Surfando ao redor do mundo: Padang Padang e G-Land

Mais uma seção diferente aqui no blog, dessa vez falando de viagens e ondas um tanto perfeitas! Muitos me perguntam sobre as diferentes viagens que já fiz, qual um destino legal pra ir, qual o melhor custo-benefício, onde peguei as melhores e mais perfeitas ondas e por aí vai. São dúvidas recorrentes na hora de comprar aquela passagem em dólar e ver a fatura do seu cartão ir ganhando zeros e aumentando de tamanho. 😉

Ao longo de tantos anos surfando imagino que a resposta pra todas essas perguntas é uma só: Indonésia e suas bancadas perfeitas e afiadas.

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Miragem? Não, isso é Padang Padang. Imagem: google.com

  Já fui pra lá cinco vezes, e se não fosse uma viagem tão longa e que precisasse de tanto planejamento, com certeza eu tentaria ir todo ano. Pra se ter uma idéia, do Brasil até lá são 24 horas sentado no avião, fora “layovers” em aeroporto e conexões.

A Indonésia, durante o período que vai de março até final de setembro, é um dos lugares mais constantes do planeta no quesito ondas, recebendo praticamente duas ondulações por semana vindas do extremo sul do oceano índico. Tempestades ao sul da Austrália geram as ondulações que caminham milhares de quilômetros ganhando qualidade e período até chegar e se espalhar pelo arquipélago, recebidas sempre por afiadas bancadas e por um constante vento terral. Existem ondas de todos os tipos e para todos os gostos, mas logicamente o surfista ou bodyboarder que viaja pra lá  pensa em ondas longas e tubulares, com duas ou três sessões de tubo.

Padang Padang vista de dentro.

  A variedade de ilhas e picos acaba ajudando a espalhar um pouco o crowd, e mesmo em Bali que é a ilha mais cheia e visitada por surfistas (e um dos maiores destinos turísticos do mundo), ainda é possível pegar ondas com pouco crowd, basta um carro na mão e alguma paciência. A principal onda em Bali é Padang Padang (vide imagem e vídeo acima), também conhecida como “Pipeline Balinesa”, não só na sua semelhança como onda, mas também pelo enorme crowd. Apesar de não ser uma onda tão constante, uma queda em Padang Padang é sempre obrigatória. A onda quebra do mesmo jeito em qualquer tamanho, e tirar mais de 10 tubos em uma session é bem comum! Ben Player é um visitante habitual e tem nessa onda uma de suas preferidas. São duas sessões de tubo bem definidas, com um “bowl” no final perfeito para manobras, sempre em cima de uma das mais afiadas bancadas.

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G-Land vista de cima: perfeição. Imagem: google.com

  Mas depois de instalado em Bali por alguns dias, é obrigatória a viagem para outras ilhas, que guardam ondas ainda mais perfeitas e com menos crowd. Existem muitos destinos possíveis e relativamente fáceis de se chegar depois que você aterissou em Bali ou Jakarta, mas hoje vou falar de um lugar super tradicional e de uma das ondas mais perfeitas e constantes de todo o mundo, a esquerda conhecida como G-land.

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Visão da onda de G-land em frente ao Bobby’s Surf Camp, na maré seca. Imagem: arquivo pessoal

  Talvez o lugar onde peguei as melhores ondas na minha vida, G-land fica em uma pequena reserva florestal protegida pelo governo da Indonésia, na ponta leste da ilha de Java. É um lugar que tem toda uma mística e interessante história relativa a sua descoberta. “Diz a lenda” que dois australianos viram essa onda quebrando do alto da janela de um avião, em uma travessia de Bali para a capital Jakarta. Depois disso conseguiram ir de moto até lá, e acabaram descobrindo uma das mais perfeitas ondas de todo o mundo. Ficaram lá até acabar a comida, e prometeram voltar pra ficar ainda mais tempo. Assim foi sendo construído um pequeno “surf camp”, que tinha apenas pequenas barracas para dormir e se abrigar do sol forte.

