Somos diferentes.

Esse mês não vou falar sobre materiais, siglas, fatos históricos ou outros assuntos que já apareceram aqui. Reproduzo aqui o texto que o grande Elmo Ramos me pediu e que eu tive a honra de escrever para a edição comemorativa da Revista RideIt!.

Enjoy!

13 JUL-0477

“Somos Diferentes”

“Nos últimos anos e mais precisamente na última década vimos nosso esporte praticamente “andar em um carrinho de montanha russa”. Da indefinição e queda no começo dos anos 2000, com o fim da revista Bodyboarding Magazine depois de quase 20 anos nos EUA, a criação do visionário Supertour em 2002, e em seguida com o fim da autoridade máxima do esporte, a GOB. Vimos também depois disso uma grande subida com o domínio não só do mercado mundial mas também da cena competitiva pelos atletas australianos (com alguns títulos mundiais) e suas mais de 10 marcas de pranchas e outros equipamentos.

A Austrália tomou então por completo a direção do esporte na criação do maior e melhor circuito mundial já visto, depois da criação de uma nova entidade chamada IBA, e vimos em 2012 o ápice de todo o potencial de mídia e disposição dos atletas em ondas de consequência que esse esporte tem. A internet nos mostrou com uma produção extremamente profissional etapas incríveis em Pipeline, El Frontón, Puerto Escondido e também na Austrália, com disputas em ondas moldadas para o esporte, como Nuggan e duas reedições do “The Box Challenge”, onda usada ironicamente hoje em dia pelo circuito mundial de Surf.

Com a referência das mídias sociais vimos o quanto o esporte é popular no mundo, somando milhares de acessos e “views” nos canais oficiais do YouTube e na página da IBA no Facebook. Tudo parecia caminhar para aquilo que todos a muito tempo esperavam e ainda esperam, que é a explosão do esporte na mídia não especializada e seu merecido reconhecimento com os mais de 20 títulos mundiais aqui no Brasil.

Mas de uma hora pra outra esse cenário desmoronou mais uma vez, a IBA repetiu o caminho percorrido pela GOB e se dissolveu, criou-se então mais uma associação, mas chegamos ao fundo do poço esse ano novamente com o cancelamento da etapa em Pipeline (algo que já tinha acontecido duas vezes desde o primeiro “Pipe Masters” em 1982) e uma enorme incerteza quanto ao calendário competitivo. O Bodyboarding voltou quase a estaca zero, e hoje é chamado por muitos de “o esporte de ação que continua hibernando”.

E trazendo todo esse pequeno histórico nesse texto, na edição comemorativa de uma revista que marcou história no cenário brasileiro e mundial, você que é leitor me pergunta: onde você está querendo chegar com tudo isso?

Hoje vemos o Surf praticado “de pé” dominando a mídia de uma maneira concreta, os integrantes do tal grupo chamado “brazilian storm” estão em alta e aparecem constantemente na mídia não especializada. E aí eis que surge aquela dúvida, e também para muitos um sentimento “estranho”, que não chega a ser inveja, mas sim uma grande vontade de que o Bodyboarding, um esporte jovem na sua concepção moderna atual, mas milenar na sua forma pura, tivesse algo perto desse reconhecimento.

E eu acabo questionando aqui esse sentimento e talvez essa falta que o esporte faz hoje na mídia, apesar de uma visibilidade pontual em canais de televisão fechada. E questiono de uma maneira simples, a partir da visão de quem enxerga o nosso esporte como algo que se pratica acima de tudo, com muita dedicação, muita paixão e pouca preocupação com o que as pessoas pensam ou acham. Tenho certeza de que, se você em algum momento de sua vida escolheu e continua até hoje pegando onda com a ajuda de uma prancha e um par de nadadeiras, é porque você realmente gosta disso. Não é definitivamente para agradar ninguém, não é pra impresionar sua vizinha bonitinha nem para alguém achar que você está “abafando” em um domingo de sol e praia lotada. Se você chegou até aqui e está lendo esse texto, você já é um vencedor.

Se nós chegamos até aqui, se você tem décadas de prática, ou começou a pouco tempo em cima dessa combinação estranha de espumas de diferentes densidades, calçando um pé de pato que muitas vezes machuca seus pés, não foi por causa da propaganda na TV, não foi por causa do “mainstream”, do outdoor no meio da rua, muito menos foi pensando no que sua vizinha acha. Foi porque você ama esse esporte. E nada nem ninguém vai tirar isso de você. Nós usamos equipamentos diferentes, esquisitos até, e isso já mostra como pegar onda de bodyboard é algo único, seja nas cores diferentes da sua prancha, na escolha das ondas ou na sua atitude dentro d’água quando sobe aquela série maior do dia e você rema com todas as forças para pegá-la.

E todo esse sentimento, essa paixão que todos nós temos e essa vontade imensa de manter esse esporte no alto se traduz também no jeito como nos relacionamos com outros bodyboarders, sejam eles amigos, conhecidos ou não. É muito difícil ver algum bodyboarder descendo a onda do outro de propósito, sempre nos respeitamos ao máximo, e é raro não cumprimentar alguém que você encontre dentro d’água, por mais que você não o conheça. Isso é a mais pura tradução de um sentimento de “estamos no mesmo barco, você também é um lutador e venceu como eu”. Então reconhecemos sempre isso dizendo um simples “olá” ou puxando conversa com outros bodyboarders.

O que eu quero dizer com esse texto é simples: nós não precisamos do reconhecimento de ninguém, o tamanho dessa paixão já define nossa força. Com ou sem espaço na mídia, com ou sem brazilian storm, com ou sem campeonato em Pipeline. Naquela manhã fria de inverno, onde o mar está enorme, são 5:30 da manhã e a sua roupa de borracha está molhada do dia anterior, nada disso importa. Você só quer calçar seus pés de pato e pegar onda. O resto é resto.

Nós somos bodyboarders, e isso simplesmente basta.”

