Science Style e Science Pro LTD: quiver completo com apenas duas pranchas

Bora pra mais um texto por aqui, hoje um breve mini-review de pranchas.

No final de 2018 eu completei 1 ano trabalhando diretamente com a Science Brasil, e resolvi hoje falar um pouco das 2 pranchas que usei praticamente o tempo todo nos últimos 3 ou 4 anos.

Science Style Loaded 42.5″: Shape já conhecido e testado a exaustão pelas mãos de Mike Stewart

A primeira nas fotos é uma Style Loaded 42.5” que eu comprei em 2015, bloco NRG 1.4lb com tela dupla e um volume de borda a mais que faz ela funcionar em qualquer tipo de onda. É a prancha que eu fiz o review aqui no blog e surpreendentemente ela continua firme e forte, sem dobras. Destaque também pros acabamentos perfeitos da fábrica do Mez, que garantem a colagem perfeita das peças extras na rabeta e no bico.

Essa prancha me acompanhou em todas as últimas viagens e também durante todo o Circuito Paulista de 2017, onde a gente sabe bem que as condições de onda nunca são as ideais. Ela funciona de 1 a 10 pés, sem o menor exagero. Se você quer ter uma prancha apenas, eu não canso de sugerir essa compra. Fora aquela certeza de estar usando o equipamento certo, afinal o próprio Mike Stewart usa a Style em toda e qualquer condição. Único defeito talvez seja dela na época ainda não ter as canaletas MS, que tiram um peso da rabeta e ajudam demais nas trocas de borda.

Pro LTD ISS 42.5″: Aquele desenho estreito que vem se tornando popular de uns anos pra cá.

A outra prancha é uma Pro LTD ISS 42.5”, que eu recebi da Science Brasil no final de 2017. É uma prancha super específica, sem tela, super fina e estreita. É o modelo do australiano Tom Rigby, que acabou saindo da Science mas imagino que pela boa aceitação desse tipo de prancha hoje em dia, deixaram essa prancha na linha. Com a vantagem do sistema ISS e das canaletas MS, essa prancha acaba tendo uma versatilidade incrível mesmo com toda a especificidade que eu já falei. Em ondas rápidas ela simplesmente voa, faz aquele drop atrasado/scoop como nenhuma outra, mas em dias menores ela surpreende e também anda.

Apesar da largura e do volume a mais (bordas e bloco mais grosso), a Style Loaded anda demais em qualquer condição. Foto: Rodrigo Nattan

Nos dias menores eu acabo usando um stringer mais duro de carbono, e a prancha anda super bem também. Ponto pro Mike mais uma vez, que consegue fazer uma prancha específica desse jeito andar também razoavelmente em qualquer condição. Como eu falei antes ela conta com as canaletas MS e isso faz toda a diferença, a rabeta não afunda tanto nas partes mais fracas da onda e no fim você consegue surfar mesmo naqueles dias de onda mais cheia ou fraca.


Detalhe das canaletas MS no modelo Pro LTD. 

Hoje em dia fala-se muito em tecnologia, em fundos com concave, rabetas diferentes, blocos híbridos como PFS, QuadCore e etc… Mas nada disso funciona se o desenho e o volume final da prancha não forem desenvolvidos o suficiente. E hoje ninguém sabe mais sobre isso do que Mike Stewart. Todos os shapes são estudados e desenvolvidos há mais de 25, 30 anos. Mike já trabalhava em seus modelos muito antes da Science existir, e isso você percebe por exemplo trocando de uma prancha pra outra sem adaptação ou dificuldade alguma, ou conseguindo surfar em qualquer condição com pranchas bem específicas, como eu falei do modelo Pro acima. Posso dizer que com esses dois modelos você talvez consiga surfar qualquer onda no mundo, de beach breaks sem muita força, reef breaks na Indonesia até Teahupo’o e Pipeline em condições de gente grande.

Em ondas muito rápidas e que precisem de uma cavada curta (como Pauba, Itacoatiara ou slabs/fundos de pedra) a Pro cai como uma luva, pra todo o resto eu garanto que você não vai querer usar nada que não seja uma Style Loaded.

Style Loaded garante aquela segurança e velocidade em ondas grandes como Teahupo’o. 

Hoje tenho certeza de utilizar os melhores equipamentos possíveis, e sei que minha performance na água está diretamente relacionada a isso. Lógico que a prancha X ou Y não faz milagre, mas você nunca vai conseguir chegar no seu máximo ou perto dele, utilizando equipamento ruim ou pra condição errada. Fica aí a dica na hora de comprar sua próxima prancha. 

O sistema ISS pode dar uma versatilidade a mais e ser o definidor naquela queda de condições específicas.

Pra quem ficou curioso, dá uma olhada lá no perfil da Science Brasil, tem o link pra loja online e muito conteúdo legal sobre todo o time Science aqui no Brasil e no mundo.

Até a próxima, te vejo na água!

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Ben Severson Designs: uma pequena fábrica de inovações.

Depois de quase 6 meses sem postagens, retomo o blog com um post já planejado desde o início do mesmo, lá em 2014.

No final dos anos 90 e começo dos anos 2000, uma das principais marcas de pranchas de Bodyboard do mundo era a BSD, comandada por um dos maiores nomes da história do esporte, a lenda Ben Severson.

bz-ben-capa_colagemCapa da Bodyboarding de Setembro de 1996 com Ben Severson e a publicidade da BZ dentro da revista, já mostrando a T-10 com as bordas arredondadas. Detalhe para o monstruoso bico de 14,5 polegadas. Fonte: Arquivo Pessoal BBing Magazine

Em meados de 1997 depois de sair da BZ, Ben Severson pensou e desenvolveu uma linha completa de pranchas com algumas inovações que ele já havia usado anteriormente em alguma prancha de sua agora então marca concorrente. Alguns acessórios já haviam sido lançados em 1996 e já eram sinônimo de qualidade, caso dos leashs/estrepes de espiral branco que além de resistentes eram muito bonitos e estilosos. Havia também grips de borracha e uma cordinha para pés-de-pato que é até hoje uma das melhores na minha opinião (vide imagens abaixo).

bsd_banner-abreAlguns dos primeiros anúncios da BSD nas páginas da extinta revista americana Bodyboarding Magazine, com Ben e o também havaiano Nelz Vellocido. Fonte: Arquivo Pessoal BBing Magazine

As primeiras pranchas lançadas por Ben tinham como principal diferencial as bordas “transitional”, algo criado por ele e já testado nas últimas T-10 feitas na BZ em 1996. Eram bordas que começavam lá no bico totalmente arredondadas (já que nessa área quase não entram em contato com água numa cavada por exemplo), e a medida que iam caminhando em direção à rabeta toda a parte de baixo ia ganhando um ângulo como nas pranchas tradicionais de hoje em dia, terminando em 50/50. A idéia era que da metade pra cima da prancha as bordas não deveriam “cravar” na parede da onda nem criar qualquer tipo de resistência, apenas deslizar. Já toda a metade inferior tinha a responsabilidade de manter a prancha presa à parede da onda e te colocar no trilho. Com um template vindo das BZ, com bico grande e bordas bem paralelas, as BSD eram um foguete em ondas tubulares. Outras características únicas eram as canaletas enormes (com quase 50% a mais de tamanho das tradicionais) e uma opção bem diferente de rabeta redonda para ondas menores. Nessa época a indústria americana fabricava os melhores blocos de Polypro do mundo, e a construção das BSD era impecável com suas bordas sem emendas e acabamento primoroso. Eram pranchas que chamavam muito a atenção por essa qualidade de construção e diferentes inovações.

gear-guide_colagemAs pranchas BSD no Gear Guide da revista Bodyboarding em dois momentos: a primeira linha em outubro de 1997 (ainda com o bloco em Arcel) e o modelo “113” de rabeta redonda e bloco PE. Fonte: Arquivo Pessoal BBing Magazine

Assim como dentro d’água a disputa de Ben Severson com Mike Stewart continuou fora dela, já que suas pranchas e acessórios batiam sempre de frente com a linha Science do 9 vezes campeão mundial (numa história já contada aqui). Ben Severson tinha uma bela equipe de atletas com os havaianos Lanson Ronquilio e Nelz Vellocido, e inclusive chegou a apoiar/patrocinar atletas brasileiros como os tops do circuito mundial Hermano Castro e Soraia Rocha, licenciando também suas pranchas para serem fabricadas no Brasil pela Genesis. Uma pena que essas pranchas não tinham absolutamente nada em relação aos exemplares havaianos e seguiam com os mesmos materiais usados aqui (blocos Duralight e fundo HDPE).

