Science Style e Science Pro LTD: quiver completo com apenas duas pranchas

Bora pra mais um texto por aqui, hoje um breve mini-review de pranchas.

No final de 2018 eu completei 1 ano trabalhando diretamente com a Science Brasil, e resolvi hoje falar um pouco das 2 pranchas que usei praticamente o tempo todo nos últimos 3 ou 4 anos.

Science Style Loaded 42.5″: Shape já conhecido e testado a exaustão pelas mãos de Mike Stewart

A primeira nas fotos é uma Style Loaded 42.5” que eu comprei em 2015, bloco NRG 1.4lb com tela dupla e um volume de borda a mais que faz ela funcionar em qualquer tipo de onda. É a prancha que eu fiz o review aqui no blog e surpreendentemente ela continua firme e forte, sem dobras. Destaque também pros acabamentos perfeitos da fábrica do Mez, que garantem a colagem perfeita das peças extras na rabeta e no bico.

Essa prancha me acompanhou em todas as últimas viagens e também durante todo o Circuito Paulista de 2017, onde a gente sabe bem que as condições de onda nunca são as ideais. Ela funciona de 1 a 10 pés, sem o menor exagero. Se você quer ter uma prancha apenas, eu não canso de sugerir essa compra. Fora aquela certeza de estar usando o equipamento certo, afinal o próprio Mike Stewart usa a Style em toda e qualquer condição. Único defeito talvez seja dela na época ainda não ter as canaletas MS, que tiram um peso da rabeta e ajudam demais nas trocas de borda.

Pro LTD ISS 42.5″: Aquele desenho estreito que vem se tornando popular de uns anos pra cá.

A outra prancha é uma Pro LTD ISS 42.5”, que eu recebi da Science Brasil no final de 2017. É uma prancha super específica, sem tela, super fina e estreita. É o modelo do australiano Tom Rigby, que acabou saindo da Science mas imagino que pela boa aceitação desse tipo de prancha hoje em dia, deixaram essa prancha na linha. Com a vantagem do sistema ISS e das canaletas MS, essa prancha acaba tendo uma versatilidade incrível mesmo com toda a especificidade que eu já falei. Em ondas rápidas ela simplesmente voa, faz aquele drop atrasado/scoop como nenhuma outra, mas em dias menores ela surpreende e também anda.

Apesar da largura e do volume a mais (bordas e bloco mais grosso), a Style Loaded anda demais em qualquer condição. Foto: Rodrigo Nattan

Nos dias menores eu acabo usando um stringer mais duro de carbono, e a prancha anda super bem também. Ponto pro Mike mais uma vez, que consegue fazer uma prancha específica desse jeito andar também razoavelmente em qualquer condição. Como eu falei antes ela conta com as canaletas MS e isso faz toda a diferença, a rabeta não afunda tanto nas partes mais fracas da onda e no fim você consegue surfar mesmo naqueles dias de onda mais cheia ou fraca.


Detalhe das canaletas MS no modelo Pro LTD. 

Hoje em dia fala-se muito em tecnologia, em fundos com concave, rabetas diferentes, blocos híbridos como PFS, QuadCore e etc… Mas nada disso funciona se o desenho e o volume final da prancha não forem desenvolvidos o suficiente. E hoje ninguém sabe mais sobre isso do que Mike Stewart. Todos os shapes são estudados e desenvolvidos há mais de 25, 30 anos. Mike já trabalhava em seus modelos muito antes da Science existir, e isso você percebe por exemplo trocando de uma prancha pra outra sem adaptação ou dificuldade alguma, ou conseguindo surfar em qualquer condição com pranchas bem específicas, como eu falei do modelo Pro acima. Posso dizer que com esses dois modelos você talvez consiga surfar qualquer onda no mundo, de beach breaks sem muita força, reef breaks na Indonesia até Teahupo’o e Pipeline em condições de gente grande.

Em ondas muito rápidas e que precisem de uma cavada curta (como Pauba, Itacoatiara ou slabs/fundos de pedra) a Pro cai como uma luva, pra todo o resto eu garanto que você não vai querer usar nada que não seja uma Style Loaded.

Style Loaded garante aquela segurança e velocidade em ondas grandes como Teahupo’o. 

Hoje tenho certeza de utilizar os melhores equipamentos possíveis, e sei que minha performance na água está diretamente relacionada a isso. Lógico que a prancha X ou Y não faz milagre, mas você nunca vai conseguir chegar no seu máximo ou perto dele, utilizando equipamento ruim ou pra condição errada. Fica aí a dica na hora de comprar sua próxima prancha. 

O sistema ISS pode dar uma versatilidade a mais e ser o definidor naquela queda de condições específicas.

Pra quem ficou curioso, dá uma olhada lá no perfil da Science Brasil, tem o link pra loja online e muito conteúdo legal sobre todo o time Science aqui no Brasil e no mundo.

Até a próxima, te vejo na água!

