Rocha, licenciando também suas pranchas para serem fabricadas no Brasil pela Genesis. Uma pena que essas pranchas não tinham absolutamente nada em relação aos exemplares havaianos e seguiam com os mesmos materiais usados aqui (blocos Duralight e fundo HDPE).

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A campeã mundial Soraia Rocha com sua prancha BSD de bordas transitional numa etapa do mundial no Rio de Janeiro. Fonte: Google.com/Pedro Monteiro

Com uma crise no mercado americano a partir da metade dos anos 2000, Ben Severson acabou deixando as pranchas stock um pouco de lado e acabou reservando seu tempo apenas para pedidos custom (sob medida). Nessa época a maioria das marcas começou também a passar a produção para fábricas fora dos EUA (como a Science por exemplo), e a hoje tão  famosa fábrica capitaneada por Nick Mezritz começou a ganhar força e fabricar pranchas para quase todas as marcas. O mercado australiano começou então a ditar os rumos dos equipamentos e assim algumas marcas americanas foram perdendo o espaço que tinham junto com os reflexos da tal crise, caso da super tradicional marca californiana Toobs por exemplo. O fim da revista Bodyboarding Mag acabou também com a pequena força que o mercado americano ainda tinha, e hoje vemos um total domínio do mercado australiano. Hoje em dia a única marca americana/havaiana que ainda tem fôlego para bater de frente nos diferentes mercados ao redor do mundo é a Science de Mike Stewart e talvez também a Hubboards, infelizmente.

bsd1Anúncio em página dupla na revista americana Bodyboarding em 2000, com o modelo 2042 e o famoso leash com espiral branca. Fonte: Arquivo Pessoal BBing Magazine

Atualmente ainda é possível ter uma prancha BSD, seja fazendo um modelo sob medida a seu gosto ou encomendando um template padrão parecido com os modelos antigos. Ben Severson continua fazendo as pranchas com todas as opções disponíveis à época e pode também adaptar essas características aos templates mais atuais. Confesso que tenho muita curiosidade de fazer uma custom com medidas “atuais”, mas com o conhecimento mágico que essa lenda viva ainda tem. Uma prancha com medidas da NMD Ben Player e bordas transitional e canaletas enormes seria incrível, não?

bsds_colagemAs duas BSDs que tive o prazer de usar, uma 2042 PP e outra Custom PP com medidas de uma Science E3 da época: pranchas excelentes, mas pouco duráveis.

Nos próximos posts eu imagino que teremos algum review de prancha, já que tenho prometidos pra 2017 dois test-drives com marcas bem conceituadas no mercado. A temporada de ondas aqui na região sudeste começa logo mais e vamos aguardar.

Até o próximo post, te vejo na água!

Paulo Fleury

Test-Drive: Science Style Loaded 42.5

Science Hall

Vamos lá, mais um Test Drive por aqui! Fiquei surpreso com o feedback do post inaugural sobre a Erizos e espero transformar esses reviews em algo super comum. Espero também que as marcas e lojas colaborem, tenho certeza que o consumidor final e a galera apaixonada pelo esporte saem sempre ganhando, pra mim pelo menos é um prazer enorme fazer esses reviews.

Hoje falarei de uma prancha que desde seu lançamento (na linha 2014-15) me chamou a atenção, basicamente por dois fatores. O primeiro obviamente por ser uma homenagem a prancha mais icônica que Mike Stewart usou em toda a sua carreira, a Turbo III (que eu inclusive já contei parte de sua história aqui no blog). O outro detalhe é em relação ao bloco usado, uma opção mais mole e mais leve do tradicional Polipropileno 1.9lb, que Mike chama de Loaded Core. Esse bloco tem densidade de 1.4lb, que o torna mais leve e mais flexível, possibilitando um “sanduíche” com características bem específicas.