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A campeã mundial Soraia Rocha com sua prancha BSD de bordas transitional numa etapa do mundial no Rio de Janeiro. Fonte: Google.com/Pedro Monteiro

Com uma crise no mercado americano a partir da metade dos anos 2000, Ben Severson acabou deixando as pranchas stock um pouco de lado e acabou reservando seu tempo apenas para pedidos custom (sob medida). Nessa época a maioria das marcas começou também a passar a produção para fábricas fora dos EUA (como a Science por exemplo), e a hoje tão  famosa fábrica capitaneada por Nick Mezritz começou a ganhar força e fabricar pranchas para quase todas as marcas. O mercado australiano começou então a ditar os rumos dos equipamentos e assim algumas marcas americanas foram perdendo o espaço que tinham junto com os reflexos da tal crise, caso da super tradicional marca californiana Toobs por exemplo. O fim da revista Bodyboarding Mag acabou também com a pequena força que o mercado americano ainda tinha, e hoje vemos um total domínio do mercado australiano. Hoje em dia a única marca americana/havaiana que ainda tem fôlego para bater de frente nos diferentes mercados ao redor do mundo é a Science de Mike Stewart e talvez também a Hubboards, infelizmente.

bsd1Anúncio em página dupla na revista americana Bodyboarding em 2000, com o modelo 2042 e o famoso leash com espiral branca. Fonte: Arquivo Pessoal BBing Magazine

Atualmente ainda é possível ter uma prancha BSD, seja fazendo um modelo sob medida a seu gosto ou encomendando um template padrão parecido com os modelos antigos. Ben Severson continua fazendo as pranchas com todas as opções disponíveis à época e pode também adaptar essas características aos templates mais atuais. Confesso que tenho muita curiosidade de fazer uma custom com medidas “atuais”, mas com o conhecimento mágico que essa lenda viva ainda tem. Uma prancha com medidas da NMD Ben Player e bordas transitional e canaletas enormes seria incrível, não?

bsds_colagemAs duas BSDs que tive o prazer de usar, uma 2042 PP e outra Custom PP com medidas de uma Science E3 da época: pranchas excelentes, mas pouco duráveis.

Nos próximos posts eu imagino que teremos algum review de prancha, já que tenho prometidos pra 2017 dois test-drives com marcas bem conceituadas no mercado. A temporada de ondas aqui na região sudeste começa logo mais e vamos aguardar.

Até o próximo post, te vejo na água!

Paulo Fleury

Test-Drive: Science Style Loaded 42.5

Science Hall

Vamos lá, mais um Test Drive por aqui! Fiquei surpreso com o feedback do post inaugural sobre a Erizos e espero transformar esses reviews em algo super comum. Espero também que as marcas e lojas colaborem, tenho certeza que o consumidor final e a galera apaixonada pelo esporte saem sempre ganhando, pra mim pelo menos é um prazer enorme fazer esses reviews.

Hoje falarei de uma prancha que desde seu lançamento (na linha 2014-15) me chamou a atenção, basicamente por dois fatores. O primeiro obviamente por ser uma homenagem a prancha mais icônica que Mike Stewart usou em toda a sua carreira, a Turbo III (que eu inclusive já contei parte de sua história aqui no blog). O outro detalhe é em relação ao bloco usado, uma opção mais mole e mais leve do tradicional Polipropileno 1.9lb, que Mike chama de Loaded Core. Esse bloco tem densidade de 1.4lb, que o torna mais leve e mais flexível, possibilitando um “sanduíche” com características bem específicas.

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A combinação nesse caso é de uma tela imediatamente abaixo do deck e outra acima do fundo, junto de um stringer simples no meio da prancha. Essa densidade menor do bloco garante a leveza necessária pra se colocar essas duas telas e a prancha não ficar muito pesada. Essa ideia do bloco “ensanduichado” por duas telas vem de algum tempo já. Em meados dos anos 90 Mike tinha um modelo na Morey Boogie chamado Pro Comp 3, que era algo como a evolução da Turbo III.  Ela já tinha um template mais estreito mas ainda era feita com bloco de PE, o que a deixava bem pesada. A Science Style talvez seja então a prancha que Mike Stewart sempre quis usar a 20 anos atrás, mas que a tecnologia da época ainda não permitia.

Então desde 2014 fiquei namorando e sonhando com a compra, já que sempre fui fã absoluto do Mike e sempre respeitei demais todo esse seu interesse e know-how de mais de 25 anos de desenvolvimento de shapes, materiais e combinações diferentes. Talvez ele seja o único atleta que se interessou em mergulhar fundo nesse mundo ainda durante o auge de sua carreira competitiva.

Mas acabei encontrando um problema, que pelo menos pra mim acaba sendo um tanto recorrente. Essa prancha só era oferecida nos EUA (o caminho mais fácil até o Brasil) nos tamanhos “cheios”, apenas 40, 41, 42 e 43 por exemplo. Pra minha altura e peso (1,93m/83kg) a 42 fica pequena, e a 43 larga demais. O jeito mesmo foi ficar sonhando até conseguir comprar uma diretamente da Austrália, onde a versão 42,5 é oferecida.

Então em meados de Maio desse ano recebi no Brasil (com a ajuda enorme do meu amigo Christian Brito) esse exemplar das fotos. O primeiro impacto ao pegar a prancha na mão foi brutal, não só pela qualidade absurda dos acabamentos feitos pela fábrica de Nick Mesritz, mas também pelos pequenos detalhes que remetem a tão falada Turbo III. A peça separada no bico e também na rabeta garantem um certo ar nostálgico, ainda mais pra quem viveu a hegemonia de Mike Stewart nos anos 90, dominando Pipeline como ninguém.

Foto 13-05-16 20 58 16 copyClose up do acabamento e dos detalhes do bico: quase uma obra de arte.

Fiquei bem curioso a princípio porque na mão a prancha parecia um tanto larga, mas essa impressão inicial sumiu imediatamente na primeira onda. Essa largura a mais (remetendo um pouco aos shapes e desenhos mais antigos) ajuda demais na hora da remada, e some praticamente assim que você começa a cavada. Depois disso a prancha dá uma estilingada como eu nunca havia visto antes. Arrisco aqui dizer que essa combinação Loaded Core seja mais rápida até que os blocos Parabolic. Precisei adaptar minha linha de onda inclusive, forçando menos as cavadas e tentando desenhar uma linha mais suave. Nada pode ser mais Mike Stewart que isso. 🙂

IMG_1754Um dos dias de teste da Science Style, com altas ondas.

A prancha foi testada em mares de 2 a 6 pés, desde ondas mais cheias e comuns até um dia de altas ondas aqui em SP, como podemos ver nas fotos que ilustram o teste. Em todas as condições não identifiquei nenhum ponto fraco ou situação em que a prancha não passou voando pelos “flat spots” e me direcionou como uma bala para o lip ou pra sair daquele tubo super fundo. Como eu disse antes aquela largura a mais te coloca antes dentro da onda e deixa a cavada bem precisa, ajudando também na volta das manobras e nas trocas de borda. Não senti em nenhum momento a prancha “sobrando” ou “faltando”, o que pelo menos pela minha experiência é algo super raro. Geralmente aquela prancha mais larga e que vai bem nos dias menores acaba sobrando em dias grandes e vice-versa, o que definitivamente não foi o caso da Science Style.

IMG_2228Nas manobras a Science Style vai muito bem, graças a velocidade que vem das cavadas.

Hoje eu diria que das mais de 30 pranchas que tive até hoje essa foi a que mais me surpreendeu junto com as Parabolic já aqui mencionadas. Para quem busca ter apenas uma prancha, essa é sem dúvida alguma a compra mais certeira no momento, já que essa prancha atende talvez 90% das condições que nós bodyboarders encontramos normalmente. Vendo Mike Stewart surfar com esse modelo fica nítido que a prancha anda demais e dificilmente fica pra trás, mesmo em dias mais difíceis (como em um campeonato em condições não-ideais por exemplo).

