Teahupoo, Tahiti: medo e desejo

Tava devendo um texto dessa viagem, esse ano foi bem corrido e confuso pra mim, 1000 coisas acontecendo ao mesmo tempo e não tava com saco de escrever mesmo. Mas agora foi e acho que esse pequeno relato é bem interessante.

No meio desse ano (Junho/Julho) eu realizei talvez o meu maior e mais tenso sonho, que era surfar Teahupoo, no Tahiti. Recrutei dois amigos mega alucinados e em dezembro de 2017 eu, Abner Scopetta e Alex Detter compramos as passagens.

Descendo aquela ladeira no chamado ‘West Bowl” de Teahupoo. Foto: 1800jakespeaking

Eu já tinha ido pro Hawaii quando era mais novo, na temporada 2000/2001, surfei Pipeline muitas vezes durante 2 meses junto de mestres como Paulo Barcellos, Hermano Castro e Guilherme Tâmega, e competi o Mundial por lá inclusive, mas Teahupoo sempre ficou na minha cabeça, sempre com esse sentimento duplo de medo e desejo. Muita gente já havia me falado que a onda não tinha tanto segredo assim, que era “só tentar remar do lugar certo”, mas fiquei praticamente 4 ou 5 meses antes da viagem vendo 1000 vídeos e passando um nervoso enorme imaginando como seria.

Alex Detter também botou pra baixo, ganhando o respeito dos locais.

É definitivamente a onda mais perigosa do mundo, todo o lineup é tenso, a remada da praia até o reef, os barcos no canal, o crowd apenas de gente mega conceituada e de locais completamente insanos e destemidos. Cada onda e cada série sobe de um jeito e numa parte diferente do reef, então é impossível prever qualquer coisa quando a onda vem na sua direção. Confesso que nas primeiras quedas me senti um ET, sem saber onde ficar ou sentar e questionando mesmo se tinha feito o certo de ir até lá. Nessas horas humildade é essencial, é uma questão de sobrevivência e de você não fazer uma besteira e colocar pelo ralo uma viagem que foi planejada com tanta antecedência e expectativa.

Aquele tubo que faz esquecer o quão perigoso é esse lugar. Foto: 1800jakespeaking

Vou contar aqui o caso que mais me marcou em relação a onda mesmo, de como a gente tem que estar preparado física e psicologicamente sempre, e de que somos meros coadjuvantes nessas horas. Fiz uma forte preparação física especialmente pra essa viagem desde fevereiro desse ano, isso é o item número 1 pra quem pretende algum dia encarar Teahupoo, e mesmo assim no fim a gente acaba passando algum apuro.

Num dia comum pra lá, com ondas de 6 a 8 pés, (Teahupoo pode quebrar até com 15-20 pés de face como todo mundo sabe) eu caí cedo e fiquei surfando meio impaciente no meio do crowd, e depois esperei a galera sair pra almoçar e ver se sobrava alguma boa (mesma tática que eu sempre fazia em Pipe). Já batia uma brisa meio maral/ladal que tava atrapalhando um pouco, mas como tinha pouca gente valia a pena ficar. Mesmo com aquela textura de vento a onda segura e dá pra pegar uns tubos.

No fim eu consegui pegar uma muito boa na frente do bodyboarder local mega casca grossa Alvino Tupuai, uma daquelas que já baforam no meio do drop, e que você meio que não enxerga muita coisa, só dá pra colocar no trilho e rezar pra sair no canal. Se você remar no lugar certo muitas vezes isso acontece e é só alegria.

Mas depois dessa veio uma daquelas séries que vem por cima do horizonte (lá você não vê a série vindo na maioria das vezes, galera dos barcos que consegue ver e assobia), e eu fui pego meio desprevenido um pouco mais pra baixo do que o pessoal que ainda estava no mar, e a experiência não foi definitivamente das melhores. Eu e um outro bodyboarder de Aruba, tomamos 4 ou 5 ondas de 8 pés na cabeça, naquela região onde a água chupa e parece que “abriram o ralo”, super comum em qualquer vídeo sobre essa onda.