Paulo Fleury

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7 de Dezembro de 2013: um dia épico

O ano de 2013 pode ser considerado como um bom ano em relação a ondulações e condições do mar aqui no estado de São Paulo. Desde o começo de março do ano passado várias ondulações marcharam em direção ao litoral paulista, proporcionando dias muito bons ao longo de toda a extensão da costa. No Guarujá, onde eu costumo surfar geralmente nos finais de semana, consegui pegar boas ondas, inclusive com um final de semana clássico no meio do mês de maio, com ondas de quase 1,5m perfeitas na Praia do Pernambuco sem praticamente ninguém, em pleno sábado.

Mas quase no final do ano, quando todos já estavam conformados com o verão, calor, praia cheia e escassez total de ondas, no primeiro final de semana de dezembro um potente swell de sul apareceu nos principais sites de previsão de onda, com um padrão não tão comum, e que fez muita gente ficar de antenas ligadas. Esse swell nem apareceu nos gráficos com tanto tamanho, algo em torno de 2.5/2.6 metros, mas o que chamava a atenção era o tamanho do período (16s) e sua constância durante todo o dia, junto com o já tão esperado vento leste. Totalmente incomum para essa época do ano. E o mais importante pra quem mora na capital como eu: em pleno sábado.

IMG_4570Por volta do meio dia esse era o cenário pra quem chegava na praia, altas ondas com o terral já funcionando. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

No dia 6 de dezembro no final do dia, sexta-feira, coloquei todo o equipamento dentro do carro e rumei pro Guarujá, pra na manhã seguinte acordar bem cedo e ir pra Paúba. Como o swell era totalmente oceânico, chegando no Guarujá a noite não havia nem sinal de vento ou de que o tempo iria mudar. Ficou aquela dúvida, será que o swell atrasou? Ou será que vai subir mesmo no esquema “havaiano” de swell oceânico e período alto ao longo do dia? Não quis duvidar muito e já liguei pro fotógrafo e bodyboarder Rodrigo Nattan pra me acompanhar e registrar tudo. Bruno Rocha também foi junto com a gente, querendo pegar as maiores. A gente mal sabia que estava indo testemunhar um dos melhores dias dos últimos anos.

1294387_245030125663155_225171202_oE aí, vai encarar? Imagem: SurfSalada

Chegando lá depois de quase 2 horas de carro a partir do Guarujá, as ondas já tinham um tamanho, mas ainda não estava tão grande. Percebia-se o balanço diferente do mar, mas quase todas as séries ainda fechavam em cima do raso banco a poucos metros da areia, talvez um sinal de que as condições ainda estavam se transformando. Dentro d’água já estavam Carlos Cintra e Maude Lisboa, figuras carimbadas em Paúba a bastante tempo. Saíram pouco tempo depois dizendo que o mar estava difícil e já um tanto perigoso. Preferi esperar mais um pouco e observar como estava o intervalo entre as séries e qual o real tamanho das ondas.

IMG_4275No começo do dia as ondas não estavam grandes, mas já se sentia um balanço diferente. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

Já fui me aprontando, passando protetor solar no rosto, parafina na prancha e escutando uma música pra dar aquele empurrãozinho a mais. Uma hora depois da gente chegar, as ondas já batiam facilmente quase nos 2 metros de face nas séries maiores, e as condições pareciam melhorar com uma leve brisa de vento terral. Também já estavam no mar ou se aprontando na areia gente que sempre bate o cartão nas ondas de Paúba, casos de Renato Tamasato, Sérgio Lazoski, Giuliano Arinelli, Fabio Sanches, Bruno Brito, Celso Luiz e a lenda viva Adílson “Chumbinho”, entre outros. Vamos pra água!

175209_706585072698560_927985060_oOndas de sonho relativamente perto de casa. Gustavo Martins em mais uma. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

 Como eu sempre abordo a parte técnica aqui no blog, nesse dia usei uma prancha que comprei exclusivamente pra surfar dias como esse em Paúba, uma Found Mitch Rawlins 42′. É uma prancha extremamente estreita, e com o bloco bem fino. Essa combinação permite fazer drops e cavadas no limite, sendo que a cavada (graças à rabeta e ao shape muito estreitos) é sempre muito rápida. Naquele drop bem atrasado, com o lip de uma onda de 2 metros já te “engolindo” por cima, a rapidez na cavada é quase questão de “vida ou morte”. O bloco mais fino garante uma flexibilidade extra, sem deixar a prancha mole e evitando os “coices” típicos de pranchas muito duras. Recomendo esse tipo de prancha pra quem surfa ondas extremamente fortes e cavadas com frequência. Em ondas mais fracas e cheias essa prancha simplesmente não anda, então é melhor guardar aquela prancha mais larga pra dias mais comuns. Durante todo o dia a prancha se comportou muito bem, e ás vezes eu precisava até atrasar um pouco mais em algumas ondas, já que a prancha segurava muito bem o drop e acelerava demais depois de cavar.

paulo_fleury_pauba07dez2013_foto_herbert_passos_neto002Final de tarde de sonho e o autor desse blog se divertindo. Imagem: HPN Mídia

Depois de entrar no mar, lembro de pegar no começo ondas menores, pra ir acostumando com as condições. Paúba está longe de ser uma onda fácil, lá o posicionamento é 80% do seu sucesso ou de um possível fracasso. Por isso é bem interessante sempre observar por um tempo e entender como as ondas se deslocam quase que de lado ao longo da praia. Nem sempre a maior onda da série será a melhor, então tem que ficar sempre de olho no crowd e em quem está pegando as melhores. E nesse quesito Gustavo Martins na maioria das vezes é o nome a ser batido. Gustavo sempre está perfeitamente posicionado, e tem uma leitura de ondas muito inteligente. Nesse dia ele pegou definitivamente as maiores e mostrou toda a sua experiência de mais de 15 anos surfando esse pico. Prova de que experiência, talento e preparo físico garantem seu sucesso em qualquer esporte.