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Busca eterna

Hoje reproduzo aqui um pequeno texto que escrevi lá no meu instagram (@pfleury), sobre essa busca eterna por ondas e a falta de sossego que vem sempre junto com isso. 🙂

“Outro dia surgiu o assunto e fiquei conversando durante um bom tempo com um grande amigo sobre essa nossa busca incessante pelas ondas e por tudo o que orbita em volta disso. Principalmente no tanto que isso acaba nos atrapalhando e nos desgastando.

No meu caso foi uma vida toda quase, marcada por longas noites acompanhando e estudando gráficos de ondulação, vento, período, pesquisando pra ver em que direção exata as ondas e o vento entram em tal praia, ligando pra alguém tarde da noite pra ter aquela segunda opinião sobre o swell, dirigindo horas de madrugada pra muitas vezes quebrar a cara com condições ruins, desmarcando compromissos com namorada, família e amigos ou encarando aquela viagem de avião de mais de 24 horas atrás de tal onda, enfim… Vivi quase 40 anos a mais de 100km da praia mais próxima, sendo 2/3 desse tempo nessa cansativa mas muito recompensadora rotina. E certamente não me arrependo.

Invejo sim os grandes amigos nadadores que também fiz nessa vida, por precisarem de apenas uma piscina para serem felizes. Ou também aquele skatista que no começo da semana já planeja pro sábado o rolê de skate com os amigos, ou o corredor que amarra o tênis e sai correndo no meio da rua, na frente de casa. Mas eles com certeza não entenderiam o porquê de alguém acordar as 4 horas da manhã no inverno, pra dirigir 500km ida e volta, colocar uma roupa de borracha molhada e entrar num mar enorme as 6 da manhã, muitas vezes sozinho.

Esse esporte me trouxe talvez as pessoas e as amizades mais genuínas e sinceras que fiz até hoje, e definitivamente os momentos mais felizes, seja no contato mais nobre com a natureza até a valorização das coisas mais gratificantes e simples dessa vida, muitas delas que dinheiro algum no mundo compra.

E isso definitivamente me basta.”

 

Test-Drive: Erizos Santiago Sanchez Superior PP 42.25

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Como prometido nos dois últimos posts inauguro aqui mais uma seção do blog, testando equipamentos e colocando minha experiência de 25 anos no esporte em um test-drive.

No começo desse ano recebi pelo Facebook o contato do Walter Andrade, dono da loja W9 no Rio de Janeiro. Ele em primeiro lugar me parabenizou pelo blog, e depois perguntou se eu aceitaria uma prancha do portfolio da loja dele pra eu testar.

Confesso que a princípio fiquei bastante surpreso. Esse blog acabou surgindo como algo nada muito sério, comecei a escrever por sugestão de amigos e também com a ideia de compartilhar um pouco esse meu interesse (as vezes até um pouco exagerado) pelo esporte. Nunca imaginei que alguém iria algum dia me oferecer qualquer tipo de equipamento pra eu dar minha opinião, então fiquei super entusiasmado e muito lisonjeado. Lógico que aceitei a proposta do Walter na mesma hora e combinamos detalhes do envio da prancha pra São Paulo.

Comecei a pegar onda no verão de 1991, e por isso já acompanhei muitas fases desse esporte. Me lembrei então da edição anual da revista americana Bodyboarding que trazia um teste com pranchas de todas as marcas disponíveis no mercado americano naquele ano, o chamado “Test Pilot”. Dois bodyboarders profissionais da época eram chamados para testar algo em torno de 20 pranchas, algo inédito e que acho que nunca mais foi replicado até hoje. Um pequeno texto era escrito junto com detalhes dos materiais e preço das pranchas.

MS Turbo 3 Gear Guide

Exemplo do Gear Guide no ano de 1992. Aqui a lendária Turbo III. Fonte: Arquivo Pessoal BBing Mag

Antes de começar a falar sobre a prancha deixo bem claro aqui que em nenhum momento me foi exigido um post ou qualquer opinião direcionada em contra-partida para o envio dessa prancha pela W9. Faço esse relato de livre e espontânea vontade, com a mesma naturalidade que sempre abordei os assuntos e respondi as dúvidas de todos nos comentários. E atesto a seriedade e profissionalismo da W9 em um mundo que já tem gente demais querendo passar por cima dos outros. Parabenizo aqui o Walter pelo profissionalismo e dedicação enorme em tentar manter o mercado funcionando com produtos importados, mesmo em tempos difíceis como o atual e uma cotação do dólar absurda.

Bom, vamos lá. Conversando um pouco com o Walter pelo FB falei que usava pranchas 42.5” (tenho 1,93m e 83kg), e ele me disse que tinha uma 42.25” pronta pra ser enviada. Como eu sei que tamanhos acima de 42” não são a grande maioria dos modelos comercializados (a Pride por exemplo nem tem modelos 42.5” disponíveis), aceitei e recebi como mais um desafio, pois imaginei que talvez pudesse ficar um pouco pequena. Mas no fim acabou dando certo. A prancha que eu recebi para o teste é da marca chilena Erizos, modelo Santiago Sanchez, com bloco de PP, sem tela e com o sistema “tridente” de 3 stringers. São 2 stringers curtos nas laterais próximo às bordas, começando na rabeta e indo até quase a metade da prancha, e um de tamanho padrão no meio.