PQAAAHfa6iZlK_Rs7L_3LV6wZ72bm6Ay6poJYUGyc_jDm7xmVwlPn99ZvqBNSq1KtkGM5x9BrR_LpqAQyicHnq_2gqIAm1T1UH6KwcovfMyGLjwJbIDIKj-wr5VmMike Stewart dominando Pipeline como ninguém, a bordo da Turbo III original nos anos 90. Foto: Brian Bielmann

A combinação nesse caso é de uma tela imediatamente abaixo do deck e outra acima do fundo, junto de um stringer simples no meio da prancha. Essa densidade menor do bloco garante a leveza necessária pra se colocar essas duas telas e a prancha não ficar muito pesada. Essa ideia do bloco “ensanduichado” por duas telas vem de algum tempo já. Em meados dos anos 90 Mike tinha um modelo na Morey Boogie chamado Pro Comp 3, que era algo como a evolução da Turbo III.  Ela já tinha um template mais estreito mas ainda era feita com bloco de PE, o que a deixava bem pesada. A Science Style talvez seja então a prancha que Mike Stewart sempre quis usar a 20 anos atrás, mas que a tecnologia da época ainda não permitia.

Então desde 2014 fiquei namorando e sonhando com a compra, já que sempre fui fã absoluto do Mike e sempre respeitei demais todo esse seu interesse e know-how de mais de 25 anos de desenvolvimento de shapes, materiais e combinações diferentes. Talvez ele seja o único atleta que se interessou em mergulhar fundo nesse mundo ainda durante o auge de sua carreira competitiva.

Mas acabei encontrando um problema, que pelo menos pra mim acaba sendo um tanto recorrente. Essa prancha só era oferecida nos EUA (o caminho mais fácil até o Brasil) nos tamanhos “cheios”, apenas 40, 41, 42 e 43 por exemplo. Pra minha altura e peso (1,93m/83kg) a 42 fica pequena, e a 43 larga demais. O jeito mesmo foi ficar sonhando até conseguir comprar uma diretamente da Austrália, onde a versão 42,5 é oferecida.

Então em meados de Maio desse ano recebi no Brasil (com a ajuda enorme do meu amigo Christian Brito) esse exemplar das fotos. O primeiro impacto ao pegar a prancha na mão foi brutal, não só pela qualidade absurda dos acabamentos feitos pela fábrica de Nick Mesritz, mas também pelos pequenos detalhes que remetem a tão falada Turbo III. A peça separada no bico e também na rabeta garantem um certo ar nostálgico, ainda mais pra quem viveu a hegemonia de Mike Stewart nos anos 90, dominando Pipeline como ninguém.

Foto 13-05-16 20 58 16 copyClose up do acabamento e dos detalhes do bico: quase uma obra de arte.

Fiquei bem curioso a princípio porque na mão a prancha parecia um tanto larga, mas essa impressão inicial sumiu imediatamente na primeira onda. Essa largura a mais (remetendo um pouco aos shapes e desenhos mais antigos) ajuda demais na hora da remada, e some praticamente assim que você começa a cavada. Depois disso a prancha dá uma estilingada como eu nunca havia visto antes. Arrisco aqui dizer que essa combinação Loaded Core seja mais rápida até que os blocos Parabolic. Precisei adaptar minha linha de onda inclusive, forçando menos as cavadas e tentando desenhar uma linha mais suave. Nada pode ser mais Mike Stewart que isso. 🙂

IMG_1754Um dos dias de teste da Science Style, com altas ondas.

A prancha foi testada em mares de 2 a 6 pés, desde ondas mais cheias e comuns até um dia de altas ondas aqui em SP, como podemos ver nas fotos que ilustram o teste. Em todas as condições não identifiquei nenhum ponto fraco ou situação em que a prancha não passou voando pelos “flat spots” e me direcionou como uma bala para o lip ou pra sair daquele tubo super fundo. Como eu disse antes aquela largura a mais te coloca antes dentro da onda e deixa a cavada bem precisa, ajudando também na volta das manobras e nas trocas de borda. Não senti em nenhum momento a prancha “sobrando” ou “faltando”, o que pelo menos pela minha experiência é algo super raro. Geralmente aquela prancha mais larga e que vai bem nos dias menores acaba sobrando em dias grandes e vice-versa, o que definitivamente não foi o caso da Science Style.