1415138_244662385699929_315275950_oTe desafio a dizer que tamanho tem essa onda. Gustavo Martins em uma das maiores do dia. Imagem: SurfSalada

As ondas a partir das 11 horas da manhã ganharam corpo, e surpreendentemente o mar não ficou fora de controle, o que é raro na maioria dos beach breaks aqui no Brasil. Acho que graças ao período bem alto (em torno de 16 segundos), o intervalo entre as séries permitia que toda a massa de água voltasse sem formar tanta correnteza, garantindo que as próximas ondas tivessem boa formação. A direção do swell também ajudou, era um swell vindo de sul, totalmente puro e me arrisco a dizer que esse foi o único dia em que vi Paúba quebrar maior que Maresias. Santiago (por relatos) não estava bom, o que prova que não havia nem um pouco de influência de sudeste na direção desse swell épico.

IMG_4567 copyCondições épicas. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia 

Durante esse dia devo ter surfado algo em torno de 6 a 8 horas, saindo do mar apenas pra comer alguma coisa e também para ver um pouco a performance de todos dentro da água. Como as condições não estavam fáceis, o crowd muito comum em Paúba nos dias menores acabou não atrapalhando, e pegar ou não uma onda boa dependia apenas da sua disposição e paciência. Destaque máximo para os kamikazes Carlos Cintra e Renato Tamasato, que se jogavam nas maiores sem se preocupar muito se as ondas iriam abrir. Destaque também para o campeão paulista profissional Bruno Rocha, que pegou ondas grandes e muitos tubos durante o dia. Eu acabei optando por uma estratégia que sempre faço, de esperar mais e pegar somente as ondas que fossem realmente muito boas. Acabei recompensado com uma esquerda bem longa no começo da tarde (vide foto abaixo), e uma direita no final do dia, que foi inclusive destaque de várias páginas na revista “RideIt!” e também publicada pela revista australiana LeBoogie em suas mídias sociais.

pauba esquerda compUm dos muitos tubos do dia. Imagem: Fabio Sanches

Outro destaque do dia foi a solidez do swell, em momento algum as ondas diminuíram de tamanho ou frequência, séries enormes entraram o dia todo sem parar, e no dia seguinte ainda tinha cerca de 1 metro para alegria dos fissurados e também dos que não competiram na última etapa do Circuito Paulista que rolou no Guarujá no dia 8.

Confira mais algumas fotos desse dia:

IMG_4429Gustavo Martins dominou todas as ações nesse dia. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

10178294_235231826680545_1035134162_nGiuliano Arinelli descendo uma bomba. Imagem: SurfSalada

IMG_4357Condições sólidas durante o dia todo. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

IMG_5033No final do dia, já com o sol quase no horizonte, as ondas ainda continuavam sólidas. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

IMG_8841Fabio Sanches em uma bela esquerda no meio da praia. Imagem: Paula Barrientos

IMG_4409Apesar do crowd muitas ondas acabaram quebrando sozinhas. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

IMG_4681Gustavo Martins no que foi talvez o melhor tubo desse dia incrível. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

IMG_4470Alemão Jettner despencando. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

10245001_10151961607662471_1962780596_oRenato Tamasato botando pra baixo. Imagem: SurfSalada

IMG_4493Bruno Rocha em uma boa esquerda. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

IMG_5076Outro ângulo da onda que eu peguei no final de tarde. Imagem: Rodrigo Nattan Fotografia

Dias como esse sempre serão lembrados, dada a complexidade da combinação de todos os fatores climáticos que são necessários para que ondas desse nível quebrem aqui no Brasil. Ao final do dia chegou-se a conclusão por todos que um dia perfeito igual a esse talvez aconteça só de 10 em 10 anos. E eu realmente não duvido muito disso.

Confesso que fiquei com alguma dúvida em relação a escrever ou não esse post, já que Paúba nos últimos anos tem ficado cada vez mais e mais crowd. Muita gente vai pra lá e não tem a mínima idéia do que está fazendo dentro da água e do tanto que essa onda é perigosa. Mas diversos vídeos de surf tem pipocado direto na mídia também e acho que eles tem bem mais espaço e acabam gerando muito mais publicidade do que um simples post nesse blog.

Agradecimentos ao fotógrafo Rodrigo Nattan, por ceder quase todas as fotos desse post, acesse a página dele no Facebook e dê um like!

Rodrigo Nattan Fotografia

E também a academia SP Fit Club, que me patrocina e garante meu preparo em dias como esse. Se você mora em São Paulo/capital e busca um preparo físico sério acesse o site da academia e saiba mais detalhes.

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www.spfitclub.com.br

Até a próxima, te vejo na água!

Paulo Fleury

 

Novos materiais: desvendando algumas opções do mercado atual

Hoje vou falar detalhadamente de alguns materiais e diferentes versões e combinações disponíveis no mercado. Talvez esse post fique um pouco longo, mas o assunto rende sempre bastante discussão pra quem se interessa e gosta.

Nos últimos anos muito tem se falado dos materiais disponíveis nas mais de 10 marcas de ponta existentes hoje no mercado internacional. Bem diferente de antigamente, quando não haviam opções nem de tamanho (praticamente todas as pranchas eram 43″), e muito menos de bloco, hoje em dia algumas marcas oferecem 4 combinações diferentes de bloco e stringer para cada modelo, como eu já escrevi no post inaugural do blog. O mercado australiano domina o lançamento de novas tecnologias (por razões óbvias) e nos últimos anos vimos a chegada de pelo menos dois novos blocos, lançados pela principal fábrica de pranchas de bodyboard, localizada na Indonésia.

O Bodyboarding foi, desde o começo, dominado pelo Polietileno (também chamado de PE ou Dow), um material já largamente utilizado para produzir embalagens de plástico. O bloco, deck e bordas eram sempre feitos desse material em diferentes densidades. Isso durou praticamente 20 anos, e apesar do surgimento do Arcel no final dos anos 80, o PE reinou absoluto até meados da década de 90, quando apareceu o Polipropileno (PP). O PP é uma espuma mais leve, mais resistente e mais moderna, e só não enterrou de vez o PE depois do seu uso na fabricação de pranchas por ser muito rígido em locais com água mais gelada, como Portugal, Austrália e costa oeste dos EUA. No Brasil depois do fim da Morey Boogie nacional, não houve muita mudança e o cenário infelizmente é praticamente o mesmo desde então, com um pequeno mercado sem inovação a anos (como já comentado aqui também).