IMG_1725Em algumas situações a prancha ganha velocidade até demais. Aqui tentando dar aquela atrasada pra mais um tubo. Foto: Leandro Gonçalves

Quanto a linha de onda indico demais também esse modelo pra quem gosta de surfar com velocidade e/ou fazendo aquela linha mais clássica, mas que pode ser pontuada por manobras modernas. A Science Style responde demais aos comandos e cava velozmente como poucas pranchas no mercado, junto com aquele volume a mais pra voltar manobras como ARSs e outras em dias menores. Como eu disse antes se fosse definir essa prancha seria pela sua total versatilidade, funcionando em todas as condições. Talvez seja a primeira a rivalizar a já clássica NMD Ben Player que eu sempre gosto de citar aqui.

IMG_1781Com tanta velocidade fica fácil acertar aquele lip bem no lugar certo.

Science medidas

Science Style Loaded Core 42.5

Bloco: Polipropileno 1.4 lb com tela dupla

Deck: Polietileno 8 lb NXL

Fundo: Surlyn

Stringer: Simples de carbono

Rabeta: Crescente/Swallow

Bordas: 55/45

Preço: R$1449 no Brasil através da Science Brasil (@sciencebrasil), e também em algumas lojas online como a UV Store.

Prós: Desenho e comportamento ultra versáteis, funciona perfeitamente na maioria das condições. Combinação mais flexível de materiais dá aquela sensação de prancha amaciada mesmo quando nova.

Contra: A Style Loaded é um pouco mais larga que outras pranchas, o que pode ser um problema pra quem está acostumado com as pranchas mais novas, muito estreitas e finas.

A Science Style em ação em algum lugar do Pacífico Sul. 

Agradeço demais ao fotógrafo Rodrigo Nattan por todas as fotos de ação que publico aqui, sem ele não poderia nunca ilustrar esses posts e o blog seria infinitamente mais pobre. Todas as fotos de ação foram feitas por ele a não ser que esteja o crédito descrito. Fotos da prancha feitas por mim mesmo.

Já tenho mais um Test Drive encaminhado, mas ainda não recebi a prancha e vou manter o suspense. Acesse minha conta no Instagram (@pfleury) pra ficar informado das novidades!

Até a próxima!

Paulo Fleury

Mike Stewart e sua linha de pranchas

Vamos lá pra mais um post histórico. Como escrevi no post passado quando falei das nadadeiras, vou receber nesse mês uma prancha da marca chilena Erizos para um test-drive, uma gentileza enorme do Walter Andrade da loja Wnine no Rio de Janeiro. Essa prancha ainda não chegou e como estamos em pleno verão (época fraca de ondas), acho que esse review ainda vai demorar um pouco. Mas já agradeço de antemão essa oportunidade,  muita gente sempre me pede dicas na compra de pranchas e essa vou analisar em detalhes!

Mas enquanto isso vamos com um pouco da história das pranchas de bodyboarding. Hoje falarei um pouco sobre como surgiu e quais eram os primeiros modelos da marca exclusiva da lenda havaiana Mike Stewart, criada em 1998 inicialmente sob o nome de “Mike Stewart Bodyboards”. Mike não precisa de introduções, é simplesmente o maior nome da história do esporte e quando lançou sua linha de pranchas o mercado simplesmente veio abaixo. Sempre um estudioso, ele tinha uma série de idéias em mente que só poderiam mesmo ser aplicadas quando tivesse total controle de uma linha de pranchas e sua produção.

Nos anos de 1996 e 1997 Mike Stewart ainda surfava pela Morey Boogie, e contava com dois modelos com sua assinatura: a famosa Turbo III (que depois se tornou apenas “Pro-Comp”) e a Mach 7-7 Mike Stewart (vide foto abaixo). Nessa época a empresa que detinha os direitos da Morey (a Mattel, mesma empresa que fabrica a boneca Barbie até hoje) vendeu a marca para outra empresa de brinquedos, a Wham-O. Nesse momento Mike estava desenvolvendo um terceiro modelo totalmente novo, uma prancha Bat-Tail (mais uma invenção dele e novidade na época) com deck de duas densidades e grip nos cotovelos, que vocês podem ver abaixo.

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Uma LV ainda no plástico. Imagem: Bodyboard Museum

Chamada de Launch Vehicle (veículo de decolagem na tradução pura e simples), a prancha era bem mais grossa que as pranchas comuns e tinha um deck com laterais mais moles pra teoricamente amortecer o impacto das manobras nos cotovelos. Mas com um bloco de PE e duas telas X-Flex me arrisco dizer que essa prancha deveria pesar uma tonelada. Hoje muito raras são disputadas a tapa por colecionadores nos EUA e na Austrália, passando fácil do valor de uma prancha nova.

 

MS Morey Boogie Catalogo 1992_compStewart Readers Poll

Mike em dois momentos: com a mais que famosa Turbo III fabricada pela Morey Boogie em um catálogo de 1992, e já com uma prancha sem logos na transição para sua marca em 1997/98. Fonte: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

Assim que a Morey Boogie foi vendida Mike não entrou em um acordo com a Wham-O em relação às novas bases contratuais. Fora isso ele também achou que a Morey não estava conseguindo fabricar esse modelo novo (Launch Vehicle) com qualidade satisfatória, o que acabava prejudicando as vendas e consequentemente a quantidade de royalties e dinheiro que ele ganhava. Assim, em 1997 Mike processou a Mattel e a Wham-O e acabou criando sua segunda marca (depois da Gyroll), que no começo se chamava simplesmente “Mike Stewart Bodyboards”. Depois que o contrato com a Morey terminou, Mike continuou usando alguns protótipos criados por ele enquanto suas pranchas não eram lançadas no mercado, caso dessa foto do Readers Poll de 1998 que eu coloquei acima. Eram pranchas bem diferentes do que era vendido pela Morey e encontrado nas lojas na época, e elas tinham sempre a rabeta bat-tail inventada por ele. Imagino que já eram protótipos idênticos às pranchas que seriam lançadas.

 

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Um dos primeiros anúncios das pranchas Mike Stewart na Bodyboarding Magazine. Fonte: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

Com o auxílio do shaper Brian Peterson (que depois criou suas próprias marcas Vortex e Division 71), Mike desenvolveu uma linha inicial de três pranchas bat-tail, que seguiam mais ou menos o shape que ele já utilizava na Morey Boogie, e eram fabricadas com total qualidade na Califórnia. Bloco de Polypro (que a Morey só veio usar no ano seguinte), deck Sealed Air/NXL e fundo Surlyn eram encontrados em todos os modelos. O primeiro modelo vendido foi a chamada E0, e era uma réplica da prancha azul claro e sem logos que Mike havia usado durante o inverno de 1997-1998. Com tamanho 42″ e numerada em apenas 1200 unidades, essa prancha se esgotou em pouco tempo nos EUA. Sem canaletas, sem tela e sem stringer, era uma prancha bem solta pra linha super controlada que Mike já fazia com maestria. Outros dois modelos foram lançados, chamados de E1 e E2 (vide fotos). Já incorporavam novidades que seriam seguidas por todas as outras marcas, como os contornos no deck e a super popular rabeta bat-tail lixada para o encaixe do quadril. A E2 ainda tinha algo que não foi nunca repetido até hoje: as bordas eram lixadas num desenho côncavo, como se fossem uma pequena canaleta ao longo da lateral ajudando a prancha a agarrar a parede da onda, e Mike as chamava de “delta rails”.

 

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Dois anúncios das pranchas Mike Stewart nas páginas da Bodyboarding Magazine em 1998, no caso E1 e E2 respectivamente. Fonte: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

No ano de 1999 outros modelos foram sendo adicionados a linha, que obviamente perdeu o modelo E0. A E3 e também a E4 (a primeira com rabeta crescente) aumentaram a linha junto com E5 e E6 (com rabeta em V, outra novidade) no ano seguinte em 2000. Nessa época a concorrência era grande com pranchas de altíssimo nível no mercado, principalmente das BSD vindas do gênio Ben Severson.