IMG_2228Nas manobras a Science Style vai muito bem, graças a velocidade que vem das cavadas.

Hoje eu diria que das mais de 30 pranchas que tive até hoje essa foi a que mais me surpreendeu junto com as Parabolic já aqui mencionadas. Para quem busca ter apenas uma prancha, essa é sem dúvida alguma a compra mais certeira no momento, já que essa prancha atende talvez 90% das condições que nós bodyboarders encontramos normalmente. Vendo Mike Stewart surfar com esse modelo fica nítido que a prancha anda demais e dificilmente fica pra trás, mesmo em dias mais difíceis (como em um campeonato em condições não-ideais por exemplo).

IMG_1725Em algumas situações a prancha ganha velocidade até demais. Aqui tentando dar aquela atrasada pra mais um tubo. Foto: Leandro Gonçalves

Quanto a linha de onda indico demais também esse modelo pra quem gosta de surfar com velocidade e/ou fazendo aquela linha mais clássica, mas que pode ser pontuada por manobras modernas. A Science Style responde demais aos comandos e cava velozmente como poucas pranchas no mercado, junto com aquele volume a mais pra voltar manobras como ARSs e outras em dias menores. Como eu disse antes se fosse definir essa prancha seria pela sua total versatilidade, funcionando em todas as condições. Talvez seja a primeira a rivalizar a já clássica NMD Ben Player que eu sempre gosto de citar aqui.

IMG_1781Com tanta velocidade fica fácil acertar aquele lip bem no lugar certo.

Science medidas

Science Style Loaded Core 42.5

Bloco: Polipropileno 1.4 lb com tela dupla

Deck: Polietileno 8 lb NXL

Fundo: Surlyn

Stringer: Simples de carbono

Rabeta: Crescente/Swallow

Bordas: 55/45

Preço: R$1449 no Brasil através da Science Brasil (@sciencebrasil), e também em algumas lojas online como a UV Store.

Prós: Desenho e comportamento ultra versáteis, funciona perfeitamente na maioria das condições. Combinação mais flexível de materiais dá aquela sensação de prancha amaciada mesmo quando nova.

Contra: A Style Loaded é um pouco mais larga que outras pranchas, o que pode ser um problema pra quem está acostumado com as pranchas mais novas, muito estreitas e finas.

A Science Style em ação em algum lugar do Pacífico Sul. 

Agradeço demais ao fotógrafo Rodrigo Nattan por todas as fotos de ação que publico aqui, sem ele não poderia nunca ilustrar esses posts e o blog seria infinitamente mais pobre. Todas as fotos de ação foram feitas por ele a não ser que esteja o crédito descrito. Fotos da prancha feitas por mim mesmo.

Já tenho mais um Test Drive encaminhado, mas ainda não recebi a prancha e vou manter o suspense. Acesse minha conta no Instagram (@pfleury) pra ficar informado das novidades!

Até a próxima!

Paulo Fleury

Test-Drive: Erizos Santiago Sanchez Superior PP 42.25

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Como prometido nos dois últimos posts inauguro aqui mais uma seção do blog, testando equipamentos e colocando minha experiência de 25 anos no esporte em um test-drive.

No começo desse ano recebi pelo Facebook o contato do Walter Andrade, dono da loja W9 no Rio de Janeiro. Ele em primeiro lugar me parabenizou pelo blog, e depois perguntou se eu aceitaria uma prancha do portfolio da loja dele pra eu testar.

