Ben Severson Designs: uma pequena fábrica de inovações.

Depois de quase 6 meses sem postagens, retomo o blog com um post já planejado desde o início do mesmo, lá em 2014.

No final dos anos 90 e começo dos anos 2000, uma das principais marcas de pranchas de Bodyboard do mundo era a BSD, comandada por um dos maiores nomes da história do esporte, a lenda Ben Severson.

bz-ben-capa_colagemCapa da Bodyboarding de Setembro de 1996 com Ben Severson e a publicidade da BZ dentro da revista, já mostrando a T-10 com as bordas arredondadas. Detalhe para o monstruoso bico de 14,5 polegadas. Fonte: Arquivo Pessoal BBing Magazine

Em meados de 1997 depois de sair da BZ, Ben Severson pensou e desenvolveu uma linha completa de pranchas com algumas inovações que ele já havia usado anteriormente em alguma prancha de sua agora então marca concorrente. Alguns acessórios já haviam sido lançados em 1996 e já eram sinônimo de qualidade, caso dos leashs/estrepes de espiral branco que além de resistentes eram muito bonitos e estilosos. Havia também grips de borracha e uma cordinha para pés-de-pato que é até hoje uma das melhores na minha opinião (vide imagens abaixo).

bsd_banner-abreAlguns dos primeiros anúncios da BSD nas páginas da extinta revista americana Bodyboarding Magazine, com Ben e o também havaiano Nelz Vellocido. Fonte: Arquivo Pessoal BBing Magazine

As primeiras pranchas lançadas por Ben tinham como principal diferencial as bordas “transitional”, algo criado por ele e já testado nas últimas T-10 feitas na BZ em 1996. Eram bordas que começavam lá no bico totalmente arredondadas (já que nessa área quase não entram em contato com água numa cavada por exemplo), e a medida que iam caminhando em direção à rabeta toda a parte de baixo ia ganhando um ângulo como nas pranchas tradicionais de hoje em dia, terminando em 50/50. A idéia era que da metade pra cima da prancha as bordas não deveriam “cravar” na parede da onda nem criar qualquer tipo de resistência, apenas deslizar. Já toda a metade inferior tinha a responsabilidade de manter a prancha presa à parede da onda e te colocar no trilho. Com um template vindo das BZ, com bico grande e bordas bem paralelas, as BSD eram um foguete em ondas tubulares. Outras características únicas eram as canaletas enormes (com quase 50% a mais de tamanho das tradicionais) e uma opção bem diferente de rabeta redonda para ondas menores. Nessa época a indústria americana fabricava os melhores blocos de Polypro do mundo, e a construção das BSD era impecável com suas bordas sem emendas e acabamento primoroso. Eram pranchas que chamavam muito a atenção por essa qualidade de construção e diferentes inovações.

gear-guide_colagemAs pranchas BSD no Gear Guide da revista Bodyboarding em dois momentos: a primeira linha em outubro de 1997 (ainda com o bloco em Arcel) e o modelo “113” de rabeta redonda e bloco PE. Fonte: Arquivo Pessoal BBing Magazine

Assim como dentro d’água a disputa de Ben Severson com Mike Stewart continuou fora dela, já que suas pranchas e acessórios batiam sempre de frente com a linha Science do 9 vezes campeão mundial (numa história já contada aqui). Ben Severson tinha uma bela equipe de atletas com os havaianos Lanson Ronquilio e Nelz Vellocido, e inclusive chegou a apoiar/patrocinar atletas brasileiros como os tops do circuito mundial Hermano Castro e Soraia Rocha, licenciando também suas pranchas para serem fabricadas no Brasil pela Genesis. Uma pena que essas pranchas não tinham absolutamente nada em relação aos exemplares havaianos e seguiam com os mesmos materiais usados aqui (blocos Duralight e fundo HDPE).

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A campeã mundial Soraia Rocha com sua prancha BSD de bordas transitional numa etapa do mundial no Rio de Janeiro. Fonte: Google.com/Pedro Monteiro

Com uma crise no mercado americano a partir da metade dos anos 2000, Ben Severson acabou deixando as pranchas stock um pouco de lado e acabou reservando seu tempo apenas para pedidos custom (sob medida). Nessa época a maioria das marcas começou também a passar a produção para fábricas fora dos EUA (como a Science por exemplo), e a hoje tão  famosa fábrica capitaneada por Nick Mezritz começou a ganhar força e fabricar pranchas para quase todas as marcas. O mercado australiano começou então a ditar os rumos dos equipamentos e assim algumas marcas americanas foram perdendo o espaço que tinham junto com os reflexos da tal crise, caso da super tradicional marca californiana Toobs por exemplo. O fim da revista Bodyboarding Mag acabou também com a pequena força que o mercado americano ainda tinha, e hoje vemos um total domínio do mercado australiano. Hoje em dia a única marca americana/havaiana que ainda tem fôlego para bater de frente nos diferentes mercados ao redor do mundo é a Science de Mike Stewart e talvez também a Hubboards, infelizmente.

bsd1Anúncio em página dupla na revista americana Bodyboarding em 2000, com o modelo 2042 e o famoso leash com espiral branca. Fonte: Arquivo Pessoal BBing Magazine

Atualmente ainda é possível ter uma prancha BSD, seja fazendo um modelo sob medida a seu gosto ou encomendando um template padrão parecido com os modelos antigos. Ben Severson continua fazendo as pranchas com todas as opções disponíveis à época e pode também adaptar essas características aos templates mais atuais. Confesso que tenho muita curiosidade de fazer uma custom com medidas “atuais”, mas com o conhecimento mágico que essa lenda viva ainda tem. Uma prancha com medidas da NMD Ben Player e bordas transitional e canaletas enormes seria incrível, não?

bsds_colagemAs duas BSDs que tive o prazer de usar, uma 2042 PP e outra Custom PP com medidas de uma Science E3 da época: pranchas excelentes, mas pouco duráveis.

Nos próximos posts eu imagino que teremos algum review de prancha, já que tenho prometidos pra 2017 dois test-drives com marcas bem conceituadas no mercado. A temporada de ondas aqui na região sudeste começa logo mais e vamos aguardar.

Até o próximo post, te vejo na água!

Paulo Fleury

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