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A princípio fiquei um pouco receoso pelo fato de ter esse sistema, basicamente por dois motivos: a dureza da prancha em geral e seu respectivo peso. Mas nesses dois quesitos acabei surpreendido, já que ela tem praticamente o mesmo peso de uma prancha com 1 stringer simples, e não me pareceu tão dura dentro d’água, apenas com aquela dureza tradicional de uma prancha nova. Esse sistema permite também que o bloco seja um pouco mais fino que o normal, o que garante o peso semelhante a outras pranchas e ainda dá aquela segurança a mais na pegada.

Lembro aqui mais uma vez algo que eu sempre digo aqui no blog: prancha de bodyboard NÃO foi feita pra durar eternamente, desconfie daquele prancha super dura com bloco mais grosso e meia dúzia de stringers.

A Erizos é uma marca chilena muito popular em seu país de origem, e tem todas as suas pranchas fabricadas na fábrica Agit em Taiwan. Outras marcas conhecidas no mercado mundial são fabricadas lá, caso das GT Boards, Funkshen, Nomad e QCD (até esse ano pelo menos), entre outras. Os materiais são de alta qualidade e talvez a construção geral da prancha só fique atrás do padrão das NMD/VS fabricadas na Indonésia, por conta do acabamento que é pouca coisa inferior. No mais são pranchas anos-luz a frente de qualquer prancha nacional, e utilizam a combinação clássica de Polypro, Surlyn e deck de PE/8lb mais aberto, também chamado de NXL. Ou seja, no quesito materiais e “sanduíche” escolhido, está mais que recomendada antes até de tirar do plástico.

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Quanto ao shape, a Erizos SS tem um desenho bem reto e quadrado, com bordas quase paralelas e um wide point médio, que figura mais ou menos em um meio termo entre a largura de uma NMD Ben Player e uma Found MR. Isso acaba por garantir bastante velocidade nas cavadas, mas tira um pouco o aspecto mais versátil que eu acabo sempre escrevendo aqui no blog. Vendo alguns vídeos do argentino Santiago (que assina esse modelo e que você pode ver abaixo) entendi bem o porque desse desenho, com ondas bem rápidas e com muita força sendo surfadas por ele em Teahupoo e em outras ilhas no Pacífico.

 

 

Não cheguei a pegar nenhum mar muito grande (graças ao verão bem devagar aqui em São Paulo), mas em ondas em torno de meio a 1 metro percebe-se que a prancha tem uma cavada super rápida e responde muito bem aos comandos. Como ela tem uma largura máxima um pouco limitada, talvez não funcione tão bem em ondas mais cheias e que não “empurram” tanto. Vai acabar faltando flutuação pra surfar aquele dia mais “força barra”. Mas ao mesmo tempo em partes da onda com bastante força a prancha se destaca acelerando muito bem e te levando até o lip com bastante precisão.

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O verão e começo de outono foram meio devagar aqui em São Paulo, mas ainda deu pra colocar a prancha na água. Foto: Rodrigo Nattan

Destaque especial para o sistema de 3 stringers, já que como não existem stringers embaixo dos cotovelos (como em uma prancha com dois stringers por exemplo), a estrutura superior da prancha acaba se comportando da mesma maneira que uma prancha com stringer simples, flexionando nas cavadas e projetando em direção ao lip. E nas pancadas mais fortes os stringers laterais se encarregam de não deixar a prancha dobrar e torcer em volta do stringer central. Imagino que isso ao longo do tempo garanta a integridade da prancha e também permita seu uso em locais com água bem quente, caso do Nordeste brasileiro. Esse modelo conta também com os contornos no deck ao longo das bordas até o bico. Achei bem funcional já que ajudam bastante na hora de voltar as manobras segurando as bordas.

IMG_1499_1Detalhe do acabamento acima da média

Recomendo esse modelo pra dias de ondas bem cavadas e rápidas ou dias grandes em ondas um pouco mais cheias, onde você vai fazer cavadas longas e trocar bastante de borda. Essa prancha funcionaria muito bem em ondas como São Conrado no RJ e também na Cacimba do Padre em Fernando de Noronha. Ondas rápidas, com bastante força, que realmente te empurram e que muitas vezes não dão muito tempo nem permitem muito espaço pra cavadas longas e mais lentas.

Já naqueles dias de mar mais fraco recomendo uma prancha mais larga que te dê mais flutuação e que não exija tanta força pra voltar as manobras. Lembro aqui também que usar uma prancha muito estreita ou pequena em ondas fracas acaba comprometendo sua durabilidade, já que você acaba forçando bastante a prancha pra entrar na onda e completar manobras.