Confesso que a princípio fiquei bastante surpreso. Esse blog acabou surgindo como algo nada muito sério, comecei a escrever por sugestão de amigos e também com a ideia de compartilhar um pouco esse meu interesse (as vezes até um pouco exagerado) pelo esporte. Nunca imaginei que alguém iria algum dia me oferecer qualquer tipo de equipamento pra eu dar minha opinião, então fiquei super entusiasmado e muito lisonjeado. Lógico que aceitei a proposta do Walter na mesma hora e combinamos detalhes do envio da prancha pra São Paulo.

Comecei a pegar onda no verão de 1991, e por isso já acompanhei muitas fases desse esporte. Me lembrei então da edição anual da revista americana Bodyboarding que trazia um teste com pranchas de todas as marcas disponíveis no mercado americano naquele ano, o chamado “Test Pilot”. Dois bodyboarders profissionais da época eram chamados para testar algo em torno de 20 pranchas, algo inédito e que acho que nunca mais foi replicado até hoje. Um pequeno texto era escrito junto com detalhes dos materiais e preço das pranchas.

MS Turbo 3 Gear Guide

Exemplo do Gear Guide no ano de 1992. Aqui a lendária Turbo III. Fonte: Arquivo Pessoal BBing Mag

Antes de começar a falar sobre a prancha deixo bem claro aqui que em nenhum momento me foi exigido um post ou qualquer opinião direcionada em contra-partida para o envio dessa prancha pela W9. Faço esse relato de livre e espontânea vontade, com a mesma naturalidade que sempre abordei os assuntos e respondi as dúvidas de todos nos comentários. E atesto a seriedade e profissionalismo da W9 em um mundo que já tem gente demais querendo passar por cima dos outros. Parabenizo aqui o Walter pelo profissionalismo e dedicação enorme em tentar manter o mercado funcionando com produtos importados, mesmo em tempos difíceis como o atual e uma cotação do dólar absurda.

Bom, vamos lá. Conversando um pouco com o Walter pelo FB falei que usava pranchas 42.5” (tenho 1,93m e 83kg), e ele me disse que tinha uma 42.25” pronta pra ser enviada. Como eu sei que tamanhos acima de 42” não são a grande maioria dos modelos comercializados (a Pride por exemplo nem tem modelos 42.5” disponíveis), aceitei e recebi como mais um desafio, pois imaginei que talvez pudesse ficar um pouco pequena. Mas no fim acabou dando certo. A prancha que eu recebi para o teste é da marca chilena Erizos, modelo Santiago Sanchez, com bloco de PP, sem tela e com o sistema “tridente” de 3 stringers. São 2 stringers curtos nas laterais próximo às bordas, começando na rabeta e indo até quase a metade da prancha, e um de tamanho padrão no meio.

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A princípio fiquei um pouco receoso pelo fato de ter esse sistema, basicamente por dois motivos: a dureza da prancha em geral e seu respectivo peso. Mas nesses dois quesitos acabei surpreendido, já que ela tem praticamente o mesmo peso de uma prancha com 1 stringer simples, e não me pareceu tão dura dentro d’água, apenas com aquela dureza tradicional de uma prancha nova. Esse sistema permite também que o bloco seja um pouco mais fino que o normal, o que garante o peso semelhante a outras pranchas e ainda dá aquela segurança a mais na pegada.

Lembro aqui mais uma vez algo que eu sempre digo aqui no blog: prancha de bodyboard NÃO foi feita pra durar eternamente, desconfie daquele prancha super dura com bloco mais grosso e meia dúzia de stringers.

A Erizos é uma marca chilena muito popular em seu país de origem, e tem todas as suas pranchas fabricadas na fábrica Agit em Taiwan. Outras marcas conhecidas no mercado mundial são fabricadas lá, caso das GT Boards, Funkshen, Nomad e QCD (até esse ano pelo menos), entre outras. Os materiais são de alta qualidade e talvez a construção geral da prancha só fique atrás do padrão das NMD/VS fabricadas na Indonésia, por conta do acabamento que é pouca coisa inferior. No mais são pranchas anos-luz a frente de qualquer prancha nacional, e utilizam a combinação clássica de Polypro, Surlyn e deck de PE/8lb mais aberto, também chamado de NXL. Ou seja, no quesito materiais e “sanduíche” escolhido, está mais que recomendada antes até de tirar do plástico.