Abner Scoppetta botando pra baixo naquele mar já com um vento bem de lado. Foto: Armando Goedgedrag

A primeira onda quebrou na minha frente e eu ainda consegui furar dando um joelhinho, mas na mesma hora toda a força do mar arrancou a prancha das minhas mãos e eu simplesmente virei passageiro de uma viagem um tanto turbulenta. Fui jogado e arremessado pra cima e pra baixo, e fiquei tentando não gastar o ar e manter a calma. Sabe aquela história de “você não sabe onde é pra cima e onde é pra baixo”? Sim, ela existe e é mais que real. Embaixo d’água a primeira coisa que me veio a cabeça foi que se o meu leash/cordinha estourasse eu estaria na pior condição possível, inclusive pra sair do mar. Lá em Teahupoo a onda quebra a uns 20 minutos de remada da praia, e na hora de sair você ainda rema contra uma corrente super forte, é um desafio físico mesmo. Sem prancha eu estaria em péssimos lençóis. Foram momentos de tensão e entre uma onda e outra só dava pra subir, puxar ar e afundar de novo, rezando por uma calmaria. Ter um bom controle mental ajuda demais nessas horas, se desesperar só vai te atrapalhar, seu batimento cardíaco vai subir e você vai consumir ainda mais oxigênio do pouco de ar que sobra nos pulmões. Difícil imaginar alguma calma nesse momento, mas isso é fundamental.

O que sobrou do leash Gyroll e da minha Science Pocket LTD depois de 5 ondas médias de Teahupoo na cabeça: confiança nos equipamentos é essencial. 

E aí eu bato numa tecla importante e que é o motivo de existência desse Blog. Nessas horas a gente tem que estar com os melhores equipamentos possíveis, a Natureza é completamente imprevisível seja aqui no Brasil ou em qualquer onda ao redor do mundo. E um leash de boa qualidade pode fazer a diferença entre tomar “apenas” a série na cabeça ou perder a prancha e ter que pedir ajuda pra alguém na zona de impacto da onda mais perigosa do mundo. Desde o ano passado eu conto com o suporte da Science Bodyboards e de seus acessórios aqui no Brasil, e graças a Deus meu leash Gyroll aguentou firme e forte, perdeu sim a forma, esticou e ficou todo liso (vide foto). Mas não estourou, e quando a série passou minha prancha estava do meu lado. Foi “só” remar esbaforido pro canal e agradecer por não ter batido no fundo ou ficado sem ar e apagado. Ufa!

Nos dias menores quebram ondas com a mesma perfeição e perigo, em cima de uma bancada bem afiada. 

Sim, isso é real. Teahupoo é um lugar onde você realmente se sente em cima de uma corda bamba equilibrando a sua vida junto de tanta adrenalina, crowd, água salgada e baforadas. Não existe um momento em que a possibilidade de dar um problema grave não passe pela sua cabeça. E resolver isso com calma é definitivamente pra poucos. 😉

No fim o maior problema além da onda mesmo talvez seja o crowd, a onda já é suficientemente perigosa e você ainda tem que lidar com dezenas de surfistas e bodyboarders super técnicos e que não estão ali pra brincadeira. Como em Pipeline existe uma hierarquia na fila e o clima dentro d’água está longe de ser amistoso. Haja paciência.

Por hoje é isso, já estava ensaiando esse texto sobre a viagem e espero escrever mais em 2019, esse ano teve pouca coisa aqui no Blog e isso realmente me incomoda, foram 3 posts só. Vamos ver se até a virada do ano sai mais alguma coisa.

Vejo vocês na água, abraço!

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Surfando ao redor do mundo: Padang Padang e G-Land

Mais uma seção diferente aqui no blog, dessa vez falando de viagens e ondas um tanto perfeitas! Muitos me perguntam sobre as diferentes viagens que já fiz, qual um destino legal pra ir, qual o melhor custo-benefício, onde peguei as melhores e mais perfeitas ondas e por aí vai. São dúvidas recorrentes na hora de comprar aquela passagem em dólar e ver a fatura do seu cartão ir ganhando zeros e aumentando de tamanho. 😉

Ao longo de tantos anos surfando imagino que a resposta pra todas essas perguntas é uma só: Indonésia e suas bancadas perfeitas e afiadas.

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Miragem? Não, isso é Padang Padang. Imagem: google.com

  Já fui pra lá cinco vezes, e se não fosse uma viagem tão longa e que precisasse de tanto planejamento, com certeza eu tentaria ir todo ano. Pra se ter uma idéia, do Brasil até lá são 24 horas sentado no avião, fora “layovers” em aeroporto e conexões.