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Mike em Teahupoo surfando com uma E2, em um anúncio do modelo E5 no ano 2000. Fonte: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

As pranchas sempre fizeram muito sucesso no mercado mundial e pelo menos pra mim sempre foram referência de qualidade absoluta, até a chegada de Mez e sua fábrica na Indonésia. Mike acabou transferindo a produção pra lá em meados dos anos 2000, o que segue até hoje inclusive utilizando-se das mesmas tecnologias oferecidas (como o ISS). E rebatizou também a marca definitivamente como “Science Bodyboards”, permanecendo até hoje como um dos principais nomes ao redor do mundo.

ms1 copy_blogAnúncio de lançamento da E0. Fonte: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

Mais pra frente vou fazer um post similar sobre a BSD, com imagens dos diversos modelos, suas icônicas bordas “transitional” e diferentes tipos de rabeta, com uma versão reta inclusive. Bons tempos esses onde a variedade de shapes, materiais, tecnologias e rabetas cresceu bastante.

Até a próxima!

Paulo Fleury

Novos materiais e blocos lançados em 2015

No último post comentei que nesse mês de julho eu escreveria sobre as novas pranchas com o sistema de stringers intercambiáveis. Esse sistema foi criado pela marca australiana Rheopaipo (mas não foi colocado no mercado) a alguns anos e lançado em 2015 com o nome de “ISS” por algumas das principais marcas mundiais.

A Broady Indonesia Global, fábrica localizada na Indonésia e que tem Nick Mesritz como cabeça pensante, tem monopolizado as principais novidades e lançamentos de materiais para a construção das tradicionais pranchas de bodyboard. Digo “tradicionais” porque nossas pranchas são fabricadas da mesma maneira a mais de 30 anos, com versões diferentes e aperfeiçoadas dos mesmos materiais praticamente. Não que isso seja ruim, mas o mercado acaba se desenvolvendo num ritmo lento e dependendo bastante da boa vontade das indústrias de matéria-prima para lançar algo diferente.

Depois da centralização de quase toda a produção mundial de pranchas nas duas fábricas na Ásia (Broady na Indonésia e Agit em Taiwan), foi possível perceber uma maior rapidez no desenvolvimento e tentativas de novos materiais e “sanduíches”. Inclusive a variedade de diferentes cores nos materiais aumentou. Isso é possível por um motivo simples: Quando se tem uma fábrica que cuida da produção de mais de 10 marcas diferentes, você consegue uma negociação diferente na hora de comprar matéria-prima. Você não está comprando 1000 “kits”para a produção de pranchas de uma só marca. Você está negociando (hipoteticamente) 10.000 blocos, 10.000 folhas de PE para os decks, 10.000 folhas de Surlyn para o fundo, e por aí vai. Esse maior poder na hora da compra do material acaba possibilitando a criação de novos blocos com diferentes densidades (como NRG, Loaded, D12 e etc), novos sanduíches de bloco (QuadCore, Tension Tech e Skintec) e também uma possibilidade maior na variedade de cores, como vimos nos últimos anos na grande quantidade de cores disponíveis nos fundos de Surlyn. Até a década de 90 o fundo das pranchas era quase sempre na cor branca, com raras exceções. Hoje temos mais de 10 diferentes cores.

E desde 2009 a marca australiana Rheopaipo (que teve como atletas grandes nomes como Ben Holland e Damian King) ensaiava o lançamento dessa tecnologia de troca de stringers para as diferentes condições de onda e também temperatura da água. Mas por algum motivo, essas pranchas da Rheopaipo nunca chegaram ao mercado realmente.

Movement_ISSPLUG_11V15OL.aiPublicidade da Rheopaipo no primeiro “lançamento” do sistema ISS. Imagem: Rheopaipo.com.au

Mas a partir de 2013 começamos a ver os atletas das marcas comandadas por Nick Mesritz (como Dave Winchester e Ryan Hardy na época) utilizando exatamente a mesma tecnologia em alguns vídeos e campeonatos, o que acabou despertando a dúvida de se essas pranchas ISS seriam realmente colocadas no mercado. Como Mez e toda a sua estrutura na Indonésia não dá ponto sem nó, em maio desse ano as pranchas começaram a chegar nas lojas, inicialmente na Inglaterra e Estados Unidos.

Esse sistema tem uma série de vantagens. Quem ainda pegou a fase das pranchas sem stringer sabe como o stringer acabou aumentando a durabilidade das pranchas, mas ao mesmo tempo limitou a resposta do bloco nas cavadas. Uma prancha sem stringer tinha uma projeção inigualável, mas na mão de certos atletas durava poucos meses.

NMD-ISS-interchangeable-stringer-bodyboards_1E a versão já finalizada e colocada no mercado pela fábrica Broady Global. Imagem: Bodyboardking.com

Mas com a possibilidade de se colocar um stringer mais mole ou mais rígido acabamos com esse dilema de projeção/durabilidade. Você pode ir testando diferentes usos em diferentes condições de onda (mar pequeno, mar grande, onda mais cheia, onda buraco). Acredito que podemos também utilizar a prancha sem stringer, apesar de ainda não recomendado nem disponibilizado pelo fabricante. E aquela prancha que já está bem dobrada e “mastigada”, pode ganhar vida nova com um stringer mais rígido.

Na etapa do mundial em Itacoatiara já vimos grandes nomes do circuito usando essas pranchas, casos de Amaury Lavernhe e Jared Houston.

11209461_393378997514153_4309989252981571846_nO atual campeão mundial Amaury Lavernhe com uma prancha da marca Sniper e o sistema ISS. Imagem: APB Tour – Itacoatiara Pro

Outra possibilidade é de se usar a mesma prancha em lugares com diferentes temperaturas da água. Geralmente em ondas com água mais gelada (como Chile ou Austrália) usa-se um bloco com material mais mole, como NRG e PE, ou uma prancha mais fina, que teoricamente duraria menos tempo. Com o sistema ISS coloca-se um stringer mais mole naquela prancha de PP e pronto. Pode-se assim levar apenas duas pranchas em uma viagem, com shapes diferentes (de repente uma com rabeta bat-tail e outra com rabeta crescente por exemplo), e ter 8 opções diferentes com apenas 2 pranchas e 4 stringers.

175209_706585072698560_927985060_oConfiar e saber exatamente que equipamento usar é fundamental em momentos como esse. Gustavo Martins negociando uma despencada no litoral de São Paulo. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

Por enquanto a maioria das marcas fabricadas na Indonésia tem lançado sua linha 2015/2016 com o sistema ISS, por uma pequena diferença de preço em cima das pranchas “normais”. Cada stringer extra custa entre 70 e 80 dólares, mas dadas as vantagens já descritas aqui acho que acaba valendo muito a pena. Marcas como NMD, VS, Science, Sniper e Pride já tem pranchas disponíveis nas lojas lá fora, enquanto Hubboards e Stealth devem lançar sua linha em breve. A QCD também lançará pranchas ISS apesar de ter suas pranchas fabricadas na fábrica de Taiwan.

Tive a oportunidade de comprar uma prancha dessas no começo de junho, e apesar de ainda não ter tido acesso a outros stringers além do “mid flex” que vem junto com a prancha, a possibilidade de se trocar sua rigidez minutos antes de se entrar na água é fantástica.

Outra novidade lançada recentemente é o bloco chamado QuadCore ou TensionTech. Esse bloco é uma nova versão de um sanduíche longitudinal de bloco com diferentes densidades, como foi o finado bloco 3D lançado em 2009. É uma colagem de duas ou três camadas de bloco (com a camada de cima sendo mais mole) e mais duas telas pra garantir durabilidade. No caso da versão usada pela marca Hubboard, são 4 peças, por isso o nome QuadCore. Já no TensionTech (usado pelas marcas NMD, VS e Stealth) são 3 peças de espuma e mais duas telas.

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Corte do bloco QuadCore onde vemos suas camadas, e o vídeo de lançamento com Jeff Hubbard humilhando os meros mortais. Imagem: hubboards.com

Essa porção mais mole do bloco por baixo do deck garante uma maior projeção, já que toda essa parte de cima da prancha se comporta como algo já amaciado. Não existe aquela sensação de prancha dura típica de todas as pranchas novas. Na volta das manobras esse pedaço mais mole também te ajuda a não perder parte das costelas naquele backflip estratosférico. 🙂

tension_tech_1_Corte do bloco Tension Tech mostrando suas camadas de bloco e tela. Imagem: Bodyboardking.com

A fábrica localizada em Taiwan também lançou um bloco utilizando-se do mesmo princípio do TensionTech, e já o disponibiliza nas suas pranchas a algum tempo, inclusive na linha GTBoards do hexa campeão Guilherme Tâmega. O chamado Skintec também usa “fatias”de densidades diferentes, garantindo mais conforto e projeção nas cavadas.