 

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Erizos Santiago Sanchez Superior PP 42.25”
Bloco: Polipropileno 1.9 sem tela
Deck: Polietileno 8lb NXL
Fundo: Surlyn
Stringers: Sistema tridente com 3 stringers, sendo 2 curtos e 1 longo
Rabeta: Crescente
Bordas: 60/40 

Preço: R$ 1.290

Prós: Durabilidade, flexibilidade mesmo quando nova, construção geral muito acima da média nacional.

Contras: Desenho não tão versátil, sistema de stringers pode ser muito duro para alguns dependendo da temperatura da água.

IMG_1501Testando a Erizos SS em mais um dia pequeno aqui em SP. Foto: Rodrigo Nattan

Agradeço novamente ao Walter Andrade e ao Leonardo Teixeira da W9 pela oportunidade e recomendo 100% a loja deles pra quem precisa de qualquer tipo de equipamento para a prática do Bodyboarding.

http://www.wnine.com.br

Acho que é isso, continuo respondendo dúvidas e aceitando críticas nos comentários. Vou tentar conseguir outras pranchas para teste, mesmo sabendo que o mercado aqui no Brasil é super pequeno e limitado.

Fotos da prancha tiradas por mim, e agradeço mais uma vez ao Rodrigo pelas fotos do teste na água.

Te vejo na água, até a próxima!

Nadadeiras e pés-de-pato: história e o mercado atual

Depois de quase 5 meses sem posts, estou aqui de volta abrindo 2016 com um assunto bastante discutido não só em relação à funcionalidade mas também no quesito estilo: nadadeiras ou os também chamados por muitos de “pés-de-pato”.

Desde o começo da história do esporte as nadadeiras foram parte essencial do conjunto de equipamentos de um bodyboarder. O jeito de surfar deitado já vinha desde os paipo boards no começo do século 20, mas o uso de nadadeiras apareceu mesmo com a popularização do bodysurfing (surf de peito) e das pranchas de bodyboard a partir de meados dos anos 70. Ondas cada vez mais extremas começaram a ser surfadas e uma maior força e propulsão na remada eram necessários, com diferentes formatos e desenhos sempre surgindo. Até hoje vemos novas tentativas de design ou composições diferentes de borracha, como por exemplo os pés-de-pato Vulcan lançados pela Pride ano passado.

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Em certos momentos o uso das nadadeiras é essencial e vai dizer se aquele drop ou tubo será completado. Aqui Mike Stewart cravando toda a sua técnica e nadadeiras num Pipeline de sonho. Fonte: IBA World Tour / Sasha Specker

As nadadeiras são divididas basicamente em dois tipos: os assimétricos (onde um pé é diferente do outro, como os Churchill) e simétricos (como o Voit, Viper “clássico” e “MS” e também o Kpaloa). Essa escolha na minha opinião vai muito do gosto pessoal, seja na busca de um estilo ou na adaptação a um modelo específico. Já usei os dois tipos e a principal diferença prática é que os modelos assimétricos acabam forçando um pouco o joelho para fora graças ao desenho da sua barbatana, maior de um dos lados.

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Exemplos de modelos simétricos: Voit, Kpaloa, Viper e MS Viper. Fonte: Google.com e Bodyboardking.com

Até hoje eu imagino que o modelo mais famoso e utilizado no mundo continua sendo o Churchill e suas diferentes versões criadas e copiadas. Originalmente desenvolvido por Owen Churchill nos anos 1930/1940, esse modelo se tornou popular graças ao seu uso pelas forças armadas americanas, e também pela produção do mesmo pela fábrica Voit a partir dos anos 1960. O formato emulado da cauda de golfinhos e baleias faz muito sucesso até hoje, apesar de a funcionalidade não fazer muito sentido lógico a partir do momento em que se divide essa anatomia ao meio nos pés de um ser humano.

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Foto de um exemplar do primeiro modelo do Churchill, criado na década de 1940. Fonte: swelllinesmag.com

Mesmo tendo uma remada considerada média se comparado a um Viper ou Voit por exemplo, o Churchill funciona muito bem a partir do momento que se entra na onda, com a parte mais longa da barbatana virada para a parede funcionando como uma quilha principalmente em momentos críticos. Além disso a principal característica que garante sua popularidade é o extremo conforto, com um “pocket” muito macio e ainda assim mantendo uma boa resistência para a remada, além de ser super leve. É realmente difícil não se identificar imediatamente com um modelo usado a tanto tempo e que fornece tanto conforto.

Cores clássicas e novas combinações são vendidas até hoje e acabaram copiadas por diversas marcas que se favoreceram da aparente falta de uma patente, e hoje mais de 4 ou 5 marcas fabricam modelos praticamente idênticos, mudando pequenos detalhes estruturais e cores. Nomes como Stealth, Limited Edition, Found, Pride e a marca chilena Erizos tem suas versões análogas ao Churchill com combinações de cores únicas sempre vinculadas a seus respectivos times de atletas. Marcas tradicionais e mais antigas também acabaram se rendendo aos modelos assimétricos inspirados no Churchill, com a Viper por exemplo lançando seu modelo “Delta” mais uma vez sob a chancela do rei Mike Stewart.