A Indonésia, durante o período que vai de março até final de setembro, é um dos lugares mais constantes do planeta no quesito ondas, recebendo praticamente duas ondulações por semana vindas do extremo sul do oceano índico. Tempestades ao sul da Austrália geram as ondulações que caminham milhares de quilômetros ganhando qualidade e período até chegar e se espalhar pelo arquipélago, recebidas sempre por afiadas bancadas e por um constante vento terral. Existem ondas de todos os tipos e para todos os gostos, mas logicamente o surfista ou bodyboarder que viaja pra lá  pensa em ondas longas e tubulares, com duas ou três sessões de tubo.

Padang Padang vista de dentro.

  A variedade de ilhas e picos acaba ajudando a espalhar um pouco o crowd, e mesmo em Bali que é a ilha mais cheia e visitada por surfistas (e um dos maiores destinos turísticos do mundo), ainda é possível pegar ondas com pouco crowd, basta um carro na mão e alguma paciência. A principal onda em Bali é Padang Padang (vide imagem e vídeo acima), também conhecida como “Pipeline Balinesa”, não só na sua semelhança como onda, mas também pelo enorme crowd. Apesar de não ser uma onda tão constante, uma queda em Padang Padang é sempre obrigatória. A onda quebra do mesmo jeito em qualquer tamanho, e tirar mais de 10 tubos em uma session é bem comum! Ben Player é um visitante habitual e tem nessa onda uma de suas preferidas. São duas sessões de tubo bem definidas, com um “bowl” no final perfeito para manobras, sempre em cima de uma das mais afiadas bancadas.

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G-Land vista de cima: perfeição. Imagem: google.com

  Mas depois de instalado em Bali por alguns dias, é obrigatória a viagem para outras ilhas, que guardam ondas ainda mais perfeitas e com menos crowd. Existem muitos destinos possíveis e relativamente fáceis de se chegar depois que você aterissou em Bali ou Jakarta, mas hoje vou falar de um lugar super tradicional e de uma das ondas mais perfeitas e constantes de todo o mundo, a esquerda conhecida como G-land.

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Visão da onda de G-land em frente ao Bobby’s Surf Camp, na maré seca. Imagem: arquivo pessoal

  Talvez o lugar onde peguei as melhores ondas na minha vida, G-land fica em uma pequena reserva florestal protegida pelo governo da Indonésia, na ponta leste da ilha de Java. É um lugar que tem toda uma mística e interessante história relativa a sua descoberta. “Diz a lenda” que dois australianos viram essa onda quebrando do alto da janela de um avião, em uma travessia de Bali para a capital Jakarta. Depois disso conseguiram ir de moto até lá, e acabaram descobrindo uma das mais perfeitas ondas de todo o mundo. Ficaram lá até acabar a comida, e prometeram voltar pra ficar ainda mais tempo. Assim foi sendo construído um pequeno “surf camp”, que tinha apenas pequenas barracas para dormir e se abrigar do sol forte.

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Bangalô dos hóspedes no Bobby’s Surf Camp: simples e suficiente. Imagem: arquivo pessoal

  Hoje em dia existem três surf camps muito bem equipados, com conforto, boa comida e tudo que um viciado em ondas precisa. Fiquei todas as últimas vezes no Bobby’s Surf Camp, que dizem ser o surf camp original. O pessoal é muito prestativo e faz de tudo para que sua estadia seja perfeita, com comida boa para repor as 8 horas diárias em cima da prancha, e uma boa cama pra se descansar bastante para o dia seguinte.

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Entrada do tradicional Bobby’s Surf Camp vista de noite. Imagem: arquivo pessoal

  Mas vamos falar finalmente da onda. G-land é uma onda bem extensa, com diferentes sessões que quebram praticamente com todos os tamanhos e direções de ondulação. Apenas a última (e melhor para nós bodyboarders) sessão que precisa de um swell com um tamanho maior e uma direção específica. A onda só não é tão tubular bem no seu começo, mas de resto é uma combinação de sessões de tubo encaixando uma na outra até o final. Não é nada fora do normal pegar até 4 tubos na mesma onda, e mesmo quebrando em cima de uma bancada de coral, G-land funciona melhor com a maré cheia ou até meia maré, o que garante certa segurança e um pouco mais de água na bancada caso você fique pra trás em algum tubo ou acabe vacando. A onda funciona também com maré seca, mas dependendo da ondulação as diferentes sessões tendem a correr e fechar mais tornando a queda mais perigosa. A última sessão, chamada Speedies, só funciona com um swell grande, e se você der sorte de pegar um dia em Speedies ela garantirá tubos bem quadrados e com uma saída quase sempre garantida, como nas fotos que aparecem nesse post, das minhas viagens pra lá em 2013 e 2006.