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Até meados dos anos 90 quase não existiam opções de bloco e tamanho. Aqui um anúncio da Morey Boogie em 1994, com modelos feitos inteiramente em PE, e Mike Stewart humilhando os simples mortais. Imagem: arquivo pessoal

  Com a diminuição do uso do PE em blocos a partir de 2009 (junto com uma lenda talvez infundada de que a Dow Chemical não fabrique mais blocos de PE), os bodyboarders que surfam em água gelada ou que gostam de um bloco mais flexível se viram com um problema. De início a indústria criou alternativas fundindo os dois materiais (como o bloco “3D” utilizado pela VS/NMD e também pela Pride por volta de 2010 e ainda vendido na Europa), e depois foram sendo desenvolvidos blocos de PP com diferentes densidades, com cada marca os chamando por um nome diferente. Hoje todas as marcas tem essa opção, casos do NRG (VS./NMD/Stealth/Pride), Loaded (Science), EFC (Nomad/Funkshen/QCD) e Paradox Cell (Found). Cada marca utiliza uma densidade diferente, sendo as mais comuns 1.4 e 1.6 libras, sempre combinadas com tela e stringer pra garantir sua resistência. Em Portugal a Refresh vem experimentando diferentes combinações também em suas pranchas sob medida, mas hoje falaremos apenas do que está disponível em lojas ao redor do mundo.

Graças a essas novas densidades, que deixaram o bloco de PP mais leve e mais flexível, novas combinações e “sanduíches” de material foram criados. A NMD colocou duas telas junto com 3 stringers nos blocos NRG, com uma versão também de stringer simples e uma espécie de pilar estrutural embaixo do deck. Outras marcas colocaram stringers “flat” moldados diretamente dentro do bloco. Essa combinação parece perfeita pra água fria, já que utiliza a flexibilidade de um bloco de baixa densidade com a estrutura das telas no fundo e no deck ou stringers específicos.

NMD Web Splash

O bloco Parabolic em detalhes no seu lançamento em 2011, junto de Nick Mezritz. Imagem: bodyboardingbrasil.com.br

  Mas a opção que mais chamou a atenção nos últimos anos foi criada pela mente do mais famoso shaper e desenvolvida junto com um dos atletas de ponta da atualidade. Nick Mezritz desenvolveu com Dave Winchester ao longo de 2009 e começo de 2010 o que hoje chamamos de bloco Parabolic ou PFS, e chamado por eles na época também de “carpete mágico”. É uma combinação de PP “comum” (1.9lb) no meio da prancha, e PP de baixa densidade (1.6lb) ao longo das bordas. Tudo isso colado por “vigas” estruturais (que são visíveis no deck e no fundo) com uma tela junto do Surlyn. Apesar de toda essa complexidade, a prancha tem o mesmo peso de uma prancha feita inteiramente de PP 1.9lb, mas com uma resposta totalmente diferente. Com uma NMD Parabolic, Dave Winchester dominou o Arica Chilean Challenge de 2010, e a NMD continua até hoje como a principal marca de pranchas de bodyboarding do mundo. Todos os modelos e mais informações das pranchas podem ser encontrados no site da NMD.

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Dave Winchester no Arica Chilean Challenge de 2010 com uma das primeiras pranchas PFS. Imagem: fluidzone.com

Eu particularmente só consegui comprar e testar uma prancha com esse novo bloco no final do ano passado, e surfei poucas vezes com ela. Alguns dias pequenos no Guarujá ainda não me deram uma noção completa do que esse bloco é capaz. Por isso convidei uma pessoa que tem experiência com esse bloco desde 2011, pra colocar alguns detalhes e impressões aqui e desvendar ainda mais esse assunto tão interessante pra uns, e deixado de lado muitas vezes pela maioria.

Conheço o Christian Brito de vários dias em Paúba, ele surfa lá desde 1988 e sempre que o mar sobe de verdade é figurinha carimbada, tem bastante experiência em diferentes equipamentos e viagens, ou seja, tem tudo a ver com o blog e principalmente com esse assunto:

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Christian em uma bela esquerda na Indonésia. Imagem: arquivo pessoal

“Meu primeiro bodyboard foi em 1986, uma aussie laranja e branca da Morey Boogie. De lá pra cá não parei, são quase 30 anos de esporte nos meus 40 anos de idade. Já viajei bastante ao redor do mundo e visitei diversas vezes lugares como Indonésia, América Central, África, Fiji e Noronha, sempre em busca de ondas boas e tubos.

No final de 2011 consegui uma Parabolic para usar em mais uma trip pra Noronha, e o resultado não poderia ter sido melhor. Posso dizer que a mistura de onda boa com o bloco PFS é, na minha opinião, imbatível. Fiquei simplesmente abismado com a velocidade da prancha, a projeção, a forma como ela flui na parede em ondas tubulares e permite um controle muito maior que as pranchas de PP simples. Acho que as Parabolics não se comparam com nenhuma outra prancha em termos de velocidade e projeção.

Minha humilde conclusão, portanto, é que as Parabolics projetam incrivelmente mais que os blocos normais de PP que usei até hoje, chegando até a dar a impressão que tem alguém dando um “empurrãozinho”. Mas acho que ela demanda uma linha de surf um pouco diferente pra dar este resultado. É uma prancha excelente pra se fazer um surf mais de borda, mais fluído, pois a maior flexibilidade dela está exatamente nas bordas. Talvez seja até um pouco mais dura no geral, mas quando se acerta a linha e se começa a utilizar as bordas ela simplesmente dá uma velocidade incomparável, dando ainda um controle semelhante aos blocos mais flexíveis, seja pra tubos ou manobras. Eu já tive algumas Parabolics desde 2011 até hoje, e dentre todas pranchas que tive a oportunidade de usar – não foram poucas – considero a melhor prancha disponível no mercado.”  Christian Brito

Jason Finlay mostrando do que o bloco PFS é capaz. Vídeo: IBA/YouTube

  Ou seja, fica nítido lendo o texto acima que o PFS é um bloco pra ser usado em ondas realmente boas pra Bodyboarding, e pela flexibilidade extra que ele fornece, pode ser usado em ondas com água gelada, como vimos Dave Winchester em Arica e Jason Finlay nas Ilhas Canárias. E por ser muito rápido, vai acabar funcionando naquele mar de ondas um pouco mais cheias, mas sempre levando-se em conta a linha de onda e troca de bordas.