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Bangalô dos hóspedes no Bobby’s Surf Camp: simples e suficiente. Imagem: arquivo pessoal

  Hoje em dia existem três surf camps muito bem equipados, com conforto, boa comida e tudo que um viciado em ondas precisa. Fiquei todas as últimas vezes no Bobby’s Surf Camp, que dizem ser o surf camp original. O pessoal é muito prestativo e faz de tudo para que sua estadia seja perfeita, com comida boa para repor as 8 horas diárias em cima da prancha, e uma boa cama pra se descansar bastante para o dia seguinte.

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Entrada do tradicional Bobby’s Surf Camp vista de noite. Imagem: arquivo pessoal

  Mas vamos falar finalmente da onda. G-land é uma onda bem extensa, com diferentes sessões que quebram praticamente com todos os tamanhos e direções de ondulação. Apenas a última (e melhor para nós bodyboarders) sessão que precisa de um swell com um tamanho maior e uma direção específica. A onda só não é tão tubular bem no seu começo, mas de resto é uma combinação de sessões de tubo encaixando uma na outra até o final. Não é nada fora do normal pegar até 4 tubos na mesma onda, e mesmo quebrando em cima de uma bancada de coral, G-land funciona melhor com a maré cheia ou até meia maré, o que garante certa segurança e um pouco mais de água na bancada caso você fique pra trás em algum tubo ou acabe vacando. A onda funciona também com maré seca, mas dependendo da ondulação as diferentes sessões tendem a correr e fechar mais tornando a queda mais perigosa. A última sessão, chamada Speedies, só funciona com um swell grande, e se você der sorte de pegar um dia em Speedies ela garantirá tubos bem quadrados e com uma saída quase sempre garantida, como nas fotos que aparecem nesse post, das minhas viagens pra lá em 2013 e 2006.

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Quando entra um swell um pouco maior, a famosa bancada “Speedies” começa a quebrar dobrando o lip e criando tubos quadrados. Imagem: arquivo pessoal

  A ida até G-land hoje em dia é relativamente simples, pega-se um barco em Bali, e depois de duas horas de relativo sacolejo você está de frente para uma das melhores esquerdas do mundo. Antigamente ia-se de carro, uma jornada que durava a noite toda, com um motorista balinês dirigindo nas estreitas e perigosas estradas de mão dupla e sem acostamento. A opção do barco é além de mais rápida, muito mais segura.

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Ondas tubulares e vento terral são uma constante durante toda a temporada de ondas. Imagem: arquivo pessoal

  Como o blog tem muito do caráter técnico do nosso esporte, vou entrar em detalhes de equipamento pra se surfar G-land e também na Indonésia. Como todos devem saber, a Indonésia fica situada exatamente em cima da linha do equador, e seu clima é bem definido, com uma estação seca e outra de chuvas. Não existe “inverno”, e a água é sempre quente na época de ondas. Em alguns dias específicos a água pode ficar mais gelada, mas isso é raro. Isso quer dizer que você precisa de uma prancha mais dura, e que seja rápida o suficiente para se passar sessões enormes muitas vezes. Eu sempre uso uma prancha de PP, com um stringer, para garantir essa rigidez. Mas a prancha tem que ter uma boa remada, já que muitas vezes você estará remando em paredes de água de até 10 pés. Aquela pranchinha menor, que funciona bem em um beach break rápido como Paúba, não te dará essa remada toda. O segredo aqui é uma boa flutuação e uma prancha com bastante velocidade. Pranchas mais moles te deixarão pra trás na primeira balançada dentro do tubo.

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Uma imagem vale mais do que mil palavras. Junho de 2006. Imagem: arquivo pessoal

  G-land te dá também a grande facilidade de ficar apenas aguardando a entrada do swell pela previsão em Bali, e depois da confirmação da ondulação você pode simplesmente fazer sua reserva e ir de barco no dia seguinte. Mas isso garantirá também um crowd razoável em ondulações certeiras e de período alto. Peguei os melhores dias lá em ondulações que não pareciam nada demais pela previsão e acabaram não atraindo muito crowd. Lembrando que lá é o lugar mais constante da Indonésia junto com as Ilhas Mentawaii, então se não tiver onda em G-land não vai ter onda em lugar algum.