Todas essas novas tecnologias tem servido não só pra te dar uma maior performance dentro d’água, mas também para garantir uma maior durabilidade das pranchas. Lembrando sempre que esse assunto “durabilidade” é muito delicado, sempre friso aqui que prancha de bodyboard não foi feita pra durar. A flexibilidade é o nosso diferencial comparando-se todos os outros esportes onde pranchas são usadas. Senão seria muito simples, coloca-se meia dúzia de stringers em um bloco super rígido e a prancha será eterna. Mas não irá fazer nenhuma cavada nem conseguirá completar aquele drop despencando lá de cima. A busca pela combinação perfeita de projeção, dureza e durabilidade é realmente longa, e testar o máximo de combinações possíveis pode te levar a achar a prancha perfeita.

Até a próxima, nos vemos na água!

Paulo Fleury

Shape e “outline” de uma prancha: o que muda e como tirar proveito disso.

Bom, voltando finalmente depois de alguns (vários) meses sem escrever aqui, com muita gente me perguntando onde estavam as atualizações do blog. Esse ano terminei minha pós-graduação então agora o tempo livre vai ser pra surfar ainda mais e escrever sempre que possível. Já tenho mais dois textos prontos e vou soltando ao longo dos próximos meses.

No último ano não tivemos nenhuma novidade relevante em relação a materiais (tirando o grande lançamento agora em Maio de 2015 das pranchas com stringers cambiáveis, que vou fazer um review aqui logo mais), então hoje vou falar um pouco do desenho básico de uma prancha de bodyboard. Antigamente (como já abordado aqui) não existiam opções de tamanho, bloco e etc no mercado como existe hoje. Nem de cores. Todas as pranchas eram vendidas nas medidas 42 ou 43, sempre com os mesmos “color combos”, e ver gente surfando com verdadeiras “balsas” era muito comum.

A partir de meados da década de 90, com o lançamento da Morey Boogie Mach 7-40 assinada por Mike Stewart e também de versões menores da BZ Ben Severson, as marcas perceberam que havia sim uma demanda para as pranchas menores. Seja para as mulheres, que ainda eram obrigadas a surfar com pranchas enormes, ou pra aquele bodyboarder que já conseguia perceber que em certas condições uma prancha menor e mais rápida fazia toda a diferença.

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 Publicidade muito bem humorada (e executada) da Morey Boogie em 1995 anunciando os dois modelos de Mach 7-7 assinados por Mike Stewart. Fonte: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

  Mas sempre houve uma variedade grande de shapes e desenhos, e o que chamava mais a atenção sempre era uma grande diferença principalmente na altura do chamado “wide point”, que é a parte mais larga e que vai definir o desenho geral da prancha. Hoje em dia a maioria das pranchas tem o WP na altura dos cotovelos, garantindo assim a rápida troca de borda e velocidade na cavada. Mas antigamente não era assim, um exemplo disso é a BZ Ben T-10 que tinha o WP bem perto do bico, quase na linha do punho. Isso garantia uma velocidade enorme na linha do tubo, mas não era uma prancha muito boa em curvas e trocas de borda.

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Diferentes versões da BZ Ben T-10 no começo dos anos 90. Destaque para a “Ben Ts”, prancha bem pequena perto de um mundo de pranchas 42 e 43. Fonte: bodyboardmuseum.com

As pranchas da Morey Boogie seguiam obviamente a linha da Mach 7-7, que é ainda a mais usada até hoje, de bordas razoavelmente paralelas mas com um WP mais para o meio da prancha e uma curva mais suave. Exemplos clássicos desse outline (linha externa) hoje em dia são as pranchas do campeão mundial Ben Player (talvez a linha mais suave e “quadrada” no mercado) e também algumas outras, em sua maioria modelos das marcas australianas. O mercado australiano acabou dominado por um desenho mais suave e quadrado, sempre com bordas muito paralelas e rabeta crescente, que funciona bem demais em ondas rápidas e propícias para o nosso esporte. Hoje não existe mais nenhum “pro-model” australiano com rabeta bat-tail, simplesmente por questões de um mercado que não absorve mais essa combinação.

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Exemplos clássicos da “escola” australiana de proporções e medidas. Da esq. para a direita: NMD Finlay, Versus Jake Stone e Funkshen Ryan Hardy. Fonte: Bodyboardking.com

Mas aí você me pergunta: Como escolher uma prancha analisando o outline/shape? Eu imagino que iniciantes devem acima de tudo escolher uma prancha mais larga, e conforme seu nível e apetite por ondas grandes e mais cavadas for aumentando, diminuimos a largura e o tamanho geral da prancha. Acredito que a largura e o desenho final sejam mais importantes muitas vezes que a precisão com que se escolhe e se comenta tamanho hoje em dia. Sempre dá pra subir ou descer 1/2 polegada no tamanho, mas o outline define incrivelmente como a prancha vai funcionar. Bodyboarders com um pouco mais de peso por exemplo sempre terão vantagem com uma prancha maior e mais larga, assim como os mais altos devem ir atrás de pranchas maiores no tamanho mas sempre com um desenho mais suave e estreito. E tem também quem goste de mais borda, mesmo em ondas grandes. Mas eu sempre dou a dica pra testar o maior número de opções possível, as vezes você pode estar surfando com a prancha errada e nem sabe.

Hoje inclusive vemos a maioria dos bodyboarders de alto nível surfando com pranchas bem menores e extremamente “quadradas”, indo atrás sempre dessa velocidade e rapidez que essa “massa” menor pode dar em uma situação específica. Caso clássico do bodyboarder paulista Renan Faccini e suas pranchas tamanho 40,5. Perguntei pra ele o porque de usar pranchas tão pequenas e ele me respondeu: “Eu sempre gostei de pegar onda com pranchas menores pelo fato de ter uma cavada e resposta mais rápidas do que uma prancha tamanho padrão. Agora existe sim uma dificuldade maior em completar manobras como backflips, mas ao mesmo tempo todas as manobras que são completadas saem mais limpas, porque você só vai conseguir executar com o corpo totalmente colado na prancha. Eu sempre gostei de bater manobras o mais colado possível e para mim a prancha menor tem funcionado muito bem.” Percebemos na resposta do Renan como o tamanho da prancha vai influenciar demais seu estilo e linha de onda. Com aquela prancha menor não adianta querer mandar um backflip onde a onda não tem força.

renan respect Renan usando toda a vantagem de uma prancha mais estreita, com detalhe pro seu Pro Model da marca portuguesa Respect. Fonte: Passing Through/renanfaccini.com

Mas apesar de todo esse apelo atual das pranchas com o desenho mais estreito e rabeta crescente, ainda existem algumas opções mais largas e que remetem a desenhos mais antigos, caso por exemplo das pranchas do hexacampeão mundial Guilherme Tâmega e também da marca brasileira B2BR. No mercado internacional a BZ também ainda disponibiliza modelos um pouco mais largos, assim como as pranchas do havaiano Jeff Hubbard e sua marca Hubboard. Jeff inclusive sempre usou pranchas largas e meio grandes demais pro padrão, mas que funcionam demais pra ele. Como eu disse tudo é uma questão de adaptação e de se descobrir o que funciona melhor pra você.

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Exemplos de pranchas mais largas disponíveis hoje no mercado. Da esq. para a direita: GTBoards Mega-T, B2BR Rebel Pro, BZ Fundamental e Hubboards Hubb Edition. Fonte: Ebodyboarding.com / B2BR.com.br

E como o desenho da prancha vai te ajudar, te atrapalhar ou influenciar o jeito como você surfa? Isso na teoria é bem simples: Com pranchas mais largas, o bodyboarder vai ter mais facilidade em ondas mais fracas ou em momentos em que a onda não tem tanta força, mas em contrapartida em dias maiores a prancha não vai ter toda essa velocidade nas trocas de direção. Já que existe mais “massa” e mais borda, todos os movimentos acabam sendo mais lentos, principalmente nas cavadas e nas trocas de borda. Já com uma prancha mais estreita e com um desenho suave do bico até a rabeta, tudo é mais rápido quando a onda tem força, mas quando se perde pressão a prancha exige de você uma linha de onda mais clássica pra não ficar pra trás. E isso vai definitivamente definir como você surfa, que linha você acaba “desenhando” nas ondas, e de que jeito suas manobras serão executadas e finalizadas. Com uma prancha mais estreita um ARS naquele mar de 0,5 metro vai ser mais arrastado, ou muitas vezes nem completado. Mas naquela bomba de 1,5 metro a cavada mais rápida vai te mandar pro espaço, com certeza.