Nick Mezritz explica pessoalmente de onde veio a idéia para criação do PFS, em vídeo disponibilizado pela loja B2BR

Com a centralização da produção mundial de pranchas em apenas duas fábricas na Ásia, nos próximos anos talvez vejamos novos materiais e novas combinações de bloco, telas e stringers. A indústria hoje (limitada a praticamente duas grandes fábricas) acaba comprando lotes únicos de material muito maiores que antigamente, e os fornecedores de matéria-prima tem olhado o mercado de uma forma diferente e se interessado em desenvolver novidades. Vide os blocos EFC moldados com stringers flat, e os stringers interligados feitos da mesma forma nas pranchas Found de Mitch Rawlins e sua turma.

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Bloco EFC Red encontrado nas pranchas Nomad, Funkshen e QCD, com seus dois stringers “flat”. Imagem: nomad.com.au

  Voltaremos a falar desse assunto, eu particularmente acredito que o material influi diretamente na performance e no estilo e linha de onda dentro d’água, e sempre me interessei demais por tudo isso. Espero que esse texto possa ir mudando um pouco o interesse das pessoas aqui no Brasil quanto a isso. Já que as pranchas importadas dominam completamente o mercado, é melhor saber exatamente o que se está comprando!

Até a próxima, te vejo dentro d’água!

Paulo Fleury

Surfando ao redor do mundo: Padang Padang e G-Land

Mais uma seção diferente aqui no blog, dessa vez falando de viagens e ondas um tanto perfeitas! Muitos me perguntam sobre as diferentes viagens que já fiz, qual um destino legal pra ir, qual o melhor custo-benefício, onde peguei as melhores e mais perfeitas ondas e por aí vai. São dúvidas recorrentes na hora de comprar aquela passagem em dólar e ver a fatura do seu cartão ir ganhando zeros e aumentando de tamanho. 😉

Ao longo de tantos anos surfando imagino que a resposta pra todas essas perguntas é uma só: Indonésia e suas bancadas perfeitas e afiadas.

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Miragem? Não, isso é Padang Padang. Imagem: google.com

  Já fui pra lá cinco vezes, e se não fosse uma viagem tão longa e que precisasse de tanto planejamento, com certeza eu tentaria ir todo ano. Pra se ter uma idéia, do Brasil até lá são 24 horas sentado no avião, fora “layovers” em aeroporto e conexões.

A Indonésia, durante o período que vai de março até final de setembro, é um dos lugares mais constantes do planeta no quesito ondas, recebendo praticamente duas ondulações por semana vindas do extremo sul do oceano índico. Tempestades ao sul da Austrália geram as ondulações que caminham milhares de quilômetros ganhando qualidade e período até chegar e se espalhar pelo arquipélago, recebidas sempre por afiadas bancadas e por um constante vento terral. Existem ondas de todos os tipos e para todos os gostos, mas logicamente o surfista ou bodyboarder que viaja pra lá  pensa em ondas longas e tubulares, com duas ou três sessões de tubo.

Padang Padang vista de dentro.

  A variedade de ilhas e picos acaba ajudando a espalhar um pouco o crowd, e mesmo em Bali que é a ilha mais cheia e visitada por surfistas (e um dos maiores destinos turísticos do mundo), ainda é possível pegar ondas com pouco crowd, basta um carro na mão e alguma paciência. A principal onda em Bali é Padang Padang (vide imagem e vídeo acima), também conhecida como “Pipeline Balinesa”, não só na sua semelhança como onda, mas também pelo enorme crowd. Apesar de não ser uma onda tão constante, uma queda em Padang Padang é sempre obrigatória. A onda quebra do mesmo jeito em qualquer tamanho, e tirar mais de 10 tubos em uma session é bem comum! Ben Player é um visitante habitual e tem nessa onda uma de suas preferidas. São duas sessões de tubo bem definidas, com um “bowl” no final perfeito para manobras, sempre em cima de uma das mais afiadas bancadas.

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G-Land vista de cima: perfeição. Imagem: google.com

  Mas depois de instalado em Bali por alguns dias, é obrigatória a viagem para outras ilhas, que guardam ondas ainda mais perfeitas e com menos crowd. Existem muitos destinos possíveis e relativamente fáceis de se chegar depois que você aterissou em Bali ou Jakarta, mas hoje vou falar de um lugar super tradicional e de uma das ondas mais perfeitas e constantes de todo o mundo, a esquerda conhecida como G-land.

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Visão da onda de G-land em frente ao Bobby’s Surf Camp, na maré seca. Imagem: arquivo pessoal

  Talvez o lugar onde peguei as melhores ondas na minha vida, G-land fica em uma pequena reserva florestal protegida pelo governo da Indonésia, na ponta leste da ilha de Java. É um lugar que tem toda uma mística e interessante história relativa a sua descoberta. “Diz a lenda” que dois australianos viram essa onda quebrando do alto da janela de um avião, em uma travessia de Bali para a capital Jakarta. Depois disso conseguiram ir de moto até lá, e acabaram descobrindo uma das mais perfeitas ondas de todo o mundo. Ficaram lá até acabar a comida, e prometeram voltar pra ficar ainda mais tempo. Assim foi sendo construído um pequeno “surf camp”, que tinha apenas pequenas barracas para dormir e se abrigar do sol forte.