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Quanto ao shape, a Erizos SS tem um desenho bem reto e quadrado, com bordas quase paralelas e um wide point médio, que figura mais ou menos em um meio termo entre a largura de uma NMD Ben Player e uma Found MR. Isso acaba por garantir bastante velocidade nas cavadas, mas tira um pouco o aspecto mais versátil que eu acabo sempre escrevendo aqui no blog. Vendo alguns vídeos do argentino Santiago (que assina esse modelo e que você pode ver abaixo) entendi bem o porque desse desenho, com ondas bem rápidas e com muita força sendo surfadas por ele em Teahupoo e em outras ilhas no Pacífico.

 

 

Não cheguei a pegar nenhum mar muito grande (graças ao verão bem devagar aqui em São Paulo), mas em ondas em torno de meio a 1 metro percebe-se que a prancha tem uma cavada super rápida e responde muito bem aos comandos. Como ela tem uma largura máxima um pouco limitada, talvez não funcione tão bem em ondas mais cheias e que não “empurram” tanto. Vai acabar faltando flutuação pra surfar aquele dia mais “força barra”. Mas ao mesmo tempo em partes da onda com bastante força a prancha se destaca acelerando muito bem e te levando até o lip com bastante precisão.

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O verão e começo de outono foram meio devagar aqui em São Paulo, mas ainda deu pra colocar a prancha na água. Foto: Rodrigo Nattan

Destaque especial para o sistema de 3 stringers, já que como não existem stringers embaixo dos cotovelos (como em uma prancha com dois stringers por exemplo), a estrutura superior da prancha acaba se comportando da mesma maneira que uma prancha com stringer simples, flexionando nas cavadas e projetando em direção ao lip. E nas pancadas mais fortes os stringers laterais se encarregam de não deixar a prancha dobrar e torcer em volta do stringer central. Imagino que isso ao longo do tempo garanta a integridade da prancha e também permita seu uso em locais com água bem quente, caso do Nordeste brasileiro. Esse modelo conta também com os contornos no deck ao longo das bordas até o bico. Achei bem funcional já que ajudam bastante na hora de voltar as manobras segurando as bordas.

IMG_1499_1Detalhe do acabamento acima da média

Recomendo esse modelo pra dias de ondas bem cavadas e rápidas ou dias grandes em ondas um pouco mais cheias, onde você vai fazer cavadas longas e trocar bastante de borda. Essa prancha funcionaria muito bem em ondas como São Conrado no RJ e também na Cacimba do Padre em Fernando de Noronha. Ondas rápidas, com bastante força, que realmente te empurram e que muitas vezes não dão muito tempo nem permitem muito espaço pra cavadas longas e mais lentas.

Já naqueles dias de mar mais fraco recomendo uma prancha mais larga que te dê mais flutuação e que não exija tanta força pra voltar as manobras. Lembro aqui também que usar uma prancha muito estreita ou pequena em ondas fracas acaba comprometendo sua durabilidade, já que você acaba forçando bastante a prancha pra entrar na onda e completar manobras.

 

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Erizos Santiago Sanchez Superior PP 42.25”
Bloco: Polipropileno 1.9 sem tela
Deck: Polietileno 8lb NXL
Fundo: Surlyn
Stringers: Sistema tridente com 3 stringers, sendo 2 curtos e 1 longo
Rabeta: Crescente
Bordas: 60/40 

Preço: R$ 1.290

Prós: Durabilidade, flexibilidade mesmo quando nova, construção geral muito acima da média nacional.