A partir daí tudo é uma questão de escolha e adaptação. Uma pessoa que entende demais de design de pranchas é meu amigo Christian Brito (que já deu sua opinião aqui no blog sobre as pranchas Parabolic), e a gente sempre conversa demais sobre shape, materiais e lançamentos do mercado mundial. Perguntei pra ele como o desenho de uma prancha pode influenciar o jeito que alguém surfa, e ele me disse que “hoje em dia as pranchas mais estreitas e com pouca curva em seu outline permitem readaptar a maneira de se surfar para algo mais limpo, procurando fazer o que a onda realmente pede e mais importante, o que a onda permite. Essa nova tendência de designs mais limpos e suaves te ajuda a surfar de um jeito mais racional, dando mais tempo para ler a onda, permitindo mais resposta, controle, fluidez, velocidade e bottom turns mais seguros e projetados. Resumindo, os desenhos mais estreitos e de pouca curva permitem manobras mais limpas em ondas fortes, drops mais verticais e muito mais controle dentro do tubo, sem aquela sensação de se estar “dirigindo um ônibus” quando você precisa apenas de pequenas correções e de muita velocidade”.

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Christian usando toda a velocidade de uma prancha estreita pra passar essa bela sessão em Padang Padang. Imagem: Arquivo Pessoal Christian Brito

O segredo é identificar que tipo de onda você surfa normalmente, e as vezes quem sabe ter duas pranchas com características distintas e que se adaptem a diferentes condições, tirando proveito total do seu equipamento. As possibilidades são enormes e achar aquela prancha mágica que funcione bem em qualquer condição é uma proeza e tanto!

Eu tenho usado já a alguns anos as pranchas do campeão mundial Ben Player. Para mim até hoje foi o desenho que se adaptou melhor a diversos tipos de onda e diferentes condições. Vendo alguns vídeos pela internet percebe-se como ele tira proveito de um pouco mais de borda em alguns momentos, mas consegue surfar com maestria ondas extremas como Pipeline, Teahupoo e outras. As pranchas Science da lenda havaiana Mike Stewart também acabam indo pra esse lado com um desenho mais all around, bom exemplo disso é o modelo Pocket LTD que tem praticamente o mesmo desenho das NMD Ben Player. Pranchas como as da marca australiana Found e também as pranchas Pride já tem características menos versáteis e acabam funcionando melhor e quase que exclusivamente em ondas com muita força, graças ao bloco mais fino e desenho muito pequeno e estreito.

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Exemplo de dois shapes estreitos mas ao mesmo tempo versáteis: NMD Ben Player e Science Pocket LTD.

Fonte: nmdboardco.com/ebodyboarding.com 

Agora cabe a você ir atrás e tentar identificar a que desenho/shape você se adapta melhor. Sempre que possível tente surfar ou pelo menos ficar em cima de uma prancha diferente dentro d’água. Assim você vai identificando como funciona a “pegada” de modelos diferentes e o quanto ele flutua com você por cima. Peça sempre e encha o saco daquele amigo ou conhecido que apareceu na praia com um modelo novo. O conhecimento pra tudo nessa vida a gente ganha com diferentes situações e repertórios.

É isso, o próximo post será sobre o sistema ISS de diferentes stringers, grande novidade lançada mês passado.

Até a próxima, te vejo na água!

Paulo Fleury

Novos materiais: desvendando algumas opções do mercado atual

Hoje vou falar detalhadamente de alguns materiais e diferentes versões e combinações disponíveis no mercado. Talvez esse post fique um pouco longo, mas o assunto rende sempre bastante discussão pra quem se interessa e gosta.

Nos últimos anos muito tem se falado dos materiais disponíveis nas mais de 10 marcas de ponta existentes hoje no mercado internacional. Bem diferente de antigamente, quando não haviam opções nem de tamanho (praticamente todas as pranchas eram 43″), e muito menos de bloco, hoje em dia algumas marcas oferecem 4 combinações diferentes de bloco e stringer para cada modelo, como eu já escrevi no post inaugural do blog. O mercado australiano domina o lançamento de novas tecnologias (por razões óbvias) e nos últimos anos vimos a chegada de pelo menos dois novos blocos, lançados pela principal fábrica de pranchas de bodyboard, localizada na Indonésia.

O Bodyboarding foi, desde o começo, dominado pelo Polietileno (também chamado de PE ou Dow), um material já largamente utilizado para produzir embalagens de plástico. O bloco, deck e bordas eram sempre feitos desse material em diferentes densidades. Isso durou praticamente 20 anos, e apesar do surgimento do Arcel no final dos anos 80, o PE reinou absoluto até meados da década de 90, quando apareceu o Polipropileno (PP). O PP é uma espuma mais leve, mais resistente e mais moderna, e só não enterrou de vez o PE depois do seu uso na fabricação de pranchas por ser muito rígido em locais com água mais gelada, como Portugal, Austrália e costa oeste dos EUA. No Brasil depois do fim da Morey Boogie nacional, não houve muita mudança e o cenário infelizmente é praticamente o mesmo desde então, com um pequeno mercado sem inovação a anos (como já comentado aqui também).

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Até meados dos anos 90 quase não existiam opções de bloco e tamanho. Aqui um anúncio da Morey Boogie em 1994, com modelos feitos inteiramente em PE, e Mike Stewart humilhando os simples mortais. Imagem: arquivo pessoal

  Com a diminuição do uso do PE em blocos a partir de 2009 (junto com uma lenda talvez infundada de que a Dow Chemical não fabrique mais blocos de PE), os bodyboarders que surfam em água gelada ou que gostam de um bloco mais flexível se viram com um problema. De início a indústria criou alternativas fundindo os dois materiais (como o bloco “3D” utilizado pela VS/NMD e também pela Pride por volta de 2010 e ainda vendido na Europa), e depois foram sendo desenvolvidos blocos de PP com diferentes densidades, com cada marca os chamando por um nome diferente. Hoje todas as marcas tem essa opção, casos do NRG (VS./NMD/Stealth/Pride), Loaded (Science), EFC (Nomad/Funkshen/QCD) e Paradox Cell (Found). Cada marca utiliza uma densidade diferente, sendo as mais comuns 1.4 e 1.6 libras, sempre combinadas com tela e stringer pra garantir sua resistência. Em Portugal a Refresh vem experimentando diferentes combinações também em suas pranchas sob medida, mas hoje falaremos apenas do que está disponível em lojas ao redor do mundo.

Graças a essas novas densidades, que deixaram o bloco de PP mais leve e mais flexível, novas combinações e “sanduíches” de material foram criados. A NMD colocou duas telas junto com 3 stringers nos blocos NRG, com uma versão também de stringer simples e uma espécie de pilar estrutural embaixo do deck. Outras marcas colocaram stringers “flat” moldados diretamente dentro do bloco. Essa combinação parece perfeita pra água fria, já que utiliza a flexibilidade de um bloco de baixa densidade com a estrutura das telas no fundo e no deck ou stringers específicos.

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O bloco Parabolic em detalhes no seu lançamento em 2011, junto de Nick Mezritz. Imagem: bodyboardingbrasil.com.br

  Mas a opção que mais chamou a atenção nos últimos anos foi criada pela mente do mais famoso shaper e desenvolvida junto com um dos atletas de ponta da atualidade. Nick Mezritz desenvolveu com Dave Winchester ao longo de 2009 e começo de 2010 o que hoje chamamos de bloco Parabolic ou PFS, e chamado por eles na época também de “carpete mágico”. É uma combinação de PP “comum” (1.9lb) no meio da prancha, e PP de baixa densidade (1.6lb) ao longo das bordas. Tudo isso colado por “vigas” estruturais (que são visíveis no deck e no fundo) com uma tela junto do Surlyn. Apesar de toda essa complexidade, a prancha tem o mesmo peso de uma prancha feita inteiramente de PP 1.9lb, mas com uma resposta totalmente diferente. Com uma NMD Parabolic, Dave Winchester dominou o Arica Chilean Challenge de 2010, e a NMD continua até hoje como a principal marca de pranchas de bodyboarding do mundo. Todos os modelos e mais informações das pranchas podem ser encontrados no site da NMD.