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Quando entra um swell um pouco maior, a famosa bancada “Speedies” começa a quebrar dobrando o lip e criando tubos quadrados. Imagem: arquivo pessoal

  A ida até G-land hoje em dia é relativamente simples, pega-se um barco em Bali, e depois de duas horas de relativo sacolejo você está de frente para uma das melhores esquerdas do mundo. Antigamente ia-se de carro, uma jornada que durava a noite toda, com um motorista balinês dirigindo nas estreitas e perigosas estradas de mão dupla e sem acostamento. A opção do barco é além de mais rápida, muito mais segura.

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Ondas tubulares e vento terral são uma constante durante toda a temporada de ondas. Imagem: arquivo pessoal

  Como o blog tem muito do caráter técnico do nosso esporte, vou entrar em detalhes de equipamento pra se surfar G-land e também na Indonésia. Como todos devem saber, a Indonésia fica situada exatamente em cima da linha do equador, e seu clima é bem definido, com uma estação seca e outra de chuvas. Não existe “inverno”, e a água é sempre quente na época de ondas. Em alguns dias específicos a água pode ficar mais gelada, mas isso é raro. Isso quer dizer que você precisa de uma prancha mais dura, e que seja rápida o suficiente para se passar sessões enormes muitas vezes. Eu sempre uso uma prancha de PP, com um stringer, para garantir essa rigidez. Mas a prancha tem que ter uma boa remada, já que muitas vezes você estará remando em paredes de água de até 10 pés. Aquela pranchinha menor, que funciona bem em um beach break rápido como Paúba, não te dará essa remada toda. O segredo aqui é uma boa flutuação e uma prancha com bastante velocidade. Pranchas mais moles te deixarão pra trás na primeira balançada dentro do tubo.

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Uma imagem vale mais do que mil palavras. Junho de 2006. Imagem: arquivo pessoal

  G-land te dá também a grande facilidade de ficar apenas aguardando a entrada do swell pela previsão em Bali, e depois da confirmação da ondulação você pode simplesmente fazer sua reserva e ir de barco no dia seguinte. Mas isso garantirá também um crowd razoável em ondulações certeiras e de período alto. Peguei os melhores dias lá em ondulações que não pareciam nada demais pela previsão e acabaram não atraindo muito crowd. Lembrando que lá é o lugar mais constante da Indonésia junto com as Ilhas Mentawaii, então se não tiver onda em G-land não vai ter onda em lugar algum.

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G-Land e sua perfeição em julho de 2013. Imagem: arquivo pessoal

  Imagino que essa viagem é uma das que mais vale a pena, seja pela qualidade de ondas, pela garantia de encontrar swell durante a estadia, e também pelo relativo baixo custo, comparado com outros destinos de água quente, fundo de coral e ondas perfeitas. Bali é bem barato no geral (acomodação e alimentação por volta de 25 a 30 dólares por dia), e gasta-se em G-land por volta de 90 dólares por dia, com tudo já incluso. Pode se fechar a estadia em G-land por 3, 6 ou 9 dias e ir estendendo caso chegue mais um swell (o que não é raro). Perto do que cobram os resorts das Ilhas Mentawaii, Ilhas Fiji ou Micronésia, é relativamente barato. E tudo isso vem junto com a certeza de algumas dezenas de tubos. Ou seriam centenas? Aí vai depender de você!

Até a próxima, boas ondas!

Paulo Fleury

Esse post tem o apoio da agência de viagens Widex Travel, que tem toda a experiência e know-how pra te colocar de frente para Padang Padang, G-Land e todas as ondas da Indonésia, pelo menor preço. Qualquer dúvida entre no site deles ou ligue lá pra ser muito bem atendido!

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