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Bangalô dos hóspedes no Bobby’s Surf Camp: simples e suficiente. Imagem: arquivo pessoal

  Hoje em dia existem três surf camps muito bem equipados, com conforto, boa comida e tudo que um viciado em ondas precisa. Fiquei todas as últimas vezes no Bobby’s Surf Camp, que dizem ser o surf camp original. O pessoal é muito prestativo e faz de tudo para que sua estadia seja perfeita, com comida boa para repor as 8 horas diárias em cima da prancha, e uma boa cama pra se descansar bastante para o dia seguinte.

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Entrada do tradicional Bobby’s Surf Camp vista de noite. Imagem: arquivo pessoal

  Mas vamos falar finalmente da onda. G-land é uma onda bem extensa, com diferentes sessões que quebram praticamente com todos os tamanhos e direções de ondulação. Apenas a última (e melhor para nós bodyboarders) sessão que precisa de um swell com um tamanho maior e uma direção específica. A onda só não é tão tubular bem no seu começo, mas de resto é uma combinação de sessões de tubo encaixando uma na outra até o final. Não é nada fora do normal pegar até 4 tubos na mesma onda, e mesmo quebrando em cima de uma bancada de coral, G-land funciona melhor com a maré cheia ou até meia maré, o que garante certa segurança e um pouco mais de água na bancada caso você fique pra trás em algum tubo ou acabe vacando. A onda funciona também com maré seca, mas dependendo da ondulação as diferentes sessões tendem a correr e fechar mais tornando a queda mais perigosa. A última sessão, chamada Speedies, só funciona com um swell grande, e se você der sorte de pegar um dia em Speedies ela garantirá tubos bem quadrados e com uma saída quase sempre garantida, como nas fotos que aparecem nesse post, das minhas viagens pra lá em 2013 e 2006.

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Quando entra um swell um pouco maior, a famosa bancada “Speedies” começa a quebrar dobrando o lip e criando tubos quadrados. Imagem: arquivo pessoal

  A ida até G-land hoje em dia é relativamente simples, pega-se um barco em Bali, e depois de duas horas de relativo sacolejo você está de frente para uma das melhores esquerdas do mundo. Antigamente ia-se de carro, uma jornada que durava a noite toda, com um motorista balinês dirigindo nas estreitas e perigosas estradas de mão dupla e sem acostamento. A opção do barco é além de mais rápida, muito mais segura.

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Ondas tubulares e vento terral são uma constante durante toda a temporada de ondas. Imagem: arquivo pessoal

  Como o blog tem muito do caráter técnico do nosso esporte, vou entrar em detalhes de equipamento pra se surfar G-land e também na Indonésia. Como todos devem saber, a Indonésia fica situada exatamente em cima da linha do equador, e seu clima é bem definido, com uma estação seca e outra de chuvas. Não existe “inverno”, e a água é sempre quente na época de ondas. Em alguns dias específicos a água pode ficar mais gelada, mas isso é raro. Isso quer dizer que você precisa de uma prancha mais dura, e que seja rápida o suficiente para se passar sessões enormes muitas vezes. Eu sempre uso uma prancha de PP, com um stringer, para garantir essa rigidez. Mas a prancha tem que ter uma boa remada, já que muitas vezes você estará remando em paredes de água de até 10 pés. Aquela pranchinha menor, que funciona bem em um beach break rápido como Paúba, não te dará essa remada toda. O segredo aqui é uma boa flutuação e uma prancha com bastante velocidade. Pranchas mais moles te deixarão pra trás na primeira balançada dentro do tubo.

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Uma imagem vale mais do que mil palavras. Junho de 2006. Imagem: arquivo pessoal

  G-land te dá também a grande facilidade de ficar apenas aguardando a entrada do swell pela previsão em Bali, e depois da confirmação da ondulação você pode simplesmente fazer sua reserva e ir de barco no dia seguinte. Mas isso garantirá também um crowd razoável em ondulações certeiras e de período alto. Peguei os melhores dias lá em ondulações que não pareciam nada demais pela previsão e acabaram não atraindo muito crowd. Lembrando que lá é o lugar mais constante da Indonésia junto com as Ilhas Mentawaii, então se não tiver onda em G-land não vai ter onda em lugar algum.

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G-Land e sua perfeição em julho de 2013. Imagem: arquivo pessoal

  Imagino que essa viagem é uma das que mais vale a pena, seja pela qualidade de ondas, pela garantia de encontrar swell durante a estadia, e também pelo relativo baixo custo, comparado com outros destinos de água quente, fundo de coral e ondas perfeitas. Bali é bem barato no geral (acomodação e alimentação por volta de 25 a 30 dólares por dia), e gasta-se em G-land por volta de 90 dólares por dia, com tudo já incluso. Pode se fechar a estadia em G-land por 3, 6 ou 9 dias e ir estendendo caso chegue mais um swell (o que não é raro). Perto do que cobram os resorts das Ilhas Mentawaii, Ilhas Fiji ou Micronésia, é relativamente barato. E tudo isso vem junto com a certeza de algumas dezenas de tubos. Ou seriam centenas? Aí vai depender de você!

Até a próxima, boas ondas!

Paulo Fleury

Esse post tem o apoio da agência de viagens Widex Travel, que tem toda a experiência e know-how pra te colocar de frente para Padang Padang, G-Land e todas as ondas da Indonésia, pelo menor preço. Qualquer dúvida entre no site deles ou ligue lá pra ser muito bem atendido!

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As marcas de surfwear e sua relação com o Bodyboarding

A discussão em torno das marcas de surfwear e seu apoio ou desprezo ao mercado do Bodyboarding mundial não vem de hoje. Ela data da metade dos anos 90, com o começo de uma crise mundial na época e a consequente retirada de muitas marcas do mercado em geral.