 

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Exemplo de três diferentes cópias do famoso Churchill: Stealth S2, Limited Edition e Ally Fins. Fonte: Bodyboardking.com

Do desenho original pensado por Owen Churchill foram desenvolvidas e incorporadas mudanças por essas diferentes marcas, seja no formato e recorte da barbatana ou nas saídas de água. A Redley, marca brasileira bem conhecida até hoje, surfou esse sucesso das nadadeiras duas vezes, primeiro replicando com perfeição o Churchill americano, e depois criando um desenho próprio em 1994, famoso nos pés de Guilherme Tâmega e do também campeão Andre Botha até alguns anos atrás. Depois disso a Redley abandonou completamente o esporte deixando inclusive de vender seu modelo.

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Propaganda da Redley na Riptide australiana por volta do final dos anos 1980. Somente Mike Stewart e Ben Severson faziam parte do seu time. Fonte: Bodyboard Museum

Acho que hoje fala-se muito em cores e estilo, então a funcionalidade das nadadeiras acabou ficando um pouco em segundo plano. Mas acredito que esse é um assunto mais pessoal ainda que as pranchas, porque trata bastante do conforto muito mais do que cores, tecnologia ou coisas do gênero. De nada adianta ser a melhor nadadeira se ela não se encaixar direito no seu pé e te machucar logo no começo da queda. Por isso vale aquele mesma máxima das pranchas, teste o máximo de modelos que você conseguir, muitas vezes estamos usando o equipamento errado e nem se tem idéia disso.

Hoje no mercado nacional temos algumas opções, mas ainda nada comparado às lojas da Austrália ou EUA e seus mais de 15 modelos diferentes e um monte de cores. A marca brasileira mais tradicional continua sendo a Kpaloa, que fabrica o mesmo modelo simétrico já a algum tempo. Como eu disse anteriormente a Redley optou por parar já a alguns anos a comercialização do seu modelo, mas Guilherme Tâmega o trouxe de volta com o seu GT Fins. Cópias do tradicional Churchill também podem ser encontradas aqui no Brasil, como o Classic Fins da B2BR e também o Erizos Fins vendido pela loja carioca WNine.

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Ben Severson usando o que parece ser uma versão customizada e cortada de um Redley por volta de 1992. Fonte: Arquivo pessoal Bodyboarding Magazine

Bom, só aí já dei 4 opções então fica de novo a dica de testar o máximo de modelos possíveis. Eu já uso a quase 15 anos o Churchill e suas vertentes e cópias descaradas, ainda acho o mais confortável e leve. E o mais importante: se encaixou bem no meu pé. Atualmente tenho um par de Limited Edition trazidos dos EUA por um amigo, e é sem dúvida um dos mais confortáveis, mantendo a força na remada.

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Guilherme Tâmega numa clássica publicidade da Redley pro mercado americano. Foto: Arquivo Pessoal Bodyboarding Magazine

É isso, no próximo post abro mais uma seção diferente aqui no blog, graças a ajuda da loja W9 do Rio de Janeiro. Vou fazer o review com “test-drive” e tudo mais de uma prancha e colocar todos os detalhes aqui, aguarde!

Até a próxima, te vejo na água!

Paulo Fleury

Review: Passing Through

Mantendo a média de pelo menos um post por mês, hoje falarei um pouco de vídeos e filmes sobre o esporte.

Bom, eu sempre fui um aficcionado por vídeos de bodyboard, desde o tempo de “Bodyboarding Enough Said” e também da série clássica “Bodyboarding Video Magazine”, do californiano Tom Boyle. Na minha época de moleque era através dos vídeos que a gente sabia o que acontecia no esporte em todo o mundo. Como por exemplo: como tinha sido a temporada havaiana, que prancha que Mike Stewart tava usando, como tinha sido o mundial em Pipe e por aí vai. Lembre-se bem que não existia internet, o mercado no Brasil já era bem limitado, e colocar as mãos em uma cópia de um vídeo “gringo” era uma emoção única. Os vídeos em VHS custavam na época 30 dólares nas lojas, e quando eu viajava tentava trazer todos os lançamentos possíveis, ou seja, não era uma brincadeira das mais baratas nem das mais simples. Tenho até hoje um armário cheio dessas fitas, com a maioria dos vídeos mais importantes incluindo os três primeiros NoFriends, que revolucionaram o mercado e a produção de filmes sobre o esporte no final da década de 90.

Mike Stewart destruindo tudo em um dos muitos vídeos lançados nos anos 90. 