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Dave Winchester no Arica Chilean Challenge de 2010 com uma das primeiras pranchas PFS. Imagem: fluidzone.com

Eu particularmente só consegui comprar e testar uma prancha com esse novo bloco no final do ano passado, e surfei poucas vezes com ela. Alguns dias pequenos no Guarujá ainda não me deram uma noção completa do que esse bloco é capaz. Por isso convidei uma pessoa que tem experiência com esse bloco desde 2011, pra colocar alguns detalhes e impressões aqui e desvendar ainda mais esse assunto tão interessante pra uns, e deixado de lado muitas vezes pela maioria.

Conheço o Christian Brito de vários dias em Paúba, ele surfa lá desde 1988 e sempre que o mar sobe de verdade é figurinha carimbada, tem bastante experiência em diferentes equipamentos e viagens, ou seja, tem tudo a ver com o blog e principalmente com esse assunto:

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Christian em uma bela esquerda na Indonésia. Imagem: arquivo pessoal

“Meu primeiro bodyboard foi em 1986, uma aussie laranja e branca da Morey Boogie. De lá pra cá não parei, são quase 30 anos de esporte nos meus 40 anos de idade. Já viajei bastante ao redor do mundo e visitei diversas vezes lugares como Indonésia, América Central, África, Fiji e Noronha, sempre em busca de ondas boas e tubos.

No final de 2011 consegui uma Parabolic para usar em mais uma trip pra Noronha, e o resultado não poderia ter sido melhor. Posso dizer que a mistura de onda boa com o bloco PFS é, na minha opinião, imbatível. Fiquei simplesmente abismado com a velocidade da prancha, a projeção, a forma como ela flui na parede em ondas tubulares e permite um controle muito maior que as pranchas de PP simples. Acho que as Parabolics não se comparam com nenhuma outra prancha em termos de velocidade e projeção.

Minha humilde conclusão, portanto, é que as Parabolics projetam incrivelmente mais que os blocos normais de PP que usei até hoje, chegando até a dar a impressão que tem alguém dando um “empurrãozinho”. Mas acho que ela demanda uma linha de surf um pouco diferente pra dar este resultado. É uma prancha excelente pra se fazer um surf mais de borda, mais fluído, pois a maior flexibilidade dela está exatamente nas bordas. Talvez seja até um pouco mais dura no geral, mas quando se acerta a linha e se começa a utilizar as bordas ela simplesmente dá uma velocidade incomparável, dando ainda um controle semelhante aos blocos mais flexíveis, seja pra tubos ou manobras. Eu já tive algumas Parabolics desde 2011 até hoje, e dentre todas pranchas que tive a oportunidade de usar – não foram poucas – considero a melhor prancha disponível no mercado.”  Christian Brito

Jason Finlay mostrando do que o bloco PFS é capaz. Vídeo: IBA/YouTube

  Ou seja, fica nítido lendo o texto acima que o PFS é um bloco pra ser usado em ondas realmente boas pra Bodyboarding, e pela flexibilidade extra que ele fornece, pode ser usado em ondas com água gelada, como vimos Dave Winchester em Arica e Jason Finlay nas Ilhas Canárias. E por ser muito rápido, vai acabar funcionando naquele mar de ondas um pouco mais cheias, mas sempre levando-se em conta a linha de onda e troca de bordas.

Nick Mezritz explica pessoalmente de onde veio a idéia para criação do PFS, em vídeo disponibilizado pela loja B2BR

Com a centralização da produção mundial de pranchas em apenas duas fábricas na Ásia, nos próximos anos talvez vejamos novos materiais e novas combinações de bloco, telas e stringers. A indústria hoje (limitada a praticamente duas grandes fábricas) acaba comprando lotes únicos de material muito maiores que antigamente, e os fornecedores de matéria-prima tem olhado o mercado de uma forma diferente e se interessado em desenvolver novidades. Vide os blocos EFC moldados com stringers flat, e os stringers interligados feitos da mesma forma nas pranchas Found de Mitch Rawlins e sua turma.

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Bloco EFC Red encontrado nas pranchas Nomad, Funkshen e QCD, com seus dois stringers “flat”. Imagem: nomad.com.au

  Voltaremos a falar desse assunto, eu particularmente acredito que o material influi diretamente na performance e no estilo e linha de onda dentro d’água, e sempre me interessei demais por tudo isso. Espero que esse texto possa ir mudando um pouco o interesse das pessoas aqui no Brasil quanto a isso. Já que as pranchas importadas dominam completamente o mercado, é melhor saber exatamente o que se está comprando!

Até a próxima, te vejo dentro d’água!

Paulo Fleury

Pranchas que marcaram época: Mike Stewart Turbo III

Como o último post fez muito sucesso, vou seguir com a seção das pranchas clássicas.

Hoje falaremos da grande rival da Ben T-10: a “Morey Boogie MS Turbo III”, pro-model endossado por muitos anos pela lenda viva do esporte, Mike Stewart.

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A Morey Boogie Mike Stewart Turbo III na edição da Bodyboarding Magazine em 1992. Detalhe para as medidas enormes para os dias de hoje. Imagem: arquivo pessoal

  A Turbo III inicialmente foi lançada como um modelo da marca havaiana Turbo e chamava-se Pro/Comp, e depois de alguns anos acabou licenciada como modelo da Morey Boogie já com seu nome definitivo. Ela não tinha nada de muito diferente em relação a materiais ou algo que pudesse diferenciá-la na sua performance dentro d’água, como a BZ T-10 e toda a sua construção não convencional. Sua base consistia na já conhecida e consagrada combinação de materiais da Mach 7-7, e seu grande trunfo era simplesmente a assinatura que vinha gravada no deck, do já imbatível e várias vezes campeão mundial havaiano.

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Anúncio da Turbo em 1991, mostrando Mike e a Pro/Comp. Imagem: arquivo pessoal

  A Turbo III era uma prancha com bloco simples de polietileno, o já muito popular “PE”, e tinha deck, bordas e fundo dos mesmos materiais que são comuns até hoje, como o “sealed air” no deck, também chamado “NXL PE” e o fundo feito de um plástico usado como revestimento de bolas de golf, o já conhecido Surlyn.

A prancha na época do seu lançamento era o único “pro-model” da Turbo/Morey Boogie, que apesar de ter um grande time não fornecia esse privilégio para ninguém além de Mike Stewart. Depois de alguns anos como prancha principal da Morey Boogie, o que diferenciava a Turbo III dos outros modelo eram as duas camadas de tela X-Flex, um sistema de tela treliçada colado junto ao fundo e por baixo do deck. Essa tela funcionava como um tensionador que dava mais resistência à prancha quando esta era dobrada e exigida numa cavada por exemplo. Nessa época os stringers ainda não eram comuns, então toda forma de se adicionar resistência aos blocos de PE era válida. Apesar dessa vantagem as telas acabavam deixando as pranchas de PE ainda mais pesadas, já que esses blocos não eram leves e absorviam água.

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Mike Stewart e a Turbo III em um dos primeiros anúncios do leash Gyroll, em 1994. Imagem: arquivo pessoal

  As telas são comuns até hoje, e por muito tempo foram usadas somente pela Morey Boogie, que tinha o registro da patente nos EUA. Imagino que essa patente venceu, já que a alguns anos marcas como Versus, NMD e Pride vendem modelos com tela no mercado americano. Vale salientar a visão e tecnologia um tanto adiantadas do pessoal da Morey Boogie, que já nos anos 80 e 90 utilizava e desenvolvia suas pranchas com praticamente os mesmos materiais usados hoje. Apenas os blocos que sofreram grande atualização com o desenvolvimento do polipropileno (PP) e todas as suas vertentes, mas todo o revestimento é o mesmo até hoje com base no PE de baixa densidade.