Contras: Desenho não tão versátil, sistema de stringers pode ser muito duro para alguns dependendo da temperatura da água.

IMG_1501Testando a Erizos SS em mais um dia pequeno aqui em SP. Foto: Rodrigo Nattan

Agradeço novamente ao Walter Andrade e ao Leonardo Teixeira da W9 pela oportunidade e recomendo 100% a loja deles pra quem precisa de qualquer tipo de equipamento para a prática do Bodyboarding.

http://www.wnine.com.br

Acho que é isso, continuo respondendo dúvidas e aceitando críticas nos comentários. Vou tentar conseguir outras pranchas para teste, mesmo sabendo que o mercado aqui no Brasil é super pequeno e limitado.

Fotos da prancha tiradas por mim, e agradeço mais uma vez ao Rodrigo pelas fotos do teste na água.

Te vejo na água, até a próxima!

Mike Stewart e sua linha de pranchas

Vamos lá pra mais um post histórico. Como escrevi no post passado quando falei das nadadeiras, vou receber nesse mês uma prancha da marca chilena Erizos para um test-drive, uma gentileza enorme do Walter Andrade da loja Wnine no Rio de Janeiro. Essa prancha ainda não chegou e como estamos em pleno verão (época fraca de ondas), acho que esse review ainda vai demorar um pouco. Mas já agradeço de antemão essa oportunidade,  muita gente sempre me pede dicas na compra de pranchas e essa vou analisar em detalhes!

Mas enquanto isso vamos com um pouco da história das pranchas de bodyboarding. Hoje falarei um pouco sobre como surgiu e quais eram os primeiros modelos da marca exclusiva da lenda havaiana Mike Stewart, criada em 1998 inicialmente sob o nome de “Mike Stewart Bodyboards”. Mike não precisa de introduções, é simplesmente o maior nome da história do esporte e quando lançou sua linha de pranchas o mercado simplesmente veio abaixo. Sempre um estudioso, ele tinha uma série de idéias em mente que só poderiam mesmo ser aplicadas quando tivesse total controle de uma linha de pranchas e sua produção.

Nos anos de 1996 e 1997 Mike Stewart ainda surfava pela Morey Boogie, e contava com dois modelos com sua assinatura: a famosa Turbo III (que depois se tornou apenas “Pro-Comp”) e a Mach 7-7 Mike Stewart (vide foto abaixo). Nessa época a empresa que detinha os direitos da Morey (a Mattel, mesma empresa que fabrica a boneca Barbie até hoje) vendeu a marca para outra empresa de brinquedos, a Wham-O. Nesse momento Mike estava desenvolvendo um terceiro modelo totalmente novo, uma prancha Bat-Tail (mais uma invenção dele e novidade na época) com deck de duas densidades e grip nos cotovelos, que vocês podem ver abaixo.

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Uma LV ainda no plástico. Imagem: Bodyboard Museum

Chamada de Launch Vehicle (veículo de decolagem na tradução pura e simples), a prancha era bem mais grossa que as pranchas comuns e tinha um deck com laterais mais moles pra teoricamente amortecer o impacto das manobras nos cotovelos. Mas com um bloco de PE e duas telas X-Flex me arrisco dizer que essa prancha deveria pesar uma tonelada. Hoje muito raras são disputadas a tapa por colecionadores nos EUA e na Austrália, passando fácil do valor de uma prancha nova.