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G-Land e sua perfeição em julho de 2013. Imagem: arquivo pessoal

  Imagino que essa viagem é uma das que mais vale a pena, seja pela qualidade de ondas, pela garantia de encontrar swell durante a estadia, e também pelo relativo baixo custo, comparado com outros destinos de água quente, fundo de coral e ondas perfeitas. Bali é bem barato no geral (acomodação e alimentação por volta de 25 a 30 dólares por dia), e gasta-se em G-land por volta de 90 dólares por dia, com tudo já incluso. Pode se fechar a estadia em G-land por 3, 6 ou 9 dias e ir estendendo caso chegue mais um swell (o que não é raro). Perto do que cobram os resorts das Ilhas Mentawaii, Ilhas Fiji ou Micronésia, é relativamente barato. E tudo isso vem junto com a certeza de algumas dezenas de tubos. Ou seriam centenas? Aí vai depender de você!

Até a próxima, boas ondas!

Paulo Fleury

Esse post tem o apoio da agência de viagens Widex Travel, que tem toda a experiência e know-how pra te colocar de frente para Padang Padang, G-Land e todas as ondas da Indonésia, pelo menor preço. Qualquer dúvida entre no site deles ou ligue lá pra ser muito bem atendido!

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http://www.widextravel.com.br

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As marcas de surfwear e sua relação com o Bodyboarding

A discussão em torno das marcas de surfwear e seu apoio ou desprezo ao mercado do Bodyboarding mundial não vem de hoje. Ela data da metade dos anos 90, com o começo de uma crise mundial na época e a consequente retirada de muitas marcas do mercado em geral.

Pra quem não sabe as marcas de surfwear já investiram pesado no nosso esporte, inclusive com as chamadas “Big Threes” (Billabong, Rip Curl e Quiksilver) mantendo grandes times de atletas e em alguns casos até linhas de prancha, como é o caso da Quiksilver com as chamadas Q-boards na metade dos anos 90. (vide imagem abaixo). Pela lógica nós bodyboarders temos o mesmo estilo de vida, e gostamos de quase as mesmas coisas que nossos “tão queridos” amigos surfistas. Isso já seria o suficiente para despertar o interesse de marcas que lucram milhões de dólares fazendo um ciclo de investimentos em atletas e imagem, para que esse estilo de vida gere interesse em possíveis consumidores, surfistas ou não. Mas essa lógica não tem sido suficiente, e hoje o esporte não consegue ainda se firmar com o seu ciclo próprio de marcas e consumidores.

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Não, isso não é uma miragem. É sim um anúncio da Quiksilver e sua linha de pranchas na Austrália, por volta de 1999. Imagem: Arquivo pessoal

  No surgimento e consequentemente no chamado “boom” do esporte, do final da década de 80 em diante, até o meio da década de 90, pegar onda com uma prancha de bodyboard além de muito divertido fazia parte do que era moda na época. Comerciais de TV mostravam como o Bodyboarding era simples, seguro e divertido, e a mídia aberta cobria a maioria dos eventos e campeonatos. Isso acabou chamando muito a atenção das marcas que faziam parte do universo do surf, e que inteligentemente não queriam perder uma bela fatia do mercado formada por “novatos” que começavam a praticar um esporte relacionado à praia. Sendo assim Billabong, Rip Curl e Quiksilver, junto com outras marcas menores, patrocinavam atletas do agitado mundo do Bodyboarding na época.

Mike Stewart teve por algum tempo patrocínio das roupas de borracha O’neill e também da marca Gotcha (que depois se tornou MCD), a Billabong tinha em Seamas Mercado seu garoto propaganda, e a Quiksilver apostava na jovem promessa do dropknee Paul Roach. Sem falar em marcas menores e seus respectivos atletas como a Body Glove e Local Motion que patrocinavam Ben Severson, um dos maiores nomes na época.

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Mike Stewart e seu estilo inconfundível estrelando anúncio da O’neill, por volta de 1992. Imagem: Arquivo pessoal

  Mas depois que o Bodyboarding deixou de ser novidade, as marcas foram gradativamente deixando o esporte de lado, juntando-se à idéia de que era algo pra iniciantes, e que não colaboraria com a imagem “descolada” que o surf buscava na época. Com uma crise econômica crescente nos EUA, apenas as filiais locais das marcas mantiveram os patrocínios aos atletas, caso de Ben Player pela Quiksilver, e o grande time que a Billabong possuia na Austrália, com nomes como Ryan Hardy, Andrew Lester, Mitch Rawlins, Damian King, Matt Lackey e também com o sul africano Andre Botha. Como a Austrália já era uma potência como mercado, ninguém queria deixar de lado todo esse potencial.