Pra quem não sabe as marcas de surfwear já investiram pesado no nosso esporte, inclusive com as chamadas “Big Threes” (Billabong, Rip Curl e Quiksilver) mantendo grandes times de atletas e em alguns casos até linhas de prancha, como é o caso da Quiksilver com as chamadas Q-boards na metade dos anos 90. (vide imagem abaixo). Pela lógica nós bodyboarders temos o mesmo estilo de vida, e gostamos de quase as mesmas coisas que nossos “tão queridos” amigos surfistas. Isso já seria o suficiente para despertar o interesse de marcas que lucram milhões de dólares fazendo um ciclo de investimentos em atletas e imagem, para que esse estilo de vida gere interesse em possíveis consumidores, surfistas ou não. Mas essa lógica não tem sido suficiente, e hoje o esporte não consegue ainda se firmar com o seu ciclo próprio de marcas e consumidores.

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Não, isso não é uma miragem. É sim um anúncio da Quiksilver e sua linha de pranchas na Austrália, por volta de 1999. Imagem: Arquivo pessoal

  No surgimento e consequentemente no chamado “boom” do esporte, do final da década de 80 em diante, até o meio da década de 90, pegar onda com uma prancha de bodyboard além de muito divertido fazia parte do que era moda na época. Comerciais de TV mostravam como o Bodyboarding era simples, seguro e divertido, e a mídia aberta cobria a maioria dos eventos e campeonatos. Isso acabou chamando muito a atenção das marcas que faziam parte do universo do surf, e que inteligentemente não queriam perder uma bela fatia do mercado formada por “novatos” que começavam a praticar um esporte relacionado à praia. Sendo assim Billabong, Rip Curl e Quiksilver, junto com outras marcas menores, patrocinavam atletas do agitado mundo do Bodyboarding na época.

Mike Stewart teve por algum tempo patrocínio das roupas de borracha O’neill e também da marca Gotcha (que depois se tornou MCD), a Billabong tinha em Seamas Mercado seu garoto propaganda, e a Quiksilver apostava na jovem promessa do dropknee Paul Roach. Sem falar em marcas menores e seus respectivos atletas como a Body Glove e Local Motion que patrocinavam Ben Severson, um dos maiores nomes na época.

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Mike Stewart e seu estilo inconfundível estrelando anúncio da O’neill, por volta de 1992. Imagem: Arquivo pessoal

  Mas depois que o Bodyboarding deixou de ser novidade, as marcas foram gradativamente deixando o esporte de lado, juntando-se à idéia de que era algo pra iniciantes, e que não colaboraria com a imagem “descolada” que o surf buscava na época. Com uma crise econômica crescente nos EUA, apenas as filiais locais das marcas mantiveram os patrocínios aos atletas, caso de Ben Player pela Quiksilver, e o grande time que a Billabong possuia na Austrália, com nomes como Ryan Hardy, Andrew Lester, Mitch Rawlins, Damian King, Matt Lackey e também com o sul africano Andre Botha. Como a Austrália já era uma potência como mercado, ninguém queria deixar de lado todo esse potencial.

  Mas no resto do mundo era diferente, e uma grande crise econômica nos EUA acabou por colocar a última pá no já decadente mercado americano, que ainda era o centro das atenções com as principais marcas. Mas já ouvi uma história de que a Quiksilver propôs a nada menos que Mike Stewart, em meados dos anos 90, um contrato de patrocínio, que não foi aceito pelo onze vezes campeão mundial. Diz a lenda que Mike Stewart exigiu à época ganhar o mesmo que Kelly Slater ganhava, como que tentando colocar o Bodyboarding no mesmo patamar de importância do surf. A Quiksilver não aceitou, e Mike Stewart depois da O’neill e da Gotcha não teve mais nenhum patrocínio de roupas ou wetsuit, continuando somente como atleta da Morey Boogie.

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A Billabong também queria uma fatia do esporte da moda, no começo dos anos 90. Aqui um anúncio na Bodyboarding Magazine, em 1991. Imagem: Arquivo pessoal

  Depois de todo esse apoio e consequente abandono, eu imagino que hoje em dia com um mundo totalmente interligado e globalizado, onde as pessoas não pensam mais sem o uso de internet e com a grande influência das mídias sociais, as grandes marcas tem um certo receio de que o Bodyboarding cresça realmente e se torne algo descolado para as massas. Exatamente do mesmo jeito que aconteceu a 25 anos atrás, quando estávamos na mídia a toda a hora. Acho até que seria um pouco de medo, já que nos últimos 10 anos os bodyboarders se tornaram referência na descoberta de ondas extremas e bizarras, colocando muito da imagem do surf apenas como algo da moda e não tão radical. O Bodyboarding está hoje no quesito radicalidade muito a frente de nossos “colegas em pé”, isso é fato.

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Paul Roach era atleta da Quiksilver em 1991. Imagem: Arquivo pessoal

  Todo esse desligamento da imagem do surf praticado em pé, que as grandes marcas quiseram tanto e ainda insistem, com a mídia impressa batendo também nessa tecla, acabou criando um ambiente propício para um pequeno crescimento do mercado de produtos específicos para Bodyboarding no mundo todo. Vimos ao longo dos últimos 5 anos um crescimento do mercado de roupas de borracha específicas para o esporte. Só na Austrália temos 6 marcas diferentes, e existem outras marcas ao redor do mundo também. Isso quer dizer que o mercado e seus respectivos consumidores não se enxergam mais como “dependentes” do mundo do surf. Se eu surfo deitado o tempo todo, porque eu vou comprar uma roupa que é feita para ser usada de pé? Pense nisso na sua próxima compra e fortaleça o nosso já limitado mercado, nada de roupa de borracha da Quiksilver, Billabong e similares. Eles não estão nem aí pra você e sua prancha de bodyboard.

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O mercado de roupas de borracha cresceu nos últimos anos. A Reeflex é um exemplo de fabricante específico para Bodyboarding. Imagem: reeflex.com.au

  Talvez o único exemplo que ainda exista de um patrocínio de uma grande marca a um bodyboarder seja o caso do francês Pierre Louis Costes com a Rip Curl, embora seu contrato seja com a filial francesa, e seu nome apareça apenas no site europeu da marca. Se a própria marca patrocinadora “esconde” seu atleta, eu pelo menos não me sinto à vontade em comprar seus produtos. Parece aquele seu conhecido que te dá tapinhas nas costas, mas quando você vai embora ele fala muito mal de você. Ou seja, queremos o seu dinheiro, mas não pegue onda deitado, isso não é tão legal aos nossos olhos. Fica aqui a reflexão, pense bem na hora de comprar aquela camiseta ou roupa de borracha da Rip Curl e de outras marcas.