MS Morey ad 1994Anúncio da Morey Boogie em 1994. Imagem: arquivo pessoal

  Mike Stewart conquistou com sua Turbo III a maioria dos títulos no final dos anos 80 e durante quase toda a década de 90, mais precisamente até 1998, ano da criação de sua marca Science e desenvolvimento de suas próprias pranchas. Um detalhe que chamava muito a atenção era uma peça na cor vermelha separada no bico da prancha, com a inscrição “Turbo” e as cores em todo o resto eram muito bem acertadas do ponto de vista estético, com o deck azul, “pinline” amarelo, bordas vermelhas e fundo branco. Como eu falei no primeiro post do blog sobre o mercado dando alguns exemplos, a Turbo III era um exemplo de identidade, já que não era preciso olhar com muito detalhe e atenção para se saber que prancha era aquela de deck azul e bico de outra cor, estava na cara que era uma Turbo III. Mike acabava se destacando de todo mundo até mesmo no campeonato de Pipeline, onde todos acabavam usando a Mach 7-7 por conta da regra de restrição de pranchas imposta pela Morey Boogie.

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Catálogo da Morey Boogie encartado na Bodyboarding Magazine em 1992. Imagem: arquivo pessoal

  Hoje em dia uma Turbo III em bom estado vale mais que uma prancha atual nova, dado o seu valor histórico. Já vi exemplares usados no Ebay sendo vendidos a muito mais de 200 dólares, e existe uma história de que Mitch Rawlins comprou uma Turbo III diretamente com Mike Stewart (seu patrocinador no passado inclusive), para guardar de lembrança. Por aí dá pra se ter uma idéia do que essa prancha representa na curta história de nosso esporte. Houve também pranchas inspiradas na Turbo III, como um modelo da Morey para Chris Won Taloa em 2004 e mais recentemente a já finada Turbo australiana relançou o modelo como “Turbo IV”, com materiais e shape atuais. No final do ano passado o próprio Mike Stewart lançou um modelo com as mesmas cores, chamado Style, inclusive com sua assinatura em amarelo no deck (vide imagem abaixo). Resumindo, é uma prancha que até hoje desperta o interesse dos bodyboarders ao redor do mundo.

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Modelo Style da linha 2014 da Science: um tributo a Turbo III. Imagem: bodyboardking.com

Semana que vem tem mais, falaremos das marcas de surfwear e sua relação com o nosso esporte. Até lá!

Paulo Fleury

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Pranchas que marcaram época: BZ Ben T-10

Bom, em mais uma seção diferente do blog, vou falar de algumas pranchas que marcaram época por algum motivo específico, seja por seu material, pelo momento do mercado na época de seu lançamento ou por ser o “pro-model” de algum ícone do esporte.

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Ben Severson em uma incrível foto surfando com sua Ben T-10. Imagem: bodyboardmuseum.com

Hoje vamos falar da BZ Ben Board/BZ Ben T-10, uma prancha que foi um marco no final dos anos 80 e começo dos anos 90, por uma combinação de diferentes motivos. O primeiro deles por ser, acredito eu, a primeira prancha vinda de uma série de modelos custom desenvolvidos até se chegar no produto final para o público. Ben Severson trabalhou com Greg Szabad (shaper e dono da BZ na época) na criação do modelo, que foi colocado no mercado inicialmente como se fosse uma edição limitada. As primeiras 999 pranchas colocadas à venda foram numeradas (vide a foto acima) e chegaram a ser vendidas a 305 dólares, um preço alto até para o mercado atual. No Brasil me lembro que alguns atletas com patrocínio da BZ brasileira chegaram a usar essa prancha, que tinha o deck na cor azul com as chamativas bordas diamond na cor rosa, com o fundo degradê colorido.

Mas aí você “caiu de pára-quedas” no meu blog (ou é da novíssima geração) e me pergunta: mas quem “raios” é Ben Severson? 🙂

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Ben em um anúncio da BZ americana, com todas as versões do seu modelo, por volta de 1992. Imagem: bodyboardmuseum.com

  Ben Severson foi simplesmente durante quase duas décadas o único bodyboarder capaz de parar (e por mais de uma vez) Mike Stewart em competições e também no free surf, e quase todo exemplar das revistas da época tinha uma página dupla com uma propaganda da BZ mostrando ele e sua Ben Board ou T-10 nas ondas havaianas. A BZ era nessa época a única marca que conseguia se colocar no mesmo nível de popularidade da Morey Boogie, e Ben Severson e seu pro-model eram sua principal arma. Ficou notória uma passagem no ano de 1991, onde das 11 etapas do circuito americano (muito forte na época graças ao patrocínio da cerveja Budweiser) Ben Severson ganhou 5 etapas e Mike Stewart ganhou 6, levando o título naquele ano. Por aí percebe-se a importância e atenção que esse modelo trazia.

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Ben Severson em um invertido absurdo com o seu modelo e pés-de-pato Redley, em Off-The-Wall. Imagem: bodyboardmuseum.com

  O segundo motivo de sucesso dessa prancha foi a inovadora combinação de materiais, utilizando um bloco de Arcel, que era novidade numa época em que o PE simplesmente dominava o mercado de pranchas de bodyboard (graças a popularidade da Mach 7-7). O Arcel era um bloco mais leve que o PE, mais rígido, e talvez semelhante em dureza ao PP dos dias atuais, mas que não se adaptava muito bem a água gelada (ficava duro demais), encharcava um pouco e caso dobrasse ou estriasse, acabava por condenar a prancha, vincando e quebrando o fundo e consequentemente o bloco. Mas para a época sua leveza e resistência eram inovadoras, ainda mais nas águas quentes e nas poderosas ondas havaianas. Mike Stewart (na época patrocinado pela gigante Morey Boogie) e seu pro-model “Turbo III” acabaram perdendo espaço no mercado graças a T-10 e todo o seu sucesso, já que a Morey Boogie acabou desenvolvendo pranchas apenas com bloco de PE até o final dos anos 90. No caso a Morey Boogie optou por colocar telas X-Flex nas pranchas para uma maior resistência, mas o peso do PE somado a duas telas em algumas modelos não tinha como concorrer com a leveza e resistência do Arcel das pranchas BZ. Deve-se lembrar também que nessa época o mercado australiano ainda engatinhava, e o esporte era dominado pelos havaianos e pelas marcas americanas como as duas citadas acima.

  As bordas da T-10 também eram diferentes do que havia disponível e era popular no mercado, eram as chamadas “diamond rails”. Eram tiras de PE de alta densidade, similares ao fundo, coladas em duas peças separadas, formando uma borda 50/50 bem afiada. Nas primeiras Ben Boards a rabeta também era colada dessa forma, mas na T-10 já era uma continuação do deck. Na loja na hora da compra toda a construção da prancha impressionava, mas ao longo do tempo e do seu uso essas tiras da borda acabavam descolando e viravam uma “arma” cortante. Não havia ainda o processo de laminação a quente então isso era bem comum de acontecer. Quem algum dia teve ou já viu uma BZ diamond rail sabe bem do que eu estou falando.

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Detalhes das super afiadas bordas “diamond”. Imagem: bodyboardmuseum.com

  Outro detalhe importante era o seu desenho, também incomum para a época. Era uma prancha feita exclusivamente para velocidade, com um bico bem largo (com mais de 13″ no caso da T-10, algo impensável para os modelos atuais), wide point bem alto, canaletas enormes e bordas praticamente paralelas. Funcionava como um foguete em ondas tubulares, e Ben Severson se beneficiava muito bem desse shape, surfando Pipeline como poucos. Era realmente o único a fazer sombra ao já quase imbatível Mike Stewart, e praticamente não existe um vídeo do final dos anos 80 e começo dos anos 90 que não tenha uma session de Ben Severson em Pipeline, andando dentro de tubos enormes.

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Ben Severson e a T-10 em 3 momentos: Em publicidades da BZ no começo dos anos 90, e na capa da Bodyboarding Magazine.  Imagens: bodyboardmuseum.com

  As pranchas BZ Ben e BZ Ben T-10 acabaram se tornando referência no mercado por essa combinação de fatores: por lançar no mercado a idéia do “pro-model”, por seus materiais e também por seu shape bem diferente, e finalmente por ser o modelo de prancha de Ben Severson, um dos maiores nomes do esporte nos anos 80 e 90 junto com Mike Stewart. As pranchas T-10 foram fabricadas no mesmo molde até 97, quando Ben Severson saiu da BZ e criou sua própria marca chamada BSD, lançando pranchas com novas tecnologias (como bordas arredondadas) e que foram muito bem aceitas pelo mercado durante anos. Mas isso já é assunto para um outro post.

BZ ad bbmag

Anúncio da BZ na Bodyboarding Magazine em 1991, com destaque para a Ben T-10. Imagem: arquivo pessoal

Próxima semana tem mais, até lá!

Paulo Fleury