  Mas no resto do mundo era diferente, e uma grande crise econômica nos EUA acabou por colocar a última pá no já decadente mercado americano, que ainda era o centro das atenções com as principais marcas. Mas já ouvi uma história de que a Quiksilver propôs a nada menos que Mike Stewart, em meados dos anos 90, um contrato de patrocínio, que não foi aceito pelo onze vezes campeão mundial. Diz a lenda que Mike Stewart exigiu à época ganhar o mesmo que Kelly Slater ganhava, como que tentando colocar o Bodyboarding no mesmo patamar de importância do surf. A Quiksilver não aceitou, e Mike Stewart depois da O’neill e da Gotcha não teve mais nenhum patrocínio de roupas ou wetsuit, continuando somente como atleta da Morey Boogie.

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A Billabong também queria uma fatia do esporte da moda, no começo dos anos 90. Aqui um anúncio na Bodyboarding Magazine, em 1991. Imagem: Arquivo pessoal

  Depois de todo esse apoio e consequente abandono, eu imagino que hoje em dia com um mundo totalmente interligado e globalizado, onde as pessoas não pensam mais sem o uso de internet e com a grande influência das mídias sociais, as grandes marcas tem um certo receio de que o Bodyboarding cresça realmente e se torne algo descolado para as massas. Exatamente do mesmo jeito que aconteceu a 25 anos atrás, quando estávamos na mídia a toda a hora. Acho até que seria um pouco de medo, já que nos últimos 10 anos os bodyboarders se tornaram referência na descoberta de ondas extremas e bizarras, colocando muito da imagem do surf apenas como algo da moda e não tão radical. O Bodyboarding está hoje no quesito radicalidade muito a frente de nossos “colegas em pé”, isso é fato.

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Paul Roach era atleta da Quiksilver em 1991. Imagem: Arquivo pessoal

  Todo esse desligamento da imagem do surf praticado em pé, que as grandes marcas quiseram tanto e ainda insistem, com a mídia impressa batendo também nessa tecla, acabou criando um ambiente propício para um pequeno crescimento do mercado de produtos específicos para Bodyboarding no mundo todo. Vimos ao longo dos últimos 5 anos um crescimento do mercado de roupas de borracha específicas para o esporte. Só na Austrália temos 6 marcas diferentes, e existem outras marcas ao redor do mundo também. Isso quer dizer que o mercado e seus respectivos consumidores não se enxergam mais como “dependentes” do mundo do surf. Se eu surfo deitado o tempo todo, porque eu vou comprar uma roupa que é feita para ser usada de pé? Pense nisso na sua próxima compra e fortaleça o nosso já limitado mercado, nada de roupa de borracha da Quiksilver, Billabong e similares. Eles não estão nem aí pra você e sua prancha de bodyboard.

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O mercado de roupas de borracha cresceu nos últimos anos. A Reeflex é um exemplo de fabricante específico para Bodyboarding. Imagem: reeflex.com.au

  Talvez o único exemplo que ainda exista de um patrocínio de uma grande marca a um bodyboarder seja o caso do francês Pierre Louis Costes com a Rip Curl, embora seu contrato seja com a filial francesa, e seu nome apareça apenas no site europeu da marca. Se a própria marca patrocinadora “esconde” seu atleta, eu pelo menos não me sinto à vontade em comprar seus produtos. Parece aquele seu conhecido que te dá tapinhas nas costas, mas quando você vai embora ele fala muito mal de você. Ou seja, queremos o seu dinheiro, mas não pegue onda deitado, isso não é tão legal aos nossos olhos. Fica aqui a reflexão, pense bem na hora de comprar aquela camiseta ou roupa de borracha da Rip Curl e de outras marcas.

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Porque a Rip Curl Internacional não patrocina nenhum bodyboarder? Aqui PLC e seu patrocínio “regional”. Imagem: bodyboardpt.com

Semana que vem tem mais, vamos falar sobre viagens, algo que está sempre na cabeça de quem pega onda. Até lá!

Paulo Fleury