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Porque a Rip Curl Internacional não patrocina nenhum bodyboarder? Aqui PLC e seu patrocínio “regional”. Imagem: bodyboardpt.com

Semana que vem tem mais, vamos falar sobre viagens, algo que está sempre na cabeça de quem pega onda. Até lá!

Paulo Fleury

Bodyboarding: o mercado brasileiro e seu despreparo e sonolência

O mercado nacional sofre já a algum tempo com a falta de boas opções quando se fala em comprar uma prancha de bodyboard. Já não bastasse a completa falta de lojas físicas especializadas (diferente de países como EUA e Austrália), o mercado foi dominado por marcas nacionais que pouco ou nada acrescentaram nos últimos 10 ou 15 anos em termos de inovação e investimento. São utilizados os mesmos materiais, os mesmos modelos, as mesmas cores, enfiados goela abaixo dos consumidores ditos “comuns” e também da maioria dos atletas profissionais que não tem nenhum tipo de apoio ou patrocínio e tem que pagar as pranchas do próprio bolso. Enquanto isso no exterior houve uma enxurrada de novas tecnologias e desenvolvimento de novos blocos e produtos, mudando completamente o mercado.

Isso acabou nos últimos anos criando no Brasil uma grande procura por pranchas importadas, e junto com a facilidade de compra através da internet, o que vemos hoje é uma avalanche de marcas estrangeiras nas ondas brasileiras. Difícil ir a algum pico tradicional do esporte hoje em dia e não ver alguém com equipamento importado. Com a estabilização do dólar americano, essas pranchas acabaram se tornando um belo negócio também financeiramente, saindo por quase o mesmo preço dos “pré-históricos” modelos nacionais. Se for colocar na balança os quesitos qualidade de construção, variedade de materiais e etc, fica claro o porque de toda essa procura. Hoje então já se consegue comprar um modelo importado inclusive de alguns sites com estoque localizado no Brasil, como é o caso da loja B2BR, que nem vende pranchas nacionais. Isso mostra como o produto importado vem engolindo a produção nacional nos últimos anos.

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Quatro diferentes opções de blocos de um mesmo modelo (NMD Ben Player) , disponíveis no mercado australiano. Da esq. para a dir.: Parabolic, Pro Ride, Kinetic PP e NRG / imagens: bodyboardking.com

Mas tudo isso não é por mero acaso. Enquanto lá fora temos até 4 ou 5 tipos de bloco para cada modelo de prancha, com opções para diferentes temperaturas de água, ondas e estilos, aqui o mercado está limitado a blocos muito duros, colocando sempre a durabilidade da prancha em primeiro lugar, algo que em condições extremas de onda pode até ser perigoso. Parece até que a essência única e singular do esporte, que é a flexibilidade da prancha em comparação as pranchas de surf, foi colocada de lado. A justificativa seria a dificuldade de importação de matéria prima de qualidade, o que encareceria ainda mais as já caras pranchas nacionais. Mesmo as pranchas importadas ainda vendidas aqui, são oferecidas em apenas uma opção de bloco, logicamente o mais duro.

  Aqui chegou-se ao cúmulo da maior marca do país anunciar em seu próprio site pranchas de uma outra marca portuguesa, atestando e assinando embaixo inconscientemente (ou seria conscientemente?) a pouca qualidade do produto nacional. Imaginem uma marca de carros vender em seu site carros importados de uma outra marca concorrente. No mínimo uma estratégia sem pé nem cabeça, pra não dizer outra coisa.

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Exemplo de publicidade na Austrália: a prancha que o campeão Ben Player usa é a mesma que você encontra na loja / imagem: bodyboardking.com

  E assim tem caminhado as marcas e o mercado de produção nacional, sem materiais de qualidade, com preços no mesmo patamar de produtos importados ou até mais caros, e sem uma identidade visual ou valor de marca que faça com que os consumidores se sintam atraídos por seus produtos. Lá fora é nítida a preocupação das marcas de ponta com o “link” entre os atletas e seus modelos de prancha, os chamados “pro models”. Todos sabem o poder que as cores tem e o quanto isso pode fazer diferença em uma venda, e as suas diferentes combinações são realmente levadas a sério e seguidas à risca. Todos acabam sabendo a qual atleta pertence aquele modelo, simplesmente pela combinação de cores da prancha. Isso se chama “identidade”, e pra uma marca é o bem mais valioso junto de sua qualidade. Enquanto isso no Brasil vemos profissionais cada hora com uma prancha com combinação de cores diferente, e não existem “coleções” de ano para ano. Os mais jovens querem usar a prancha que o campeão usa, isso é mais do que óbvio. Mas qual a cor da prancha e que tipo de rabeta que o super campeão mundial Guilherme Tâmega usa por exemplo? Não sei e ninguém sabe, cada hora é uma diferente. E é aí que está o grande erro. Na verdade o Brasil é uma mina de ouro em tamanho de mercado e número de praticantes, mas essa mina é simplesmente jogada no ralo pela pobre estratégia das poucas e sonolentas marcas nacionais.

  Talvez em 2014 algo mude de figura, já que a Genesis está fabricando a sua linha “high end” na mesma fábrica que produz algumas das melhores pranchas do mundo, estratégia essa que vem sendo usada no mundo todo para padronizar qualidade e baratear custos de produção.

  Bom, nos próximos posts vou entrar em mais detalhes sobre o mercado mundial, descrever o comportamento de alguns tipos de materiais na água, e também já tenho em mente alguns posts sobre a história do esporte e competição, inclusive tentando decifrar o que acontece com o atual circuito mundial da IBA. Tem muita coisa ainda e isso aqui foi só o começo.

  Boas ondas e te vejo na água!

  Paulo Fleury