 

MS Morey Boogie Catalogo 1992_compStewart Readers Poll

Mike em dois momentos: com a mais que famosa Turbo III fabricada pela Morey Boogie em um catálogo de 1992, e já com uma prancha sem logos na transição para sua marca em 1997/98. Fonte: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

Assim que a Morey Boogie foi vendida Mike não entrou em um acordo com a Wham-O em relação às novas bases contratuais. Fora isso ele também achou que a Morey não estava conseguindo fabricar esse modelo novo (Launch Vehicle) com qualidade satisfatória, o que acabava prejudicando as vendas e consequentemente a quantidade de royalties e dinheiro que ele ganhava. Assim, em 1997 Mike processou a Mattel e a Wham-O e acabou criando sua segunda marca (depois da Gyroll), que no começo se chamava simplesmente “Mike Stewart Bodyboards”. Depois que o contrato com a Morey terminou, Mike continuou usando alguns protótipos criados por ele enquanto suas pranchas não eram lançadas no mercado, caso dessa foto do Readers Poll de 1998 que eu coloquei acima. Eram pranchas bem diferentes do que era vendido pela Morey e encontrado nas lojas na época, e elas tinham sempre a rabeta bat-tail inventada por ele. Imagino que já eram protótipos idênticos às pranchas que seriam lançadas.

 

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Um dos primeiros anúncios das pranchas Mike Stewart na Bodyboarding Magazine. Fonte: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

Com o auxílio do shaper Brian Peterson (que depois criou suas próprias marcas Vortex e Division 71), Mike desenvolveu uma linha inicial de três pranchas bat-tail, que seguiam mais ou menos o shape que ele já utilizava na Morey Boogie, e eram fabricadas com total qualidade na Califórnia. Bloco de Polypro (que a Morey só veio usar no ano seguinte), deck Sealed Air/NXL e fundo Surlyn eram encontrados em todos os modelos. O primeiro modelo vendido foi a chamada E0, e era uma réplica da prancha azul claro e sem logos que Mike havia usado durante o inverno de 1997-1998. Com tamanho 42″ e numerada em apenas 1200 unidades, essa prancha se esgotou em pouco tempo nos EUA. Sem canaletas, sem tela e sem stringer, era uma prancha bem solta pra linha super controlada que Mike já fazia com maestria. Outros dois modelos foram lançados, chamados de E1 e E2 (vide fotos). Já incorporavam novidades que seriam seguidas por todas as outras marcas, como os contornos no deck e a super popular rabeta bat-tail lixada para o encaixe do quadril. A E2 ainda tinha algo que não foi nunca repetido até hoje: as bordas eram lixadas num desenho côncavo, como se fossem uma pequena canaleta ao longo da lateral ajudando a prancha a agarrar a parede da onda, e Mike as chamava de “delta rails”.

 

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Dois anúncios das pranchas Mike Stewart nas páginas da Bodyboarding Magazine em 1998, no caso E1 e E2 respectivamente. Fonte: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

No ano de 1999 outros modelos foram sendo adicionados a linha, que obviamente perdeu o modelo E0. A E3 e também a E4 (a primeira com rabeta crescente) aumentaram a linha junto com E5 e E6 (com rabeta em V, outra novidade) no ano seguinte em 2000. Nessa época a concorrência era grande com pranchas de altíssimo nível no mercado, principalmente das BSD vindas do gênio Ben Severson.

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Mike em Teahupoo surfando com uma E2, em um anúncio do modelo E5 no ano 2000. Fonte: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

As pranchas sempre fizeram muito sucesso no mercado mundial e pelo menos pra mim sempre foram referência de qualidade absoluta, até a chegada de Mez e sua fábrica na Indonésia. Mike acabou transferindo a produção pra lá em meados dos anos 2000, o que segue até hoje inclusive utilizando-se das mesmas tecnologias oferecidas (como o ISS). E rebatizou também a marca definitivamente como “Science Bodyboards”, permanecendo até hoje como um dos principais nomes ao redor do mundo.

ms1 copy_blogAnúncio de lançamento da E0. Fonte: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

Mais pra frente vou fazer um post similar sobre a BSD, com imagens dos diversos modelos, suas icônicas bordas “transitional” e diferentes tipos de rabeta, com uma versão reta inclusive. Bons tempos esses onde a variedade de shapes, materiais, tecnologias e rabetas cresceu bastante.

Até a próxima!

Paulo Fleury