Hoje em dia com a popularização e facilidade de produção de conteúdo para a internet, a quantidade de pequenas produções lançadas de graça aumentou consideravelmente, ao mesmo tempo que produções mais tradicionais destinadas a venda acabaram desistindo do mercado. O que antes era um bom negócio e uma ótima maneira de se ganhar dinheiro com o esporte (vide o exemplo que dei da marca NoFriends), acabou se diluindo em projetos esporádicos de alguns atletas ou marcas e limitados ao maior mercado mundial, a Austrália. O mercado americano, que tinha ótimas produções vindas da California simplesmente sumiu depois que os webcasts engoliram tudo através do YouTube e do Vimeo. Mas pro bodyboarder comum isso acabou facilitando bastante, e a maioria das grandes produções está disponível para download de um jeito muito fácil.

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Mas hoje vamos falar de uma das mais esperadas produções do país que já domina o esporte a um bom tempo, a Austrália. Desde o começo do ano passado a revista le Boogie (que já tinha colocado no ar projetos incríveis como “Detours” e “Pitstops”) apoiou e desenvolveu um projeto chamado “Passing Through“, que acompanhou os principais nomes do Bodyboarding mundial, competidores ou não, em diversas locações ao redor do mundo. Lugares com garantia de onda boa (como Indonésia, Tahiti, Portugal e logicamente a Austrália), e também outros não tão tradicionais e que normalmente não fazem parte desse “circuito” aparecem em destaque no filme, como Japão, Nova Zelândia e também o Brasil, mostrando inclusive algumas ondas aqui no Estado de São Paulo. A direção está a cargo de James Kates, que é um nome muito tradicional do free surf na Austrália. Mais uma prova de que muita gente envolvida com o esporte tem competência em qualquer coisa que faça, e nesse caso toda a direção, produção e arte são de se tirar o chapéu.

A produção é de altíssima qualidade, com uma preocupação enorme e incomum com alguns detalhes. Percebe-se uma preocupação recorrente com enquadramento e fotografia, o que garante ao filme um status de super produção, inclusive quando comparado aos filmes de surf. Existe também no começo do filme uma linha de design e estética gráfica (provavelmente vinda dos competentes designers da revista), que ao longo do filme vai sendo deixada de lado em favor das cenas de ação e lifestyle. A trilha sonora se destaca também, tendo sido criada e escolhida junto com bandas locais da Austrália especialmente para o filme, um detalhe bem interessante e singular.

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O visual é muito valorizado durante todo o filme. Aqui um exemplo na Nova Zelândia. Frame: le Boogie/Passing Through

Passing Through não é somente uma das produções mais bem feitas dos últimos anos, com alguns dos maiores nomes do esporte, mas ela também traz de volta alguns picos que já não tinham tanta visibilidade em filmes como antes, como no caso de Teahupoo no Tahiti. Ver Jake Stone, Jason Finlay e Michael Novy descer aquelas ondas com tanta facilidade me fez lembrar dos dois campeonatos que já aconteceram lá em 2000 e 2003, com performances matadoras de Ryan Hardy e Damian King respectivamente. Outras ondas não tão divulgadas também são mostradas, como a pesada e perfeita esquerda em Central Java (com Dallas Singer quebrando tudo) e a Praia do Norte em Portugal.

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Jason Finlay em um dos takes mais impressionantes do filme. Frame: le Boogie/Passing Through

O próprio roteiro e a forma como o filme “caminha” ao redor do mundo tem toda uma maneira única e incomum, indo e voltando dos diferentes lugares e ondas, sem linearidade. Destaque para a session de Jared Houston e Pierre Louis Costes nas ondas de Portugal, simplesmente uma aula de manobras em ondas de muita consequência. Muito bom também ver nomes como Nick Gornall surfando aqui no Brasil, e também a performance do “menino prodígio” Renan Faccini em ondas pesadas. Um atleta brasileiro conseguir espaço em uma produção australiana desse tamanho é algo inédito e tem que ser muito valorizado.

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 Jared Houston indo pra uma junção um tanto pesada aqui no Brasil. Frame: le Boogie/Passing Through

Passing Through é item obrigatório na videoteca de qualquer bodyboarder. Fazia tempo que eu não assistia a uma produção tão caprichada e tão interessante visualmente, com um roteiro e trilha sonora únicos. Passing Through acaba atravessando aquela barreira dos aficcionados pelo esporte, e tenho certeza que vai chamar a atenção mesmo de pessoas que não pegam onda. Junto com “Killer Days” de Mitch Rawlins, é um dos principais filmes de 2014 e vale cada centavo dos 10 dólares que custa.

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Renan Faccini indo pras cabeças. Será que voltou? Frame: le Boogie/Passing Through

Você pode comprar o filme e baixá-lo em HD, pela Itunes Store em qualquer lugar do mundo. Aqui vai o link da loja brasileira. E o melhor, custa bem menos que qualquer fita VHS dos anos 90! Só precisa de um cartão de crédito e uma boa conexão de internet.

Depois é só assistir antes de destruir tudo naquela session. Afinal, quem nunca ficou “pilhado” vendo vídeos antes de surfar? 😉

Até a próxima, te vejo na água!

Paulo Fleury

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English Version

I am still trying to keep up with at least one post each month, and this time we are talking about movies that keep our sport alive.

Since when I was really young I was a video freak. “Bodyboarding Enough Said” and the classic “Bodyboarding Video Magazine” series were standouts from the early “VCR Era”, and once you had your hands on one of the many tapes released at that time, you were in for a blast. That was the only way that here in Brazil you could know and watch what was happening around the globe with our loved sport. How was the past hawaiian season? What board was Mike Stewart riding? How was the Pipeline Championship? All of these questions were answered with a single VCR tape. Remember that there was no internet, the brazilian market was really small (as it still is today), and as I said before getting your hands on one of the latest releases was a huge thing, specially because they were not sold anywhere. You had to rely on friends traveling overseas or bring it on your own. They were sold at 30 dollars each, so it was kind of an expensive thing to buy and collect them all. I still have more than 20 VCR tapes stocked, with a few of the most important releases, including all of the first NoFriends series, that revolutionized the scene and the way videos were made at that time.

Mike Stewart in one of Tom Boyle’s early 90s videos.

Throughout the years, with the popularity of audio and visual production going around the internet, a lot of short videos were released each month, at the same time that traditional producers form the old era kind of started giving up. What was once a good market started fading away with the release of videos via YouTube and Vimeo. Even NoFriends gave up on video producing and editing. But for the common bodyboarder it was an easier and cheaper way to get content, and right now movies from all over the world are available at your desktop or flat TV.

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Today I am writing a short review of one of the most anticipated productions that came from Australia this year. Since the beginning of 2013, le Boogie (a magazine that had already made top notch projects like “Detours” and “Pitstops”) started producing and supporting a new project called “Passing Through”, that keeped track of a few of the biggest names of the sport around the globe. Places that are already known for the quality of their waves (like Indonesia, Tahiti, Portugal and obviously Australia), and also other places that are not your common wave destination, like Japan, New Zealand and Brazil, were explored. James Kates (who is already a well know freesurfer in Oz)  is the director, proving that we have people really talented in our sport with whatever they do. Direction, art and production are top notch as expected.

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Scenery is one of the greatest characters of the movie. Here an example from New Zealand. Frame: le Boogie/Passing Through

The overall result is maybe some of the highest quality visuals ever seen in our sport, and you can easily identify that there was a lot of time spent with details that are not that common on such a small industry. Framing, photography and color grading are just a few to name, giving the film a super production kind of look, even when compared to stand-up surf flicks. You can also check at the beginning that there is a design and graphic line being followed, and as the movie goes on action and scenery just takes it place perfectly. Sound tracks are really unique also as they were produced and chosen together with local bands specially for Passing Through, which is really cool.

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 Jason Finlay in one of the most impressive takes during the movie. Frame: le Boogie/Passing Through

Passing Through also brings back some waves that were not seen anymore as they were used to a few years back, just like Teahupoo in Tahiti. Watching Jake Stone, Jason Finlay and Michael Novy dominate those waves just got me back to the two contests we had over there more than 10 years ago, dominated by Ryan Hardy and Damian King. A few other waves are well portrayed, like the heavy and perfect left in Central Java (with Dallas Singer goin’ huge) and Portugal’s Praia do Norte.

The whole script and the way that the movie “walks” around the globe coming and going all the time is also an interesting part. Standouts also include Jared Houston and PLC in Portugal, teaching a maneuver class in heavy waves. It is really nice to watch Nick Gornall going for some brazilian wedges, and also the performance of “wonder kid” Renan Faccini. To see a brazilian bodyboarder be featured in an australian movie is something outstanding that should be always mentioned.

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 Jared Houston going for a heavy section somewhere in Brasil. Frame: le Boogie/Passing Through

Passing Through is a “must have” for every bodyboarder, and it has more than 60 minutes of high performance action with really nice scenery and perfect takes and lifestyle shots. It definitely gets through that “barrier” that even people who don’t bodyboard will be keen on watching it. Together with “Killer Days” it is one of the biggest hits of 2014 and is well worth the download price.

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 Renan Faccini goin’ huge. Did he made it? Frame: le Boogie/Passing Through

You can download your copy in HD quality via Itunes Store, here is the link. And the best part is that it is just a fraction from what a VHS tape from the 90s used to cost! All you need is a valid credit card and high speed internet.

See you in the water!

Paulo Fleury

 

 

 

 

 

Rivalidades históricas: Mike Stewart x Ben Severson

Bom, pra quem de repente acompanha o esporte de vez em quando, ou acabou não indo muito atrás de sua história desde o começo, talvez imagine que Mike Stewart dominou completamente a cena competitiva nos anos 80 e começo dos anos 90. Apesar de todos os números apontarem para isso (Mike é 9 vezes campeão mundial, 11 vezes campeão em Pipeline e 8 vezes campeão americano), uma grande rivalidade dificultou e valorizou bastante a escalada de conquistas da lenda havaiana, que já foi até assunto de reportagem da revista Surfer nos anos 90.

Ben Severson, nascido e criado no Hawaii junto com suas potentes ondas, e da mesma geração que construiu a cena competitiva do esporte junto com outros nomes, foi sem dúvida o maior rival de Stewart na época do surgimento do esporte e em sua consequente consolidação como esporte radical conhecido mundialmente.

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Ben Severson em anúncio da fábrica que produzia os blocos de Arcel nos anos 90. Imagem: Arquivo pessoal Bodyboarding Mag

Ben Severson não só foi o maior rival de Mike em campeonatos, mas também disputou com ele a popularidade nas lojas com a criação de um dos primeiros “pro-models” do esporte, assunto já abordado aqui no blog quando desvendamos todos os segredos da prancha BZ Ben T-10. Nessa época as duas marcas mais populares do mundo eram BZ e Morey Boogie, e cada uma tentava alavancar suas vendas com a ajuda de Ben Severson e Mike Stewart. Severson inclusive foi o pioneiro no desenvolvimento de novas idéias e uso de materiais diferentes em suas pranchas.

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Mike Stewart em uma reportagem especial da extinta Fluir Bodyboard, por volta de 1997. Imagem: Arquivo pessoal

Mas foi na cena competitiva que os dois chamaram mais a atenção de todos. No final da década de 80 e começo dos anos 90, os EUA tinham um dos circuitos regionais mais fortes do mundo, senão o mais forte. A cervejaria Budweiser bancava um circuito enorme, com mais de 10 etapas, que juntava Surf e Bodyboarding em disputas por diversos estados americanos, inclusive com etapas no Hawaii. Era o chamado “Bud Pro Tour”. Como ainda não havia circuito mundial de bodyboarding, esse circuito americano ganhava muita importância e espaço na mídia, já que os atletas havaianos eram os expoentes nessa época. Mike Stewart e Ben Severson já eram campeões mundiais, e disputavam bateria a bateria a popularidade e os títulos de um mercado em franca expansão e crescimento. É importante lembrar que nessa época vivíamos o auge do esporte em matéria de investimento, onde até as marcas exclusivas do Surf queriam sua fatia do bolo (assunto também já abordado por aqui!). Apesar desse circuito não favorecer o nosso esporte no quesito ondas (as etapas eram compartilhadas com os campeonatos de surf em ondas como Trestles e Steamer Lane, por exemplo), a premiação era muito boa (5.000 dólares para o vencedor) e o circuito contava com uma ou duas etapas no Hawaii. Guilherme Tâmega também chegou a disputar o Bud Pro Tour e inclusive foi campeão em 1995.

Etapa do Bud Pro Tour 1993 em Ocean Beach, em São Francisco. Destaque para a linha de onda de Mike Stewart, diferenciada desde sempre.

 Esse cenário acabou aumentando ainda mais essa rivalidade, já que Severson e Stewart polarizaram as atenções de mídia, do mercado e nas competições, em uma época em que o Bodyboarding talvez fosse até mais popular e aparecesse mais na mídia que o Surf. No ano de 1991, das 11 etapas do Bud Pro Tour, Mike Stewart ganhou 6 e Ben Severson ganhou 5 etapas. Daí percebe-se a importância e o tamanho dessa rivalidade que polarizou forças na primeira e segunda décadas do nosso esporte.

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Mike Stewart em um el rollo de execução perfeita, e levantando um belo cheque de 5.000 dólares em uma das etapas do Bud Pro Tour 1991. Imagem: Arquivo pessoal Bodyboarding Mag

Como Severson e Stewart são havaianos, suas maiores performances sempre aconteceram em Pipeline, até hoje considerada a onda mais famosa do mundo. Os dois estavam nitidamente a um nível acima de todos os outros, e até hoje coloca-se Ben Severson como o único que era capaz de rivalizar e parar Mike Stewart até a metade dos anos 90. Esses dois nomes definiram como se surfava Pipeline em cima de uma prancha de bodyboard. No YouTube encontram-se exemplos dessas “disputas” e vou colocar aqui trechos de dois filmes dos anos 90, que mostram a importância dessa rivalidade e um pouco da história do nosso tão querido esporte.

Mike Stewart no filme da década de 90 “Volar”: destaque pra onda que começa aos 0:34, talvez um dos maiores exemplos do que é o seu domínio em Pipe.

Algumas ondas de Ben Severson em Pipeline nesse vídeo de 1997.

A partir de 1994 essa rivalidade acabou esfriando, já que Guilherme Tâmega ganhou o mundial em Pipeline e também começou a disputar o circuito americano, ganhando inclusive no ano seguinte. As atenções se voltaram então para o que é até hoje a maior e mais longa rivalidade do nosso esporte, e que será abordada aqui no futuro. Mas pra quem como eu começou a pegar onda no começo dos anos 90, Mike Stewart e Ben Severson dominaram tudo o que girava em torno das competições, notícias e equipamentos, durante mais de 15 anos.

Falaremos de outras rivalidades em breve, até a próxima!

Paulo Fleury